Exatamente 21 minutos depois do apito final do Sporting-Porto, Insónias em Carvão, o rei dos memes, colocou online uma imagem em que um homem sem rosto, envergando uma camisola do FCP, segurava os cabelos de uma rapariga de joelhos, vestida com uma camisola do Sporting. O meme era um pastiche da capa de Man’s Best Friend, o mais recente álbum de Sabrina Carpenter – e uma forma de Insónias dizer que o Porto tinha feito do Sporting a sua bitch.
O rapaz sabia exatamente em que botões estava a tocar: meses antes, a capa, ao ser revelada, teve o condão de unir dois grupos sociológicos aparentemente inconciliáveis: o Grupo De Todas As Pessoas Decentes Que São Contra Porcarias Como a Felação e as diversas Associações de Mulheres Emponderadas Que São a Favor de Todas as Actividades Sexuais Mas Discordam Que Uma Fêmea Em Idade Reprodutora Se Deixe Fotografar Numa Imagem De Aparentemente Submissão Ao Patriarcado, Ainda Por Cima De Quatro (Possivelmente Antes De Praticar A Felação).
Como dizia Charile XCX: miga, é complicado.
Desde que a pop existe que a imagem da mulher é explorada da forma mais sexual possível, e desde que Madonna existiu que algumas mulheres souberam usar a sua imagem, de forma sexualizada, a seu favor e em completo controlo do que fazem. A mencionada Charile XCX é um bom exemplo: quando foi cabeça de cartaz de Glastonbury tocou vestida com uma camisa preta, transparente, de folhos; mas, como se farta de saltar, os folhos subiam e as câmaras revelavam a transparência. É impossível que Charlie não estivesse consciente de que isso pudesse acontecer; nos dias seguintes imagens das (digamos assim) transparências de Charlie povoaram a internet – aposto todo o meu dinheiro em que ela se borrifou por completo para esse facto.
Anos antes, no vídeo de Work, Rihanna usava um vestido transparente e dançava ao lado de Drake – a narrativa teve vários fios a seguir em direções opostas até que finalmente houve fumo branco e A Humanidade tornou consensual que tal vestimenta era simbólica do controlo que Rihanna tinha sobre a própria imagem; mais ou menos o mesmo aconteceu com Ana Moura, após alguns comentários mais conservadores, quando se apresentou com um vestido transparente numa cerimónia de entrega de prémios.
[Man’s Best Friend está disponível na íntegra no Spotify:]
Mas por alguma razão, não recai sobre Sabrina o mesmo tipo de visão consensual de mulher emponderada que faz o que quer – talvez porque a sua imagem é trabalhada de forma ambígua, quase como se ela fosse uma pin-up de antigamente (as roupas que usa certamente remetem para esse imaginário, das raparigas descartáveis dos anos 50, à disposição dos rapazes). Curiosamente, e que me lembre, Sabrina nunca arriscou nudez.
Após o lançamento da capa, a dada altura a discussão em torno da mesma tomou proporções cómicas: no Twitter uma moça punha a hipótese de Sabrina estar de quatro porque lhe apetecia; alguém retorquiu que a mão masculina a puxar-lhe o cabelo indica submissão e que parecia (“parecia”, note-se, nunca se sabe o que acontece nestes casos) que ela se preparava para executar o ato felatório; ao que a twitteira original retorquiu que ela podia fazer o que quisesse, apenas para lhe responderem que não podia se isso fosse feito apenas para agradar ao homem e yada yada yada. Em verdade vos confesso: o sexo (e tudo o que o rodeia) sempre teve as suas complicações, mas hoje obriga a autênticos exercícios de exegese e semiótica.
Quem certamente se ri disto tudo é Sabrina Carpenter, que, estou certo, e ao contrário do que acontecia com as estrelas pop do antigamente, deve ter poder de veto sobre tudo o que diz respeito à sua imagem. Entretanto ela lançou uma imagem menos provocatória para acalmar as fações chocadas, mas isso não muda o que ela faz: criar pop altamente sexualizada através da qual se coloca (peço desculpa) em todas as posições possíveis – seja a rapariga submissa como a jovem cheia de hormonas “que te quer agora, rapaz, e tu vais obedecer”, ou a desesperada ou a rainha, etc.
É possível que as feministas mais críticas tenham razão e que Sabrina, sendo bastante debochada, represente uma espécie de retrocesso na sexualidade feminina: alguém que procura agradar ao público masculino, por oposição a uma artista que usa o seu corpo de forma simbólica. Por outro lado, qualquer pessoa com acesso à internet descobre depressa que muitas raparigas admiram a forma como fala de sexualidade.
Mas Sabrina não se limita a ser diva e a provocar discussões semióticas sobre estar de quatro. Ela também faz canções, imagine-se. No disco anterior, Short n’ Sweet, Espresso tornou-se o hino do verão e um exemplo de como a pop pode ser maior que a vida: um disco-sound suave com melodia solar no refrão e estava encontrada a canção da temporada. Talvez as pessoas não tenham ouvido o disco com atenção, talvez só tenham ouvido os singles, mas o álbum estava cheio de javardeira sexual e, grosso modo (peço desculpa), Sabrina não adotava uma postura passiva em relação ao sexo oposto (ou ao sexo tout court).
Man’s Best Friend, o novo álbum, não tem um Espresso, mas continua a ter javardeira em barda – talvez até mais do que o disco anterior, o que é um feito. Não tem picos tão altos, mas também não oscila tanto de qualidade. Como acontece hoje em dia em muitos discos de estrelas pop, Sabrina Carpenter tenta ir aos mais variados géneros, como se a composição obedecesse a um estudo sociológico sobre a demografia de quem consome música.
Um exemplo disso é Go Go juice, que soa a country e tem um violino à antiga e muitos coros. A canção anterior, When did you get hot?, é pop com balanço (há aqui uma bela linha de baixo) toda ela a objetificar um qualquer homem e novamente cheia de coros (com algo de gospel).
[o vídeo de “Manchild”:]
A revolução de costumes tem as suas ironias: durante anos as mulheres reclamaram de serem objetificadas; a vingança serve-se agora, objetificando. Por vezes pergunto-me se a melhor forma de empowerment será repetir os piores traços que normalmente atribuíamos aos homens, em vez de os homens adotarem as qualidades – empatia, generosidade, etc – que normalmente se atribuíam às mulheres. Claro que nenhuma destas características tem um género; são o resultado de sistemas de poder: quem tem poder faz o que quer sem pensar nas consequências para os outros; quem não tem é empático para sobreviver. Infelizmente desde o início da humanidade apenas os homens têm tido poder. E quem é que também sabe disso? Sabrina Carpenter, que voltou a confiar em Amy Allen para traduzir vontades em cantigas (na compositora e no produtor Jack Antonoff, que acumula um vistoso currículo de trabalho assinado para divas da pop).
Never getting laid, é uma espécie de balada r’n’b, suave e melosa, com teclas delicadas a percorrer a canção; é sobre um homem com quem Sabrina parece ter um acordo para (usando o termo técnico) pinar, mas que não lhe liga alguma; Sabrina especializou-se nestes em que obviamente as pessoas se reveem – se há uma situação amorosa / sexual ao cimo da Terra, ela vai lá e rebola nela. E uma das suas enormes qualidades é não usar paninhos quentes para retratar os entrefolhos da humanidade – de modo que a dada altura da canção ela canta:
“Us girls are fun, but stressful, am I right? (Am I right?)
And you’ve got a right hand anyway”
Com uma ou outra exceção em que se aborda “o amor” (seja lá isso o que for) ou “a paixão” (seja lá isso o que for), quase tudo em que Sabrina se debruça (é quase impossível escrever sobre este disco sem tudo soar a double entendre) é política sexual, o género de política sexual crua que está ligada às pulsões mais básicas, mas que são descritas com a plena consciência de estarmos em 2025: as situações, as atitudes das personagens, tudo isso é visto à luz dos nossos tempos.
Sabrina não é do campeonato de Taylor Swift (que procura ser uma artista séria, que observa a alma humana) ou de Charlie XCX (que retrata o que é ser moça hoje); de certo forma, ela é uma espécie de caricatura da rapariga desejável: aqui é sofrida, ali é devoradora de homens, vestindo todas as roupagens possíveis da diversidade sexual. Talvez por isso ela escolha a capa que escolhe: Carpenter está mais interessada em provocar do que em afirmar. Talvez por isso ela vá à pop, ao funk, use eletrónica e passe pela country (ou mesmo pela música mexicana), enquanto nas letras despacha rapaz atrás de rapaz e debita alguns dos versos mais ordinários (e divertidos) dos últimos anos da pop: ela quer que a streamemos à bruta (eu disse e repito: é quase impossível escrever sobre este disco sem tudo soar a double entendre) e faz tudo para nos agradar. Só que goza com o que faz.
Talvez um dia olhemos para trás e a lembremos apenas por Espresso – e com boa razão, pois é uma canção extraordinária e Man’s Best Friend não tem um único tema a esse nível. O grande defeito de Man’s Best Friend, aliás, é a ausência de grandes êxitos óbvios, o que na pop é pecado. Em sua defesa, o álbum é mais consistente do que o anterior e tem menos pontos baixos, daqueles sobre os quais fazemos skip.
[o vídeo de “Tears”:]
Mas duvido que a esqueçamos tão cedo – pouca gente consegue tão bem recriar o desejo feminino com a lata e a piada que Sabrina Carpenter (ou quem quer que escreva por ela) consegue. Pouca gente consegue tão bem estar de quatro e estar por cima – fingir submissão para ganhar a parada. Se a pop tem pertencido cada vez mais a mulheres empowered, Sabrina subverte o significado de empowerement nunca deixando de fazer o que lhe dá na real gana (e pode dar-lhe na real gana ajoelhar-se).
O poder e o impacto de divas como Sabrina não são nem nunca foram mensuráveis apenas pelas canções – mas sim pelo seu poder de representar um zeitgeist cultural — no caso, o momento em que as mulheres reclamam a mesma independência e liberdade sexual de que os homens dispõem. E ela fá-lo com um descaramento com que milhões de raparigas se identificarão.
Godspeed, Sabrina, de seres chata ninguém te pode acusar.