No seu último mandato à frente da Câmara Municipal de Setúbal, entre 2017 e 2021, Maria das Dores Meira recebeu perto de 35.500 euros da autarquia a título de ajudas de custo por ter utilizado o seu carro pessoal em deslocações que chegaram perto dos 100 mil quilómetros. Agora, a atual candidata independente apoiada pelo PSD e CDS para a mesma câmara, será interrogada pela Polícia Judiciária, uma vez que uma investigação revelou que os veículos que têm em seu nome não percorreram, neste período, mais de mil quilómetros.

A notícia é avançada pelo jornal Público este sábado, referindo que a unidade especializada no combate à corrupção da PJ vai questionar a ex-autarca sobre as quantias que recebeu e sobre a utilização de cartões de crédito da câmara municipal que lhe estavam atribuídos. Apesar de ter carro oficial com motorista, Dores Meira auferiu mais de 30 mil euros em ajudas de custo por 98.500 quilómetros em deslocações de serviço em viatura própria. Contudo, as inspeções realizadas ao Mazda de 2008 e ao Toyota Celica de 1989 mostram que, entre outubro de 2017 e outubro de 2021, os dois carros não fizeram a distânica relatada pela ex-autarca.

O registo dos dois cartões de crédito que lhe estavam atribuídos também indicam que Dores Meira “parece ter estado simultaneamente em dois sítios diferentes ao mesmo tempo”, como escreve o jornal, chegando a ter despesas no Brasil e em Madrid, durante a mesma altura em março de 2018. No total dos quatro anos de mandato, recebeu cerca de 12 mil euros em ajudas de custo referentes a 146 dias fora do país.

O seu companheiro, o vocalista e guitarrista da banda UHF António Manuel Ribeiro, também viu as suas contas bancárias investigadas pela Polícia Judiciária. Esta força de segurança terá concluído que os montantes “não batem certo com as declarações anuais de IRS entregues pelo músico”. Ao Público, o músico nega qualquer ato ilícito e recusa ter fugido ao fisco, referindo que emprestou “muito dinheiro” aos seus músicos e técnicos durante a pandemia e que os pagamentos estão a ser feitos lentamente. “As contas da minha empresa são auditadas”, garante.

A candidata à Câmara Municipal de Setúbal, em resposta ao jornal, garante estar inocente e que desconhece qualquer investigação da PJ. “Não cometi crime algum. Não sou arguida de nada e não tenho conhecimento de nenhum processo em curso a respeito da minha pessoa. Se houver algum processo, quero ser ouvida”, afirma Maria das Dores Meira, que refere estar a ser “vítima de uma perseguição política em plena campanha eleitoral”.