O novo livro de Kamala Harris chegou às bancas esta terça-feira e o que se sabe até agora sobre “107 days” — para já disponível apenas em inglês — revela posições e decisões até agora desconhecidas da democrata. Nele estão reunidas as memórias da ex-vice-presidente dos EUA, que teve, de 21 de julho de 2024 (data em que Joe Biden anunciou que se retirava da corrida presidencial norte-americana) até 5 de novembro de 2024 (a data marcada para as eleições gerais), de correr a grande velocidade para tentar vencer Trump na corrida à Casa Branca.
Além das memórias dos 107 dias de uma campanha eleitoral em modo sprint e com muitos improvisos, a política norte-americana dá a conhecer as suas visões para um futuro, que revela ainda ser incerto, deixando muitas questões em aberto e sem garantir com certeza se irá candidatar-se nas novas eleições norte-americanas, em 2028.
Faz também revelações inéditas: assume a deterioração da relação com Joe Biden ao longo dos anos e conta o processo de decisão até chegar ao seu número dois — a sua “primeira escolha” foi Pete Buttigieg, mas viu-se obrigada a optar por Tim Walz por estratégia, já que o primeiro era homossexual.
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A relação calorosa com Biden, que se começou a deteriorar com as dúvidas sobre lealdade
A lealdade enquanto valor indispensável na política é um tópico muito explorado no novo livro de Kamala Harris. Apesar de a antiga vice-Presidente se referir de um modo geral à relação com Joe Biden como amigável e calorosa, revela também os momentos em que a sua lealdade foi colocada em causa — uma dúvida que gerou tensões entre os dois, já que Harris não sentia a reciprocidade da equipa do ex-Presidente em defendê-la quando era atacada externamente, destaca a NPR.
A democrata descreve, em particular, dois momentos em que a relação azedou. A primeira nas semanas que se seguiram ao desempenho desastroso de Biden no debate com Trump, que começou a ditar a necessidade de se afastar da corrida presidencial.
Nessa altura, a primeira-dama, Jill Biden, chamou o marido de Harris, Doug Emhoff, para lhe perguntar se estavam a apoiar os Biden, pergunta que incomodou Emhoff: “Têm de perguntar se somos leais?”, respondeu, com outra pergunta.
O segundo momento de tensão deu-se já depois da desistência de Biden e dois meses após Kamala Harris ter entrado na corrida que já ia a meio. No dia em que a democrata debateu com Donald Trump, poucos minutos antes de Harris começar o frente-a-frente, Biden ligou-lhe com a intenção de lhe desejar boa sorte, mas acabou por questioná-la de forma direta sobre se ela estaria a falar mal de si a pessoas “poderosas”, com base em rumores que tinha ouvido.
No livro, a ex-vice dos EUA disse que não conseguiu perceber porque é que o companheiro político de anos lhe ligaria naquele preciso momento, de grande tensão, para ter uma conversa que se focava mais nele do que no debate que aconteceria em minutos.
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A (segunda) escolha de Tim Walz, por causa da orientação sexual de Pete Buttigieg
Quando passou de número dois a número um da corrida presidencial, Kamala Harris ficou com a difícil tarefa de se substituir a ela mesma. O escolhido foi o governador do Minnesota, Tim Walz, mas, sabe-se agora, pela voz da própria, que não era ele a sua primeira escolha. Era, sim, Pete Buttigieg, o seu antigo rival político, que foi secretário dos Transportes no governo de Joe Biden.
No livro, Harris elogia Buttigieg, que admite ser seu amigo, como um comunicador habilidoso e diz que ele teria sido um “parceiro ideal”. No entanto, o fator definidor para sua decisão acabou mesmo por ser o perfil do democrata, que não encaixava com o dela. Pete Buttigieg é um homem gay e Kamala Harris uma mulher negra casada com um judeu e a então candidata chegou à conclusão que o par não iria funcionar junto do eleitorado — tentava captar o voto moderado e sabia que a orientação sexual do seu eventual número dois em conjunto com o seu próprio perfil teriam um efeito contrário.
A revelação não ficou sem resposta, em declarações ao POLITICO Buttigieg afirmou que a sua experiência na política lhe demonstra que a “forma como se conquista a confiança dos eleitores se baseia principalmente no que eles pensam que será feito pelas suas vidas e não em categorias”.
No final de contas, foi um homem heterossexual, branco e mais velho que acabou por ficar com o lugar que Harris desejou para Buttigieg. A democrata revela até que Tim Walz deixou claro desde o início que não tinha ambições presidenciais, tendo sido este um fator importante para a escolha, em contraste com o governador da Pensilvânia, Josh Shapiro, que a antiga vice critica no seu livro e descreve como demasiado ambicioso para ter sido seu número dois.
Apesar de considerar o então governador da Pensilvânia “equilibrado, polido e simpático”, Harris conta, citada pela ABC News, que Shapiro lhe demonstrou interesse em “estar presente em todas as decisões“, se um dia chegasse à vice-presidência da Casa Branca, e assumiu que desenvolveu uma “preocupação persistente de que ele não se contentasse com o cargo de número dois”.
Revela ainda que Shapiro perguntou a um dos seus funcionários quantos quartos tinha a residência do vice-presidente e, a caminho da entrevista final, questionou mesmo como poderia enviar obras de artistas da Pensilvânia para a casa.
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Kamala ainda não decidiu se se vai candidatar em 2028, mas revela o que acha de outros candidatos
Desde que perdeu as eleições norte-americanas para Donald Trump, em novembro de 2024, Kamala Harris tem-se mantido longe das objetivas e holofotes. Vai agora quebrar o distanciamento da vida pública com a digressão de apresentação do livro “107 days” por todo o país.
Mas não é através deste compêndio de memórias que anuncia, ou deixa sequer nas entrelinhas, que será recandidata à presidência em 2028, nota a CNN Internacional que analisou uma cópia antecipada do livro. Não há confirmação oficial, mas já em agosto a democrata tinha dado os primeiros sinais de que poderá concorrer às diretas do Partido Democrata e, no melhor dos cenários, às presidenciais de 2028.
A digressão poderá ser um pretexto de reunião antecipada de democratas e de contacto de Harris com as massas e com a comunicação social.
Sobre eventuais concorrentes nas diretas do Partido Democrata, a antiga vice-Presidente não se coibiu de tecer comentários sobre muitos deles — sobretudo aqueles que considera serem os líderes da próxima geração do seu partido. A alguns dedica parágrafos longos no livro, e a outros faz apenas menções curtas.
Além de Walz e Shapiro, sobre quem escreve extensamente a propósito da escolha do seu número dois em 2024, e que podem ainda ter um papel relevante no futuro do partido, Harris escreveu também sobre o senador do Arizona, Mark Kelly, que foi igualmente considerado o ano passado, mas acabou rejeitado devido à falta de experiência política.
O democrata recebe um relato detalhado do seu historial na Marinha e como astronauta e é mesmo classificado “um herói americano”, notando o trabalho dele e da mulher que foi baleada, na consciencialização do uso responsável de armas.
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Kamala conta de onde veio e os sacrifícios pessoais a que se propôs para arrancar a meio da corrida
Apesar de uma política reservada, que tende a separar a vida pessoal das funções públicas, Kamala abre-se um pouco mais do que o habitual em “107 days”. Revela, por exemplo, algumas das dificuldades e tensões pessoais da sua candidatura à presidência, sobretudo na relação com o marido Doug Emhoff, destaca a NPR.
Harris tenta contar a sua história, revelando conversas com familiares, as lições da mãe enquanto crescia e o processo de como decidiu tornar-se procuradora. Fala agora na primeira pessoa, depois de a sua campanha, no ano passado, ter sido pressionada a, num curto espaço de tempo, perfilar ao máximo aquela que passava a ser a cabeça de lista democrata, que até então ficava na sombra de Biden.
Além das revelações pessoais, contadas a par do seu percurso de vida, a antiga vice-Presidente escreve também sobre como a sua experiência como número dois da Casa Branca, com enfoque na diplomacia, lhe deu recursos. Recorda reuniões com o Presidente ucraniano Volodymyr Zelensky e o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu — dois dos rostos das guerras em curso — e ainda como geriu questões determinantes atualmente, como a prevenção da violência armada na Casa Branca.