Qual não será o português que em qualquer momento da sua vida se viu confrontado com uma escolha decisiva: com ou sem côdea? A derradeira pergunta que o empregado de balcão faz em qualquer café nacional que sirva aquela tão querida tosta mista em pão de forma barrada com manteiga por cima. Um pedido tão simples, mas, ao mesmo tempo, tão importante, foi o pensamento de António Lobo Xavier (o filho) quando chegou a altura de pensar no nome daquele que viria a ser o seu segundo espaço em menos de um ano: Sem Côdea, porque “tudo o que é bom está mesmo no meio”.
O novo sandwich bar da Rua das Flores abriu oficialmente portas esta terça-feira, dia 16 de setembro, depois de duas semanas em soft opening. Demos por ele durante esse período quando, naquela mesma rua, não esperávamos encontrar a infanta Sofía. Por aqui ainda não passou, mas, face ao público jovem que querem atrair, assim como os turistas que por ali passem ou os trabalhadores das empresas em redor, não se tira da equação que a filha mais nova dos reis de Espanha por aqui não passe para comer uma gulosa sandes ou para beber um belo de um cocktail.
▲ O chef António Lobo Xavier abriu o Sem Côdea nove meses depois de ter aberto o Polémico no Rato
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA
É esse o objetivo do Sem Côdea: atrair tanto pela comida como pela bebida. “A ideia inicial era ser só um snack bar de sandwich e depois a ideia evoluiu para sandwich bar”, explica Bernardo Pires ao Observador, sócio de António Lobo Xavier — “Xavi” para os amigos — e cara conhecida também no Sóbrio, no Bairro Alto. Assim, desde esta terça-feira, o novo espaço está a aberto do 12h00 às 15h00, para quem quiser comer uma sandes de almoço, e das 19h00 às 2h00, para um copo durante e depois de jantar, de terça-feira a sábado. A cozinha, no entanto, e por enquanto, fecha a partir das 23h30. “Uma vez por semana vamos ter dj, então estas mesas saem e este espaço fica desimpedido”, descreve Bernardo Pires, sustentado pelo próprio Xavi que garante querer futuramente ter o espaço aberto todos os dias da semana, sem pausas no horário, e a continuar a servir as suas criações (com côdea) noite adentro até às 2h00: “Achamos que há um grande desnível a partir das 21h00 em sítios para ir comer alguma coisa boa. Portanto, é mesmo o nosso foco principal a seguir à abertura”, revela.
Com o Polémico aberto há nove meses na rua do Sol ao Rato, o chef de 25 anos dá agora passos naquele que é o seu segundo projeto em menos de um ano. Ao Observador, revela que a oportunidade do negócio surgiu em dezembro do ano passado, numa altura em que a febre das sandes que se sente hoje em Lisboa não estava ainda tão alta. “A verdade é que eu sempre quis fazer sanduíches”, começa por dizer, já depois de ter introduzido “uma boa katsu sando em brioche” na carta do Polémico, reconhecendo que “quando a ideia surgiu não havia ainda quem nós consideramos os nossos rivais, mas achávamos na mesma que podíamos fazer alguma coisa diferente”. Assim, para além de cada sanduíche ter “uma identidade própria”, o Sem Côdea oferece também uma grande seleção de pão, que podemos espreitar logo na montra virada para a rua: “Temos focaccia e o pão para os cachorrinhos. Já desenhado para nós temos o pão cubano, os bagels, a nossa baguette rústica e o nosso pão de forma de massa mãe”. No futuro, querem vendê-lo também para fora.
São estes a base das sandes que compõem uma lista de sete. Apenas ainda servidas no espaço, brevemente vão seguir pela janela ao postigo. Até lá, fazem das travessas de inox prato — como acontece no Polémico — e respondem pelo nome de The Godfather (11 euros), em focaccia com presunto, burrata, rúcula, pesto e tomate; No Such Thing as To Much Cheese (10 euros) que, inspirada “no queijo esticado dos filmes animados”, recebe cheddar, mozzarella, gouda e a crocância do bacon; The Beef (10,50 euros) que, apesar de induzir em erro e soar à série The Bear, é uma homenagem aos almoços de domingo em que rosbife é o convidado especial, levando assim rosbife, cebola, dijonaise, rúcula e pimentos assados; The NYC (11,50 euros), inspirada nos bagels de Nova Iorque, recebe salmão gravlax com queijo creme, alcaparras e cebola roxa; The Cubana (11 euros), com cachaço assado, pickles, queijo suíço e mostarda; Ox Supreme (10,50 euros), com bochecha, mayo cebolinho e cebola caramelizada); e a Even Vegan (9,50 euros), com pleurothes confitados, romesco e rúcula. Todas as sandes são acompanhadas por chips de batata doce.
▲ O Sem Côdea quer ser um espaço confortável, de boa comida, bebida e música
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA
Se a fome não for tanta, há sempre umas entradas para acompanhar os belos cocktails desenhados por Bernardo Pires e por Miguel Correia. “Isto é mais uma coisa do Porto, mas gostamos de oferecer tremoços, azeitonas, para enquanto se está a beber copos. Ou enchidos, ou um queijo”, enumera Xavi, referindo-se ao enchido do mês (10 euros), servido com focaccia, ao queijo do mês (12 euros), servido com compota e tostas, à empalhada da arrancada (3,50 euros), com tremoços, azeitonas e chips, e ao tão saudoso cachorrinho à tripeiro (4 euros), com salsicha fresca, linguiça e azeite picante. Mais abaixo na lista, não podemos não reparar num nome já tão conhecido dos clientes de Xavi. Também aqui a Maria (5 euros) ganha novos fãs ao desconstruir o bolo de bolacha Maria, e traz consigo uma versão mais achocolatada: o Brownie (6 euros) — “Estamos muito felizes porque conseguimos mais ou menos fazer uma espécie de Maria mas com chocolate”.
“Cada espaço que abrimos, claro que tem sempre uma pequena influência porque somos nós, não é? Mesmo que vamos mudando um bocadinho, a nossa essência continua lá. Mas, realmente, tentámos não copiar e não inspirar em demasia em nada que já existia nos outros nossos espaços“, explica Bernardo Pires, comentando a vinda da Maria — a sua sobremesa favorita atualmente, confessa — para a carta do Sem Côdea assim como os cocktails que ajudou a criar. Numa carta de design tosco, assim como o espaço onde habita — das nostálgicas cadeiras de sala de aula à parede despida, de tijolo à mostra — os oito cocktails que apresentam aqui nada têm a ver com os que são preparados no Sóbrio: “Tal como nas sanduíches, aqui também temos uma abordagem com alguns twists em clássicos e depois fazemos outras mais irreverentes e mais fora da caixa“, explica Bernardo.
“Quisemos que três ou quatro dos cocktails fossem fáceis de beber, coerentes e que o público geral gostasse”, começa por dizer, referindo-se ao Anêmona Vermelha (11 euros), mais frutado e com gin, melancia e manjericão, ao Cucumis (11 euros), mais leve e fresco, com vodka, sabugueiro, pepino e limão, ao Camélia (12 euros), com gin, vinho do Porto e amêndoa, e ao Beijo Turco (12 euros), com gin, chá preto, pêssego e dry vermute. Todos com nomes que invocam flores, são assim uma homenagem à rua onde se encontram. “Na decoração também quisemos incorporar, com as mini oliveiras e as flores nas mesmas”, acrescenta.
▲ Os cocktails Pandan, Magnolia, Camélia e Cucumis
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA
Com um perfil “mais específico”, a carta é composta por outros quatro cocktails que, para Bernardo, são mais complexos e justificam a ideia de “fora da caixa” que defendia. Começamos pelo Pandan (12 euros), que é “uma folha do sudeste asiático que cheira e sabe a bolachas”. Com vodka pandan, ananás e clarificado de leite de côco, é um cocktail que nos leva numa viagem de sabores, a começar, lá está, no ananás, seguido do côco e terminando no sabor a bolacha. “Parece que já experimentaste aquilo mas ao mesmo tempo nunca experimentaste nada assim”, descreve Bernardo. A acompanhá-lo na carta estão o Nochebuena (12 euros), mais fumado e com mezcal, aipo, jalapeño e manga, o Mata Lobos (12 euros), com rum, amaro, côco e ananás, e o Magnolia (12 euros), também fumado mas com um toque a gengibre com scoutch e islay whiskey, mel e limão.
“Queremos atrair clientes que valorizem um espaço bonito, boa música, boa comida, bons cocktails”, afirmou Bernardo, sustentado por Xavi que afirma querer que o Sem Côdea seja “sobretudo um espaço focado em ser confortável e também focado em ser bom, onde as pessoas possam vir beber uns copos com boa música”.