A oportunidade surgiu através do contacto de um membro da ModaLisboa, antiga professora sua numa cadeira de faculdade em 2019. De Nova Iorque, onde vive e trabalha a sua marca homónima, para o palacete Gomes Freire, em Lisboa, que abre portas a talentos emergentes no âmbito de mais uma edição da ModaLisboa. É por esta Fashion House temporária, aliás, que passa boa parte do programa aberto ao público, entre mostras, instalações e a pop up dos criadores nacionais. Esta quinta-feira, segundo dia de calendário oficial da Lisboa Fashion Week, sob o lema BASE, Ana Margarida Feijão apresenta a sua marca a partir das 19h00, depois de Roselyn Silva e do happening performático da Gandaia.

Natural do Algarve, entre 2022 e 2024 trabalhou para a designer Melitta Baumeister já em solo norte-americano, uma experiência que permitiu aprofundar sua compreensão da forma escultural. Em setembro de 2024 a sua coleção final de formação na Parsons desfilou na Semana da Moda de Nova Iorque e os cinco looks hastearam uma bandeira na Vogue Runway. No seu projeto pessoal mantém a abordagem conceptual, abrindo espaço para a reflexão sobre a memória, o corpo e a complexidade da experiência feminina. As volumosas peças vieram consigo do estúdio em Brooklyn onde são confecionadas, para confrontar um passado e presente que ressoa ainda do lado de cá. Falámos com a designer em vésperas da sua passagem por Portugal.

A coleção parte das histórias de mulheres portuguesas no período pós-25 de Abril de 1974. O que nos  mostra da marca aqui em Lisboa?
Em Lisboa, o que irei trazer é uma proposta visualmente intensa, que carrega uma energia simultaneamente melancólica e empoderadora. São sentimentos que associo às mulheres que viveram o antes e o depois do 25 de Abril: uma geração marcada por silêncios, restrições, mas também pela força de quem resistiu e se reinventou. A coleção combina formas volumosas e estruturadas com elementos de sensualidade contida. Essa tensão entre o desejo de liberdade e a marca da opressão é um dos fios condutores do meu trabalho.

As peças vieram dos EUA? Como é que se dá todo esse trabalho logístico? Este é um daqueles aspetos de que não nos costumamos lembrar.
Sim, as peças são todas feitas no meu estúdio em Brooklyn. A logística de transportar peças com a minha linguagem de design é sem dúvida um desafio; tive que redesenhar e refazer algumas peças para facilitar todo este processo. O meu trabalho anterior foi bastante experimental, algo que eu gostava de trazer mais para Portugal, no entanto tive que reduzir a quantidade destas peças devido à sua delicadeza. Vi este processo menos como obstáculo e mais como forma de me desafiar a criar pensando em todas as logísticas. Num cenário ideal as peças seriam enviadas com bastante antecedência por um serviço adequado, mas neste caso irei transportar em malas.

Qual é o fio condutor da criação Ana Margarida Feijão?
A criação da marca surgiu de forma bastante natural após o meu mestrado, como uma continuação orgânica do meu trabalho e da vontade de explorar questões identitárias e sociais através do design de moda. Cresci próxima da minha avó, que sempre valorizou o trabalho manual — foi com ela que desenvolvi o amor pelo detalhe, pelo processo e pelo feito à mão que é tão importante para aquilo que faço.

Há uma urgência no feminino que se sente nas criações.
A marca é profundamente inspirada pela necessidade de dar voz às mulheres e de questionar a sociedade que, durante tanto tempo, nos impôs regras, silêncios e limites. Através do design, procuro abrir espaço para conversas sobre liberdade, opressão e identidade feminina, de forma sensível mas confrontativa.

Falou da sua avó. Que papel têm as raízes algarvias em todo este processo?
Trago bastante do Algarve para o meu trabalho. Na coleção passada, por exemplo, usei gesso para criar peças que representavam as casas caiadas tão características da região. Crescer num meio mais pequeno trouxe-me a necessidade de questionar certas mentalidades antigas — especialmente aquelas que ainda colocam a mulher num papel restrito na sociedade, um papel que não corresponde à realidade, mas que continua presente na forma como somos educados.

Seguiu a sua formação em destinos como a Parsons, determinantes para seguir caminho?
O meu percurso educacional teve um grande impacto no meu desenvolvimento criativo enquanto designer. Tendo estudado em escolas como a Parsons e Central Saint Martins, tive a oportunidade de me desafiar e elevar a minha forma de criar.

Como vê o atual panorama da Moda a partir de Nova Iorque?
A Moda em Nova Iorque é um ambiente acolhedor, sinto que há espaço para todas as pessoas conseguirem encontrar de alguma forma uma comunidade que as apoia. Há bastante espaço para crescer, tive oportunidades em Nova Iorque que jamais pensaria possível em Portugal.

Que desafios e oportunidades traz esta localização em particular?
É um sítio certamente difícil em muitos aspectos; sinto que aqui não existe uma boa relação de vida/trabalho, olho para trás e nos três anos que estou a viver aqui sinto que o meu dia a dia foi apenas dedicado ao trabalho. Não apenas por necessidade mas porque é a cultura à minha volta. O que de certa forma podemos olhar de forma positiva, é fruto desse trabalho que vem o crescimento mas é preciso ter uma dedicação muito grande.

Quais são os principais planos e sonhos à curto e médio prazo? Imagina-se a continuar por Nova Iorque?
O sonho a longo prazo é voltar para Portugal e desenvolver a marca em casa, mas por enquanto sinto ainda a necessidade de estar fora e de crescer enquanto designer e marca. Não costumo definir planos muito fortes na minha trajetória, sinto que vou delineando metas dia a dia. Para mim é bastante importante sentir que estou a fazer algo que me sinta realizada.

Onde é possível comprar peças da marca? Há algum ponto em Portugal ou perspetiva disso?
Por enquanto apenas vendo peças feitas à medida ou one of one, o que até agora fez mais sentido para a minha prática, que é normalmente mais íntima e fortemente trabalhada à mão. Naturalmente sinto que a marca está a crescer de forma a haver necessidade de criar peças mais comercializadas.