À parte do desfile que vai encerrar a ModaLisboa no próximo domingo, 5 de outubro, Luís Carvalho tem outra novidade a apresentar durante esta Semana da Moda da capital — precisamente no primeiro dia do calendário, a poucos metros do Pátio da Galé, no MUDE. São duas coleções-cápsula desenvolvidas sob o mote Tie the Knot, e com a sustentabilidade no seu core. Uma delas é feita a partir de peças com defeito e excedentes de produção e a outra de matérias-primas e acessórios não utilizados, como botões, fechos e fitas. A solução encontrada para valorizar materiais que seriam descartados acaba também por gerar ganhos técnicos, económicos e de imagem, além de reduzir custos e potencialmente alavancar futuras colaborações.
As novidades do programa Beat by Be@t estão expostas no MUDE até ao final da Lisboa Fashion Week
O projeto é uma parceria do designer, que é um dos nomes fortes do calendário da ModaLisboa, com a confeção Cordeiro e Campos, no âmbito do projeto Beat by Be@t, uma iniciativa do Business Council for Sustainable Development (BCSD) e do Centro Tecnológico Têxtil e Vestuário (CITEVE). Luís Carvalho não é o único: outros três designers foram selecionados para trabalharem com mais duas empresas do setor têxtil em soluções para problemas reais que enfrentam nos seus trabalhos. Também com a Cordeiro e Campos, Adriana Oliveira criou um kit de viagem com peças desmontáveis criadas a partir de dead stock e aproveitando felpa; Nicole Feliciano desenvolveu com a Allcost um fio 100% reciclado criado a partir de resíduos de fibras naturais da fábrica e Francisca Santos com a AAC Têxteis pensaram numa app que conecta fábricas, designers e consumidores para o reaproveitamento de excedente têxtil.
Nicole Feliciano X Allcost
As quatro equipas foram formadas sempre pelo binómio empresa têxtil e designer. “Acabamos por identificar fábricas que estão a trabalhar nestes assuntos, são sempre pequenas e médias empresas, muitas vezes são aquelas que têm menos recursos internos e precisam deste apoio. Depois abrimos uma candidatura aos designers que querem criar respostas para estes desafios. Estes designers depois vieram ter connosco a um evento no CITEVE e fizeram as propostas de soluções. E a fábrica acabou por escolher a melhor solução, que fazia mais sentido, e depois começaram a trabalhar juntos para a tornar real”, explica Cláudia Carocha, diretora de inovação do BCSD e porta-voz do programa Beat by Be@t na ModaLisboa.
Cordeiro e Campos X Adriana Oliveira
O projeto acaba por desenvolver a bioeconomia dentro do setor têxtil e vestuário, além de fomentar a colaboração entre a indústria e os novos talentos. “É da liberdade da equipa perceber o que é que faz sentido desenvolver. Há empresas que acabam por incorporar os projetos dentro do seu negócio ou testar novas linhas de produto”, diz Cláudia Carocha, que fala no impacto positivo da interação nos negócios envolvidos. “O objetivo é incorporar estas novas técnicas de sustentabilidade nos modelos de negócio para as empresas ficarem mais sustentáveis e diferentes e, no caso dos designers, para quando estão a aproximar-se de uma fábrica também terem esta sensibilidade dos desafios que o setor atravessa”. As quatro soluções desenvolvidas pelas equipas ficam expostas no MUDE até o dia 5 de outubro, enquanto durar a Lisbon Fashion Week.
Programa reuniu 14 fábricas a mais de 20 designers
A iniciativa apresentada na ModaLisboa é apenas uma componente do programa maior, que tem financiamento do PRR e envolve 55 entidades, lideradas pelo CITEVE, com destaque para as 14 fábricas que nunca haviam participado num programa de inovação colaborativo como este. “Temos desde empresas pequenas, médias e grandes, temos a academia, temos os centros de investigação e temos aqui várias medidas e iniciativas que vão ser feitas desde a criação de fibras com o desperdício da casca de banana até estes programas mais de inovação entre a indústria e os designers”, explica Cláudia Carocha. O programa Be@t termina em dezembro, ao fim de três anos, e contou com um investimento de mais de 130 milhões, sendo 70,98 milhões provenientes do PRR. “Todo o investimento que é feito nas soluções propriamente ditas, como equipamentos e infraestrutura, é feito pelas fábricas que se juntam ao programa. Depois o PRR apoia com formações, com mentoria, dando dados e as competências para que as empresas façam as soluções”.
Luís Carvalho X Cordeiro e Campos
Com o fim do programa a aproximar-se, em dezembro está previsto o lançamento de um pacto para o setor têxtil, focado na bioeconomia da indústria, “para que as empresas agora possam aplicar e fortalecer estas práticas mais sustentáveis. O objetivo é que isto não fique por aqui. Portanto, criamos um modelo em que o objetivo é replicar, para continuar com estas colaborações entre as fábricas e os novos designers”, diz a diretora de inovação do BCSD, destacando que a troca é importante para fazer deste um “setor muito mais competitivo e mais produtivo”.
AAC Têxteis X Francisca Santos
Uma meta que vai ao encontro do tema da edição deste ano da ModaLisboa: Base. A Semana da Moda da capital chama a atenção para as conexões que formam este mercado, firmando-se como parceira da indústria, e a sustentabilidade tem vindo a ser “um fator de diferenciação e competitividade para Portugal face ao resto do mundo”, destaca Carocha. “Especialmente quando comparamos com mercados asiáticos, muito conhecidos por práticas de oferta muito mais rápida, em que muitas vezes dá-se primazia à quantidade e não à qualidade, acabamos por perceber que para o setor em Portugal o mais importante é focar na diferenciação, na qualidade e acima de tudo e na sustentabilidade dos nossos recursos”, afirma a porta-voz do Beat by Be@t, que dá como exemplo os recursos que podem ser aproveitados dentro do país, como os resíduos alimentares que servem para criar novas fibras. “Existem várias fábricas que têm casos práticos e têm patentes de boas práticas que podem ser replicadas e que provam que a sustentabilidade é o caminho”.
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