A prisão de Wandsworth, em Londres, libertou, em menos de uma semana, dois reclusos por engano, revelando falhas de comunicação e controlo que provocaram duras críticas ao Ministério da Justiça britânico que já estava debaixo de fogo pela libertação, uns dias antes, de um outro condenado por abuso sexual. Um deles regressou voluntariamente esta quinta-feira, a sorrir, para a cadeia.

O primeiro dos dois casos mais recentes envolve Brahim (ou Ibrahim) Kaddour-Cherif, de 24 anos, cidadão argelino registado como criminoso sexual, libertado por erro administrativo a 29 de outubro. Condenado em novembro de 2024 por exposição indecente — ocorrida em março —, cumpria uma ordem de 18 meses de serviço comunitário e estava inscrito na lista de agressoressexuais por cinco anos. Preso em junho último pela posse de uma faca, estava na cadeia por invasão de propriedade com intenção de roubo acusado de ser um “ladrão em série”, refere o jornal britânico The Telegraph.

Para além da libertação indevida, um problema aumentou a controvérsia: a polícia só foi informada que Kaddour-Cherif tinha sido libertado seis dias depois, altura em que iniciou uma caça ao homem, até agora sem sucesso.

O comandante da Polícia Metropolitana, Paul Trevers, lamentou que as autoridades tivessem sido alertadas tardiamente da libertação de Kaddour-Cherif, o que deu ao fugitivo “uma vantagem de seis dias”. Ainda assim, frisou que estavam “a trabalhar com urgência para o localizar”.

Detenção de Brahim Kaddour Cherif a 9 de setembro de 2025

Metropolitan Police

Entretanto, a Polícia Metropolitana divulgou um vídeo da detenção de Brahim Kaddour-Cherif, a 9 de setembro de 2025, semanas antes da libertação por engano.

De acordo com a imprensa britânica como o The Telegraph, a BBC, ou a Sky News, por exemplo, Kaddour-Cherif entrou legalmente no Reino Unido em 2019, mas permaneceu no país depois de o visto expirar. Já tinha sido identificado pelas autoridades de imigração como um caso de deportação pendente. O erro que o libertou ocorreu quando os documentos necessários para a sua reclusão não foram transferidos para Wandsworth. Mas a falha só foi detetada quando um tribunal notou a ausência do arguido num novo processo por roubo de uma bicicleta.

Enquanto a Polícia Metropolitana de Londres tentava recuperar o tempo perdido, um segundo caso voltou a expor fragilidades no mesmo estabelecimento prisional. William Smith, de 35 anos, foi sentenciado a 45 meses por múltiplas fraudes a 3 de novembro, mas acabou por ser libertado nesse mesmo dia — também por erro administrativo. A BBC apurou que o equívoco começou quando a sentença foi registada como suspensa e continuou quando, depois de corrigida, foi enviada ao destinatário errado.

A BBC Surrey partilhou então na rede social X uma fotografia de William Smith, de 35 anos, acompanhada do apelo da polícia à colaboração pública. Não foi precisa. Smith decidiu, três dias depois, entregar-se. Esta quinta-feira, a ITV News filmou-o no seu regresso à prisão. As imagens mostravam Smith a acenar e a sorrir enquanto se aproximava da entrada da cadeia.

O ministro da Justiça, David Lammy, na mira de toda a oposição, confirmou o regresso deste recluso e escreveu no X que o aumento destes erros são “inaceitáveis”.

De acordo com dados citados pela BBC, o número de libertações por engano em Inglaterra e País de Gales mais do que duplicou no último ano — passando de 115 para 262 —, levando os analistas a sublinharem a pressão sobre um sistema prisional sobrecarregado e desorganizado.

As duas libertações, ocorridas quase em simultâneo, transformaram a HMP Wandsworth num problema nacional que atingiu em cheio o vice-primeiro-ministro e ministro da Justiça, David Lammy. Menos de duas semanas depois de ter anunciado “os controlos mais rigorosos de sempre” na libertação de reclusos, Lammy foi confrontado no Parlamento por deputados conservadores que exigiram explicações. Durante as perguntas, recusou confirmar se algum migrante tinha sido libertado por engano — embora já tivesse sido informado do caso de Brahim Kaddour-Cherif durante a noite. A decisão valeu-lhe acusações de falta de transparência e mais críticas da oposição.

Horas depois, Lammy publicou uma declaração em que se dizia “absolutamente indignado e chocado” com o sucedido, prometendo uma investigação independente liderada por Dame Lynne Owens, antiga chefe da Agência Nacional do Crime. O objetivo é “compreender o que falhou e garantir que episódios como este não se repitam”.

Os casos de Wandsworth ganharam ainda mais dimensão porque chegam poucos dias após a libertação de uma outra cadeia, a de Chelmsford em Essex, também por engano, de Hadush Kebatu, um imigrante etíope condenado por abuso sexual de uma mulher e uma menor, que foi entretanto encontrado e deportado para a Etiópia.

Texto editado por Dulce Neto