Desde a primeira vez que um estagiário da indústria pegou numa folha de excel e verificou quais os meses em que mais se vendem discos que setembro e outubro se tornaram, por definição, a época dos grandes lançamentos. Podemos inventar teorias sobre a ideia de rentrée: talvez a indústria lance agora as suas maiores apostas de modo a criar barulho à volta delas, para que expludam por alturas do Natal; talvez acreditem que os melómanos, quando voltam de férias, querem ouvir coisas novas. Quem sabe?
A resposta é: ninguém. Ninguém sabe; é, simplesmente, assim. Isto trouxe-nos, só nas últimas semanas, o regresso da estrela pop Sabrina Carpenter, a reedição de Buckingham Nicks (o único disco a dois feito pela dupla que mais tarde criaria os Fleetwood Mac), o espantoso regresso dos Blood Orange ou os Nation of Language, e isto só para mencionar discos sobre os quais escrevemos.
(Acho que não preciso de dizer isto, mas Taylor Swift acabou de lançar um novo disco que, se tudo tiver decorrido dentro da normalidade, terá batido recordes de streaming e levado a meio milhão de discussões nas redes sociais sobre o teor das letras e quem são as verdadeiras amigas e inimigas de Tay Tay. Enfim, arte.)
No meio disto não chegámos a falar de dois soberbos discos de rockalhada (Geese e Wednesday), duas bandas que vão, muito claramente, explodir e acabar em todos os festivais de música deste mundo, não falámos do magnífico e estranhíssimo You’re Weird Now, das Guerilla Toss ou do soberbo Blurrr, de Johanne Robertson.
Não falámos mas falamos agora, nas linhas abaixo.
“Getting Killed”
Geese
O ano passado dei por mim tolinho com um disco chamado Heavy Metal, o primeiro a solo de um rapaz chamado Cameron Winter, até então conhecido por ser líder de uma banda chamada Geese. Teoricamente, os Geese fazem indie-rock – mas ponham os ouvidos numa canção como Trinidad: começa meio psicadélica, com metais em fundo e a vaguear mas sem cair, como um tipo ligeiramente embriagado mas que ainda se recorda do caminho para casa, e de súbito temos berros e explosões sonoras vindas do nada, que recordam as epifanias sónicas dos Califone. Trinidad é daquelas canções que funcionam quase como um manifesto de intenções: ouçam, amigos, é disto que nós somos capazes.
Não é, contudo, a matriz de um disco que facilmente se dirige a uma quase-folk ou envereda pelos caminhos ferrugentos do Tom Waits da segunda fase, pós-piano. Na faixa-título regressam os riffs perfeitos enquanto por trás há coros e loucura, enquanto nesse espantoso momento que fecha o disco, chamado Long Island City Here I Come, a sensação com que se fica é que há 300 instrumentos a tocar ao mesmo tempo, todos em ritmos e afinações diferentes enquanto Cameron berra e miraculosamente não é jazz. Quase tenho vontade de fazer uma daquelas grandes declarações e dizer desde já que é o disco do ano.
“Blurrr”
Johanne Robertson
Muito de vez em quando surge um disco assim, em que a fragilidade é transformada em método: há uma guitarra acústica em fundo, tocada com a leveza de quem cuida de um bebé e a voz, toda nenúfares, chega como um esboço que decide não ser finalizado, como se viesse do outro lado do prédio e tivesse de atravessar paredes e paredes. Se existe um álbum que nos faz sentir que estamos a espreitar para a intimidade de alguém, esse álbum é Blurrr. É como se ela fosse nossa colega de casa e a ouvíssemos no quarto, num domingo de chuva, a trautear cantigas para afastar fantasmas.
Pequenos sons, quase domésticos, polvilham as canções: respirações, madeira a ranger, uma frase que fica a meio; nada aqui parece acabado, antes esquissos de canções que nunca foram produzidas e que recusam qualquer tipo de polimento: a beleza está na hesitação e na insegurança. Em Always Were e Gown aparece Oliver Coates, o violoncelo desenha o espaço onde a voz se aninha — e apesar de o som ser “maior”, não se perde intimidade, que é a palavra chave para definir Blurrr, um disco que será bem acolhido pelos fãs de Grouper ou Cocteau Twins.
“Bleeds”
Wednesday
Tal como com os Geese, há uns tempos outra banda viu um dos seus membros ser muito falado à conta de um disco a solo – neste caso, os Wednesday, cujo guitarrista, MJ Lenderman, é hoje o menino bonito do indie-rock, à conta de Manning Fireworks, o seu último álbum a solo. Nos Wednesday, contudo, ele não é a voz principal, apenas guitarrista – quem pega no microfone (e co-compõe tudo) é Karly Hartzman (Karly e MJ foram namorados); MJ ainda compõe e toca, mas já não acompanha a banda ao vivo. Ainda assim, no meio de todas estas mudanças, os Wednesday sacaram um discão que anda pelo shoegaze, o noise e o indie-rock clássico, mas não tem vergonha de ir por outros caminhos.
Twonies é tingido de uma tonalidade country que descamba num refrão quase power-pop perfeito, “Wound up here” avança sem menos pela menlancolia, Reality TV Argument Bleeds abre logo com um riffalhão gigante, depois abranda, um segundo riff toma de assalto a canção, que volta a abrandar até explodir outra vez. Bleeds não é tão estranho como Getting Killed, dos Geese, não nos faz pensar em Tom Waits e em música experimental – mas é um compêndio de criação de riffs e de berraria e solos na altura e volume exatos. Um grande, grande disco.
“You’re Weird Now”
Guerilla Toss
Não é certo quem é o “You” do título, mas “Weird” é este You’re Weird Now e é-o com W maiúsculo. Pyschosys is just a number tem chicotadas digitais a atravessar uma faixa movida a baixalhão, tudo feito com aquele grau de desplante e desgovernanço que nos faz recordar de bandas como os B-52s no início. Em Krystal Ball temos uma série de synths grandiosos e depois tudo acalma para dar lugar a um beat mínimo, antes de um riff insidioso surgir; nem 30 segundos passaram e estamos em águas desconhecidas: há algo de hip-hop, de indie-rock e de pop experimental, que é um termo que se usa quando coisas sonicamente estranhas produzem uma sensação de agrado no ouvido – e nunca se consegue prever exatamente o que se vai seguir.
O sentido de humor desta gente revela-se em detalhes como o sintetizador de Pnaglossian manequin (que tem, como sempre, uma excelente linha de baixo), ou naquele piano inicial de CEO of Personal Pleasure, das canções pop mais avariadas que 2025 produziu. Haverá discos melhores que You’re Weird Now, mas poucos tão imaginativos e improváveis.
“Songs for Other People’s Weddings”
Jens Lekman
Durante anos Jens Lekman foi uma espécie de figura de culto indie, antes de – por razões que desconhecemos – desaparecer um pouco do radar, apesar de continuar a editar: tal como Jonathan Ritchman, o seu ídolo, fazia canções de amor que não temiam ser ridículas, mas tinha a exata consciência (um sample improvável aqui, uns metais inesperados ali) de como as transformar em algo seu (e tinha as referências certas, como se nota pelo facto de ter chamado ao seu disco de estreia, de 2004, When I Said I Wanted to Be Your Dog). Era, por assim dizer, a versão literata do crooner, devidamente reatualizada para o século XXI, e tinha muita graça, em parte porque há nele algo de extremamente lúdico, o que se nota, neste disco, nas teclas e metais da deliciosa A Tuxedo Sewon For Two.
O disco, que é uma espécie de companheiro sónico para um romance coassinado com David Levithan, segue personagens e episódios onde o amor é observado no teatro da cerimónia de casamento. Musicalmente, Lekman continua a ser eclético: há flautas, música de câmara, bossas, sopros, orquestras cintilantes, tudo a criar o pequeno teatro típico de Lekman, em que os humanos são observados com empatia nas suas pequenas falhas. Pontos altos: Candy From a Stranger, Wedding in Leipzig e Speak to Me in Music (esta última um manifesto sobre como falar quando as palavras falham). Há humor e ternura com uma precisão só possível em que já viveu, tropeçou e sobreviveu. Uma pequena joia.