Henrique Gouveia e Melo nega ter pressionado o Governo antes de ter deixado a chefia da Marinha para conseguir obter submarinos. “O mal estar tem a ver com a certa altura terem-me pintado (entre aspas) como um indivíduo que estava a fazer chantagem com o Governo. Ou me davam dois submarinos ou eu não ficaria”, afirmou em entrevista à CNN Portugal, para explicar notícia que este domingo motivou troca de declarações com Marcelo.

“Eu nunca fiz essa chantagem e fiquei aborrecido que me pusessem na boca e nas minhas intenções determinado tipo de de argumentação que nunca fiz”, acrescentou sobre a ideia de “chantagem” que contesta ter feito.

Gouveia e Melo revela que se candidata porque Marcelo o tentou travar. Presidente nega ter tomado essa posição em público

O candidato presidencial diz ter havido uma “má interpretação do que está escrito” no seu livro em relação ao que motivou a sua candidatura à Presidência da República. “Não digo que o motivo para me candidatar à Presidência tem que ver com o atual Presidente. O que digo é que, na minha análise, achei que o meu contributo seria maior fora das Forças Armadas e da Marinha, enquanto político”, afirmou também.

No livro “Gouveia e Melo — As Razões”, o candidato presidencial refere-se a uma notícia do Expresso em que se dava conta que Marcelo Rebelo de Sousa pretendia reconduzir Gouveia e Melo como chefe do Estado-Maior da Armada para evitar a sua candidatura presidencial. Outro artigo do Expresso, publicado dias depois, dava conta que Gouveia e Melo só aceitaria a recondução se tivesse a garantia de que haveria um forte investimento na Marinha, chegando-se mesmo a referir a compra de mais submarinos.

“Foi esse artigo que me fez definir o rumo. Porque, quando o li, fiquei mesmo danado”, lê-se no livro, segundo adiantou a Lusa este domingo — citação que Gouveia Melo diz estar a ser tirada de contexto. Questionado este domingo sobre o que o deixou “danado”, respondeu que se referia a uma “declaração que o senhor Presidente” fez na sua tomada de posse como Chefe do Estado-Maior da Armada.

Almirante não dissolve “em caso de maioria”

Sobre o que o levaria a dissolver a Assembleia da República, Gouveia e Melo considera que “há quem entenda que as eleições legislativas são para eleger um primeiro-ministro”, mas nota que “isso não está escrito na Constituição”. “O que a Constituição diz é que devemos eleger uma Assembleia da República de onde nasce um Governo. Se houver estabilidade na Assembleia da República faz sentido manter a governação, depois mais tarde ela vai ser julgada”, esclarece.

É perentório a dizer que, em caso de maioria, não concorda com a dissolução do Parlamento. “O Presidente é o ator político e não vai dissolver por princípios. Não vai dizer, ‘se o primeiro-ministro cair cai o Governo’ e se ‘o Governo cair eu vou ter de fazer a dissolução da Assembleia da República’. Onde é que isso está escrito? O princípio da governabilidade é mais importante do que as tricas políticas”, garante.

Diz que “também não está na Constituição” que se o Orçamento do Estado não passar o Parlamento tem de ser dissolvido. “Tem de se analisar se conseguimos viver em duodécimos”, afirma. Diz que se houver situações excecionais, por exemplo um contexto internacional que justifique uma grande despesa em Defesa e que impeça os duodécimos, então seria necessário “voltar à consulta popular” para resolver o impasse orçamental.

Candidato presidencial diz que “faltou diálogo” com trabalhadores e não exclui veto à reforma laboral

Gouveia e Melo não afasta, no caso de ser Presidente da República, um possível veto à reforma laboral. “O que importa é que o Presidente defenda o que pensam os portugueses, 99% dos portugueses são trabalhadores ou mais e qualquer coisa que mude os seus direitos deve ser pensada com muito cuidado”, afirmou na entrevista à CNN.

O candidato diz que a “flexibilidade na economia não significa que ela seja ganha através do ataque aos direitos dos trabalhadores que foram conquistadas durante décadas”. Sobre a greve geral, marcada para 11 de dezembro, questiona se foram esgotados os mecanismo de diálogo. “A presidência deve ajudar esses mecanismos de diálogo, porque é uma lei tão fundamental que vai afetar grande parte de da população em Portugal”, garante.

“Faltou diálogo e é preciso insistir nesse diálogo”, considera ainda, notando que “há um lugar geométrico entre os interesses dos empresários e dos trabalhadores”.

Sobre Mário Soares e Ramalho Eanes, que tem indicado como dois modelos de presidência que pretende seguir, e afastando-se da ideia que os tem nomeado para agradar a todos os espectros políticos, o almirante afirmou que não se revê em todas as atitudes de Soares. “Eu sou um retornado, há coisas que me magoaram, mas o que eu relevo é que no momento crítico para a democracia em que podíamos ter caído numa ditadura de esquerda, comunista e marxista, estes dois homens foram fundamentais”, esclarece.

“Acusarem-me que sou de esquerda porque admiro um homem que tinha coragem e que lutou pela liberdade. Alguém me quis demonizar e encostar a um lado, até já me acusaram de ser do Bloco de Esquerda”, acrescentou. E quis deixar claro: “Sou do tal centro pragmático, da social-democracia.”