O papel que a atriz Rose Byrne interpreta no novo filme If I had legs I’d kick you, que se estreia esta sexta-feira nos cinemas norte-americanos, desafia os clichés da maternidade e levanta questões desconfortáveis, disse a protagonista num evento em Los Angeles.

“É uma corda bamba e há desconforto quando as mães sentem coisas inadmissíveis”, afirmou Rose Byrne, premiada no Festival de Berlim pelo seu desempenho, após uma exibição antecipada do filme a que a Lusa assistiu. “Há muita vergonha em torno disso e este filme é tão radical porque nos pede para desafiar esses sentimentos”.

Escrito e realizado por Mary Bronstein, que baseou o argumento numa crise pessoal, If I had legs I’d kick you mostra em Linda uma mãe assoberbada com um misterioso problema de saúde da filha, o apoio insuficiente do marido e um desastre em casa que a obriga a viver semanas num motel.

“Toda a gente já teve de cuidar de alguém nalgum momento, fosse de um pai, um amigo, um marido, um animal, e teve aquela sensação de se afogar por dentro“, descreveu Rose Byrne. “Ela chega a um ponto em que já não é mãe, é cuidadora”.

A atriz, que contracena com o comediante Conan O’Brien, o rapper A$AP Rocky (namorado da cantora Rihanna) e Christian Slater, considerou que este “foi um filme difícil de fazer”, sobre uma mulher em crise mas tocando em vários géneros, incluindo terror psicológico.

“É uma verdadeira peça de arte”, afirmou Byrne, cuja performance como Linda foi distinguida com o Urso de Prata de Melhor Atriz no Festival de Cinema de Berlim.

A longa-metragem independente e agora distribuída pela A24 foi filmada em 27 dias, com recurso muito limitado a imagens criadas por computador (CGI), porque Mary Bronstein queria um visual autêntico.

“Não sou contra o CGI, mas queria fazer um filme prático”, afirmou a realizadora. “As limitações são a mãe da invenção e criatividade. Se pudermos criar tudo em computador, que significado tem? O cinema foi feito sem computadores na maior parte da sua história”.

Isso elevou a fasquia na preparação de cenas importantes, em especial do momento em que o teto do quarto de Linda desaba numa enxurrada.

“Só tinha duas oportunidades de o fazer”, explicou Mary Bronstein. “Se não funcionasse nessas duas vezes, não sei o que faria. Porque esse é o ímpeto que desencadeia toda a história”.

Bronstein usou uma abordagem diferente na realização, incluindo grandes planos da cara de Rose Byrne sem recurso a zoom. A cineasta disse que escolheu a atriz australiana pelo seu talento e capacidade de imbuir momentos cómicos no drama.

“O filme emprega humor de uma forma que lhe permite ir mais longe do que iria se não o tivesse”, considerou Bronstein. “Precisava de uma atriz com o conhecimento intuitivo da comédia e das suas subtilezas mas também o talento para um desempenho muito difícil, físico, emocionalmente cru e vulnerável”.

If I had legs I’d kick you ainda não tem data de estreia em Portugal.