Francisco Neto é um dos principais treinadores da última década no futebol português. Chegado à Seleção Nacional feminina em 2014, com apenas 32 anos, tornou-se numa das caras do desenvolvimento do futebol feminino em Portugal, levando as Navegadoras à inédita participação no Campeonato do Mundo de 2023 e a três fases finais consecutivas do Campeonato da Europa, em 2017, 2022 e 2025. Nos últimos tempos, Neto tem-se deparado com o hipotético fim de ciclo que a equipa atravessa, tendo terminado o Euro com apenas um ponto conquistado e a Liga das Nações no último lugar, que ditou a descida à Liga B.
No Portugal Football Summit, o selecionador voltou atrás no tempo e recordou a altura em que assumiu o cargo. “Eram 32 anos de uma ilusão muito grande, de quem queria muito ser mais uma parte. O sucesso que temos tido não pode ser alavancado apenas numa pessoa. A minha ambição era perceber como é que todos podíamos fazer algo que sentíamos que era possível. Tínhamos alguns indicadores que o mostravam. Antes de termos ido ao primeiro Europeu, já tínhamos ido a um Europeu de Sub-19, com o José Paisana. Depois, nas Sub-17, já tínhamos estado em dois Campeonatos da Europa. Percebemos que era preciso um bocadinho mais: aumentar o número de praticante, evoluir os clubes, melhorar a nossa Liga, aumentar o número de seleções e profissionalizar o espaço seleção. Esse trabalho foi feito, eu sou só uma das peças dessa transformação, que nos levou ao ponto em que estamos agora, mas que não é o ponto em que queremos estar. Olhamos para os próximos anos com ainda mais ambição e responsabilidade”, começou por dizer.
“Temos de dar o passo em frente. A marca de termos ido aos Europeus foi muito importante, sobretudo pela forma como construímos uma equipa e a mentalidade dessa equipa. Essa foi a grande mudança que fizemos nestes anos. Neste momento não temos medo de jogar contra quem quer que seja. A nossa mentalidade mudou. Temos feito esse trabalho a começar na nossa base. A Seleção A dá esse exemplo e, felizmente, também temos os nossos clubes a mostrarem, nas competições europeias, que se conseguem bater com as melhores equipas da Europa. Isto é muito fruto da mudança de mentalidade que temos vindo a fazer. Temos de continuar a crescer em todos os aspetos, desde a cabeça até ao topo. Desportivamente temos de continuar a marcar presença nas fases finais e a lutar por coisas maiores. Ficamos muito contentes quando todas as nossas seleções trazem uma taça para Portugal”, acrescentou Francisco Neto.
Durante a conversa com Irene Palma, jornalista do jornal A Bola, Francisco Neto aproveitou para deixar o grande objetivo para os “próximos dez anos”: “Temos de conseguir trazer uma taça aqui para dentro [Cidade do Futebol]”. “Tem que ser, seja nas A ou na formação. Acreditamos muito no nosso trabalho e tivemos muito perto de fazer história – irmos à final do Europeu – nas Sub-19. Os indicadores estão à vista. Estamos mais perto, falta-nos qualquer coisa e estamos a trabalhar para que ela aconteça. Se olharmos para a geração das jogadoras mais experientes, todas estavam em plantéis seniores com 15/16 anos. Nunca tiveram um trabalho de formação, nas academias. A geração que está a chegar agora, da Francisca Nazareth e da Andreia Jacinto, já teve alguma estimulação. Há um caminho que pode potenciar a jogadora portuguesa, com condições que outras não tiveram e que as fez crescerem mais rápido. Temos jogadoras que estão a chegar com condições técnicas, táticas, físicas e mentais incríveis”, enalteceu.
“O jogo no feminino está a crescer muito, nas diversas áreas. Está a evoluir para uma dimensão fisiológica muito maior: está mais rápido, mais intenso e tecnicamente mais bem jogado. As equipas que mais vezes têm sucesso são as equipas que jogam sob pressão em mais ocasiões. Não ganham sempre, mas chegam mais vezes às fases finais e às decisões. Esta é a grande característica do jogo nos próximos cinco anos. Isto está muito relacionado com o contexto em que a jogadora é formada. Cabe-nos cuidar do nosso jogo e da nossa jogadora. Muitos chamam-nos malucos por termos aceitado esta oportunidade [de ir jogar aos EUA, a 24 e 26 de outubro]. Vamos jogar contra uma das melhores seleções num timing e numa janela muito apertada. A verdade é que temos de jogar com as melhores se queremos ser melhores. Não estamos numa série de resultados incrível, mas sabemos que temos de dar esta estimulação às jogadoras. Termos a oportunidade de jogar perante 20/30 mil pessoas, é algo que não se consegue reproduzir. Só temos tido essa oportunidade nas fases finais. Ter três equipas portuguesas nas competições europeias também é fantástico, porque dá uma estimulação que não conseguimos reproduzir”, assumiu o selecionador nacional.
“Quando dizemos que há equipas que estão 20/30 anos à nossa frente, é um facto. Há um investimento muito grande para nos dar condições para jogarmos mais do que os outros e proporcionarmos experiências diferentes. Estamos na fase em que precisamos de dar o passo em frente e estamos a lutar por ele. Os clubes têm feito um trabalho incrível, com condições brutais. Há 12 anos, havia duas pessoas a tempo inteiro no feminino, eu e a professora Marisa Gomes. Hoje em dia, há muita gente profissional. É um sinal brutal de crescimento, que tem potenciado a jogadora portuguesa. Também fico feliz de ir a uma conferência de imprensa e o jornalista saber o nome da jogadora portuguesa e não se enganarem no meu nome. Durante cinco anos, as nossas convocatórias foram por email, porque não aparecia ninguém. Hoje em dia temos gente a acompanhar-nos na Suíça, na Nova Zelândia e em todo o lado. É um orgulho ouvir o hino, defender o nosso país e poder ser uma peça que representa aquilo que é a nossa paixão: Portugal”, apontou.
Por fim, Francisco Neto falou aprofundadamente sobre o treino no feminino, que é feito com “intervenientes diferentes”. “A grande diferença é a experiência acumulada. Pouca gente oferece uma bola de futebol às filhas, sobrinhas… e aos rapazes toda a gente oferece uma bola de futebol. É cultural. O rapaz, quando acorda de manhã, tem a bola logo ali. A primeira vez que a menina toca numa bola de futebol é porque pede, porque teve um primo ou irmão. Todas as meninas contam esta história. Precisamos deste tipo de estímulo, que a jogadora portuguesa comece mais cedo. Tem que ser normal uma menina fazer aquilo que gosta e terem a possibilidade de jogar. Tem de ser normal vermos uma menina com uma bola debaixo do braço. Foi assim que crescemos no masculino. Quando vamos falar com a Kika ou a Jacinto, são as histórias que elas contam. São pequenas mudanças que nos permitem chegar lá, porque a prática é importante”, finalizou Neto.