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▲Kamala Harris anunciou que não se candidataria ao cargo de governador da Califórnia

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▲Kamala Harris anunciou que não se candidataria ao cargo de governador da Califórnia

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Após derrota frente a Trump, Kamala Harris prepara terreno para 2028 e promete continuar "na luta" política

Ex-vice-presidente não confirma, mas dá sinais de estar interessada em concorrer a primárias democratas e, se vencer, às presidenciais de 2028. Kamala recusa liderar Califórnia e vai andar na estrada.

“Nunca vou desistir de um futuro onde os norte-americanos podem seguir os seus sonhos, ambições e aspirações.” Na sequência da pesada derrota nas presidenciais de novembro de 2024 frente a Donald Trump, Kamala Harris nunca foi categórica sobre o que faria depois. Aos 60 anos, a ex-vice-presidente de Joe Biden tem mantido uma certa ambiguidade em relação ao futuro político. Na quarta-feira passada, deu os primeiros sinais de que poderá concorrer às diretas do Partido Democrata — e, no melhor dos cenários, às presidenciais de 2028.

Num comunicado divulgado nas redes sociais, Kamala Harris anunciou que não se candidataria ao cargo de governadora da Califórnia. O atual, o democrata Gavin Newsom, está em final de mandato — e havia especulação de que a antiga vice-presidente poderia tentar liderar o estado de onde é natural, que vai a eleições em 2026. Mantém-se, assim, a incógnita sobre o seu futuro político, prometendo, porém, manter-se na “luta” política.

“Nos últimos seis meses, passei algum tempo a refletir de que forma devo continuar a lutar pelo povo norte-americano e avançar com os valores e as ideias que defendo”, começou por escrever a antiga vice-presidente, acrescentando que, após uma “reflexão profunda”, não se “vai candidatar a governadora da Califórnia nestas eleições”.

Não é um adeus à vida política. Parece ser antes um recomeço. No comunicado, Kamala Harris frisa que os Estados Unidos da América (EUA) vivem um “momento de crise” com a administração Trump, sendo necessário “alcançar a mudança através de novos métodos e ideias frescas”, numa alusão à falta de rumo que atravessa o Partido Democrata depois da derrota nas presidenciais de 2024. “Não podemos usar sempre o mesmo manual.”

Nesta nova época política com ideias “frescas”, Kamala Harris sentirá que o seu “serviço público” não poderá centrar-se na Califórnia. A antiga vice-presidente promete andar pela estrada nos próximos tempos e vai “ajudar a eleger democratas em toda a nação”, numa referência às eleições intercalares e em vários estados marcadas para o próximo ano.

A antiga candidata não pretende desligar a máquina partidária que se criou depois da desistência de Joe Biden na corrida à Casa Branca. Depois de vários meses em silêncio, Kamala Harris anuncia assim o regresso à política ativa, utilizando o chavão que repetiu no discurso em que concedeu a derrota — de que vai continuar a “luta”. “Vou partilhar mais detalhes nos próximos tempos sobre os meus próprios planos”, prometeu no comunicado, que, nas entrelinhas, parece indicar que a ex-vice-presidente está a preparar terreno para reunir apoiantes para 2028.

epa11829331 US Vice President Kamala Harris looks on during a Department of Defense Commander in Chief Farewell Ceremony at Joint Base Myers-Henderson Hall in Arlington, Virginia, USA on 16 January 2025.  EPA/BONNIE CASH / POOL

▲ Kamala Harris garante que vai continuar a "luta" nos próximos tempos

BONNIE CASH / POOL/EPA

Kamala tem doadores e Hillary Clinton do seu lado para avançar. E vai explorar intercalares e lançamento do livro

Em declarações à imprensa norte-americana, os aliados e apoiantes de Kamala Harris destacam duas ideias. Por um lado, o anúncio de que não se vai candidatar às eleições governamentais da Califórnia não significa necessariamente que vai entrar nas primárias democratas em 2028; a ex-vice-presidente ainda pode mudar de ideias nos próximos anos. Por outro, significa também que não descarta uma nova corrida à Casa Branca, se bem que tenha de reunir o apoio dos correligionários.

Entre os democratas, parece já haver uma apoiante: Hillary Clinton. A candidata em 2016, que também perdeu as presidenciais contra Donald Trump, escreveu no X o que parece ser uma mensagem encorajadora para a antiga vice-presidente. “De procuradora a senadora a vice-presidente, Kamala Harris sempre esteve lá para as pessoas. Sei que o seu próximo capítulo não será diferente, faça o que faça”, escreveu a antiga primeira-dama e ex-secretária de Estado.

Ao Washington Post, os apoiantes de Kamala Harris confidenciaram que existe já uma espécie de rede de apoio financeiro nos bastidores, que transitou do ano passado. Na fulminante campanha que teve de montar após a desistência de Joe Biden na corrida à Casa Branca, a ex-vice-presidente reuniu doadores que angariaram milhares de dólares. Um desses nomes foi o da viúva de Steve Jobs, Laurene Powell Jobs — uma das mulheres mais ricas nos Estados Unidos. Algumas dessas personalidades estariam novamente dispostas a financiar uma nova campanha da democrata.

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▲ Hillary Clinton deixou uma mensagem de apoio a Kamala Harris

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Simultaneamente, ao contrário de vários nomes que podem eventualmente avançar nas primárias democratas, Kamala Harris é um nome sobejamente conhecido para o eleitorado norte-americano. Esse argumento pode ser explorado pelos conselheiros mais próximos da ex-vice-presidente, que também podem lembrar que já existe uma máquina partidária montada e não teria de ser criada de raiz.

A antiga candidata às presidenciais anunciou, esta quinta-feira, que vai publicar um livro a 23 de setembro, chamado 107 Dias, numa referência ao tempo que durou a campanha. Nos próximos meses, Kamala Harris fará um périplo por vários canais de televisão. A primeira paragem foi o talk show de Stephen Colbert, mas estará noutras estações para contar “os bastidores da campanha presidencial mais curta da História moderna”.

A Stephen Colbert, a antiga vice-presidente justificou que não ia avançar na Califórnia, uma vez que precisava de fazer uma pausa política, preferindo “andar na estrada” e conectar com a base eleitoral do Partido Democrata. Kamala Harris confessou que não quer “já voltar para o sistema”, visto que sente que “está danificado”. Mas voltou a não fechar a porta às eleições de 2028.

Conhecida por recusar entrevistas ao longo da campanha, Kamala Harris vai contrariar a sua natureza e estará presente em vários canais de televisão, bem como, apurou o New York Times, participará em variados podcasts. Ganhará, por isso, presença mediática, algo essencial caso deseje lançar as bases de uma candidatura para as primárias democratas.

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▲ Laurene Powell Jobs, viúva de Steve Jobs, é uma das principais apoiantes de Kamala Harris

AFP via Getty Images

Adicionalmente, a democrata está de olho nas eleições intercalares, marcadas para novembro de 2026. O apoio (ou falta dele) a alguns nomes pode ser um sinal valioso para perceber se deve ou não avançar com uma eventual candidatura às primárias do Partido Democrata. “Ela vai estar em todo o país para intercalares em 2026. Ela quer ajudar-nos a virar a Câmara dos Representantes [atualmente controlada pelos republicanos]”, disse ao New York Times o aliado de Kamala Harris e congressista Robert Garcia.

Se obtiver sucesso na campanha durante as eleições intercalares de 2026 — para a qual está a ponderar formar uma organização para recolher fundos que permitam suportar os custos das deslocações pelo país —, Kamala Harris terá um trunfo para apresentar durante as primárias democratas, ganhando legitimidade para entrar na corrida do seu partido e afastando os fantasmas da campanha presidencial de 2024.

No vídeo que publicou a apresentar o livro nas redes sociais, Kamala Harris assinalou que vai apresentar soluções sobre como as suas ideias políticas devem “avançar” nos Estados Unidos. E voltou à mensagem da “luta”: “Ao escrever este livro, uma verdade voltava até mim: às vezes, a luta demora um pouco mais. Mas eu permaneço cheia de esperança. Permaneço focada. Nunca vou parar de lutar para que o nosso país reflita o melhor dos seus ideais. Sempre em nome do povo”.

"Ao escrever este livro, uma verdade voltava até mim: às vezes, a luta demora um pouco mais. Mas eu permaneço cheia de esperança. Permaneço focada. Nunca vou parar de lutar para que o nosso país reflita o melhor dos seus ideais. Sempre em nome do povo."
Kamala Harris, ex-vice-presidente dos Estados Unidos

O trauma da derrota de 2024, a concorrência e Newsom. Quem pode travar Kamala Harris?

Se é verdade que Kamala Harris é conhecida e tem doadores dispostos a gastar milhares de dólares com uma eventual campanha, também é certo que muitos democratas não a vão perdoar pela derrota em toda a linha que o partido sofreu em 2024: na presidência, na Câmara dos Representantes e no Senado. Certas fações apontaram o dedo à forma como geriu a campanha e como envergou bandeiras que não preocupavam grande parte do eleitorado nos Estados Unidos.

Teria a capacidade de Kamala Harris vencer umas presidenciais e inverter a derrota de 2024? A antiga vice-presidente perdeu em todos os sete swing states (os chamados estados-pêndulo, que alternam entre republicanos e democratas), não convenceu muitos eleitores independentes e até a base eleitoral do partido não se mostrou particularmente entusiasmada com a campanha. A repetição deste padrão em 2028 gera, por isso, apreensão em muitos democratas.

Perdeu o apoio da base eleitoral e os swing states. O desastre eleitoral de Kamala Harris

Além disso, a forma como Joe Biden desistiu, as dúvidas sobre o declínio físico e mental do antigo Presidente (e se houve encobrimento pela Casa Branca) e a forma como Kamala Harris se candidatou em 2024 é uma pesada herança com que a antiga vice-presidente norte-americana terá de lidar se decidir avançar para as primárias democratas. “Existe sempre esse medo de que se ela se recandidatar a Presidente, 2028 pode transformar-se numa discussão do que correu mal em 2024”, analisa o autor de vários discursos do Partido Democrata, Roger Wolfson, ao New York Times.

Frente a Donald Trump, a antiga vice-presidente não soube e nem se conseguiu impor. Ainda que prometa agora “novas e frescas soluções”, Kamala Harris pode ser encarada como um nome do passado e incapaz de fazer a rutura e inaugurar uma nova fase para o Partido Democrata, que já tem outros nomes desejosos para entrar em cena.

Numa fase em que o partido ainda se está a recompor e se está a redefinir ideologicamente, as sondagens feitas a democratas mostram que Kamala Harris reúne cerca de 20% das intenções de voto, estando à frente de vários nomes, o que dá alguma esperança à antiga vice-presidente. Em sentido inverso, nas casas de apostas, a californiana não figura entre os favoritos. 

Para os apostadores, quem lidera a corrida é o atual governador da Califórnia. Gavin Newsom tem sido uma das vozes mais críticas de Donald Trump — e enfrentou o Presidente norte-americano quando este enviou militares da Guarda Nacional para Los Angeles. Bastante próximo de Joe Biden e da ala mais centrista dos democratas, o homem de 57 anos reúne cerca de 20% das preferências.

▲ Apostas para as primárias democratas

Segue-se a congressista Alexandria Ocasio-Cortez, com 16% das preferências, da ala mais à esquerda do Partido Democrata. Com 12% está o ex-secretário dos Transportes, Pete Buttigieg, seguindo-se o governador do Kentucky, Andy Beshear. Kamala Harris aparece em quinto, obtendo apenas 6% das preferências dos apostadores — empatada com o governador da Pensilvânia, Josh Shapiro, que foi apontado para ser o vice-presidente em 2024.

A competição para Kamala Harris é, por isso, variada e representa várias alas do Partido Democrata. Nas primárias de 2028, os democratas terão de perceber se vão optar por uma solução mais à direita (como Andy Beshear, que já demonstrou interesse na corrida à Casa Branca), por alguém mais à esquerda (como Alexandria Ocasio-Cortez), ou então por alguém que agrade os dois lados.

Em todo o caso, para a antiga vice-presidente, o favorito das apostas é a maior dor de cabeça de Kamala Harris para concretizar a eventual ambição de ser chefe de Estado: Gavin Newsom. Os dois são naturais da Califórnia, não estão ideologicamente distantes um do outro, até são amigos e partilharam os mesmos doadores e conselheiros. Por tudo isto, existe a perceção de que, se um entrar na corrida, aquele que tiver menos perspetivas de vencer terá de desistir.

epa09954108 California governor Gavin Newsom delivers a speech following his visit to a water recycling facility at the Sanitation Districts of Los Angeles County and Metropolitan Water District of Southern California, in Carson, California, USA, 17 May 2022. California is facing historic drought conditions and governor Newsom is asking people to save as much water as possible as well as support water cut initiatives.  EPA/ETIENNE LAURENT

▲ Apesar da amizade, Gavin Newsom é o principal adversário de Kamala Harris se os dois competiram nas primárias democratas

ETIENNE LAURENT/EPA

Por agora, ainda há tréguas entre dois eventuais rivais políticos. No X, ao reagir ao facto de Kamala Harris não se candidatar ao cargo de governadora da Califórnia, Gavin Newsom elogiou a ex-vice-presidente: “Serviu corajosamente o estado e o país em toda a sua carreira”. “Estou grato pela sua dedicação e amizade — e estou entusiasmado para continuar a luta no que quer que o futuro lhe reserve”, afirmou.

Todos os candidatos às primárias democratas que gostavam de chegar à Casa Branca ainda estão a preparar terreno — e nenhum nome está garantido. Os próximos meses serão marcados por movimentações nos bastidores, conversas paralelas e análises políticas. Mas o partido está mais focado, atualmente, nas eleições intercalares de 2026, esperando acabar com a maioria republicana na Câmara dos Representantes — e, apesar de ser menos provável, no Senado.

O antigo líder da Comissão Nacional Democrata, James Harrison, referiu à USA Today que gostava de ver Kamala Harris a fazer campanha durante as eleições intercalares: “Seria bom tê-la na estrada”. Em simultâneo, o ex-responsável acredita que a ajudará a “tomar uma decisão sobre o que quer fazer em 2028”. “Mas não podemos pensar em 2028 sem chegarmos a 2026”, avisou.

“Não desesperem e arregacem as mangas”: Kamala assume derrota eleitoral, mas pede aos apoiantes para continuarem a “luta”

Mesmo tendo perdido nas presidenciais de 2024, Kamala Harris não fechou a porta a ser primeira mulher a liderar os Estados Unidos. A democrata tem fundos, apoios importantes e uma máquina já montada — mas enfrenta uma forte concorrência e terá de limpar o seu nome, fazendo com que democratas e eleitores se esqueçam da pesada derrota que obteve nas urnas. Até 2028, pode acontecer muita coisa, mas a antiga vice-presidente tem algumas bases lançadas para prolongar a “luta”.

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