Depois de ter sido proibida de competir na Eurovisão, em 2022, por ter invadido a Ucrânia, a Rússia decidiu ressuscitar o concurso Intervision Song Contest, um festival que remonta à era soviética. O concurso, cujo regresso foi noticiado em fevereiro, acontece este sábado na Live Arena de Moscovo.

Segundo o jornal russo Pravda, a competição estreou em 1963 como uma “ponte cultural entre o Leste e o Ocidente” e chegou a contar com a participação do Canadá, Espanha, Marrocos e até Portugal. A última edição aconteceu em 2008.

Nesta nova edição, o Festival da Canção russo pretende destacar os “valores tradicionais” com “baladas patrióticas” que promovem a “identidade nacional”, contando com 23 países concorrentes, entre eles a China, a Índia e o Brasil, reporta a agência Reuters. Moscovo será representada por Shaman, cujo nome verdadeiro é Yaroslav Dronov, com uma canção em russo intitulada “Straight to the Heart” (direto ao coração, em português). Dronov, que uma vez simulou a detonação de uma bomba nuclear no palco, tam aproveitou a onda de patriotismo alimentada pela guerra com canções como I am Russian para se tornar um nome incontornável na televisão estatal russa, sumariza a agência de notícias. Ao contrário da Eurovisão não há votação pública, mas sim um júri internacional que decidirá quem é o vencedor.

As populações dos 23 países participantes representam “mais da metade do mundo”, observou Sergey Kiriyenko, presidente do conselho fiscal da Intervision, em comentários à agência de notícias russa Tass, acrescentando que 4,3 mil milhões de pessoas poderão assistir à transmissão.

Numa conferência de imprensa antes do concurso, o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Sergei Lavrov, disse que Moscovo nunca proibiu os russos de assistir à Eurovisão, mas achava que havia espaço para o que chamou de “abordagens alternativas para preservar tradições e culturas nacionais, bem como construções religiosas, espirituais e morais que herdamos dos nossos antepassados”.

“Se isso tiver uma grande procura ficaremos felizes. Mas não contestamos o direito do júri ou dos telespectadores da Eurovisão de votarem num homem barbudo vestido com um vestido”, disse o porta-voz do Kremlin, numa aparente referência à vitória da drag queen austríaca Conchita Wurst, em 2014. Na Rússia, o “movimento público internacional LGBT” é rotulado como uma organização extremista.

A Rússia participou 23 vezes no Festival da Eurovisão da Canção desde 1994 e venceu em 2008 com a canção Believe, de Dima Bilan. No ano seguinte, Moscovo acolheu a competição, naquela que foi a edição mais cara até à data — terão sido gastos 42 milhões de dólares (cerca de 35,7 milhões de euros).

À medida que a Rússia se tornou cada vez mais conservadora sob o governo de Putin, as críticas à sua participação no famoso concurso foram subindo de tom: enquanto a Eurovisão celebrava frequentemente temas e artistas LGBTQ+, as autoridades em Moscovo criticavam o conteúdo por minar os “valores familiares tradicionais”.