Durante quase dois milénios, um corredor permaneceu escondido no Coliseu de Roma. Trata-se de uma passagem secreta que outrora testemunhou os passos solenes dos imperadores romanos e onde Cómodo terá sofrido uma tentativa de asssassinato. Construído entre o final do século I e o início do século II, este túnel ligava o anfiteatro a zonas ainda envolvidas em mistério. Servia, essencialmente, para que o imperador e a sua comitiva chegassem ao anfiteatro sem serem vistos e, após várias obras de restauro, abre esta segunda-feira ao público.

“Há quem defenda que [a passagem] conduzia diretamente aos palácios imperiais, para que o imperador e a sua comitiva chegassem ao anfiteatro longe dos olhares do público. Outros acreditam que ligava o Coliseu ao Ludus Magnus, a principal escola de gladiadores de Roma“, conta Alfonsina Russo, diretora do Parque Arqueológico do Coliseu, à agência de notícias italiana ANSA.

O corredor, descoberto em 1810, foi então batizado de Passagem de Cómodo, em homenagem a Cómodo, filho de Marco Aurélio e imperador romano que governou entre 180 e 192. Era conhecido pelo seu fascínio pelos jogos e combates, tendo-lhe sido atribuído o cognome de “gladiador“. Através das crónicas históricas, especialistas em história romana dizem que o imperador sobreviveu a uma tentativa de assassinato numa passagem subterrânea — e tudo indica que se trata deste túnel secreto.

O restauro seguiu um objetivo pedagógico e sensorial. “Agora, os visitantes podem imaginar como era entrar ali como um imperador”, afirmou Barbara Navarro, responsável pelo projeto. A experiência é enriquecida com uma recriação virtual do aspeto original do espaço e das decorações perdidas.

A Passagem de Cómodo revela ainda as marcas da Roma antiga: superfícies revestidas de mármore e vestígios de pinturas de paisagens, cenas mitológicas e decorações alusivas aos espetáculos da Roma Antiga, com representações de caçadas, combates com ursos e atuações acrobáticas.

“A abertura da Passagem de Cómodo representa não só um avanço na conservação do monumento, mas também um passo importante na acessibilidade e inclusão cultural“, destacou Alfonsina Russo, diretora do Parque Arqueológico do Coliseu, explicando que “graças aos fundos do Plano Nacional de Recuperação e Resiliência [PNRR], foram eliminadas barreiras arquitetónicas e desenvolvidos instrumentos que promovem a acessibilidade cognitiva, como uma maquete tátil e um vídeo reconstrutivo das decorações originais”.

O percurso restaurado permite, também, apreciar os jogos de luz que iluminavam o túnel através das pequenas aberturas conhecidas como “bocas de lobo”. A responsável acrescentou, ainda, que o acesso será feito por pequenos grupos de oito pessoas, permitindo uma visita mais controlada e imersiva, semelhante à experiência do elevador panorâmico já existente.

Para o diretor-geral dos Museus Italianos, Massimo Osanna, o espaço “não é apenas um local aberto a todos graças aos novos dispositivos de acessibilidade, mas também um exemplo de como se podem ultrapassar as barreiras cognitivas dos sítios arqueológicos”.

“Muitos destes locais não conseguem comunicar plenamente a sua história, mas aqui, com o apoio das tecnologias digitais, os visitantes podem ver como era originalmente o corredor e compreender o seu significado simbólico”.

Até ao início do próximo ano, será iniciado a segunda etapa de trabalhos de restauro, que abrangerá a secção exterior do corredor. Durante este processo, os visitantes poderão observar ao vivo a recuperação dos estuques, dos mármores e das pinturas antigas através de uma parede de vidro colocada no final do percurso.