O almirante Gouveia e Melo revela que só decidiu avançar para Belém quando leu uma notícia no Expresso, publicada em setembro do ano passado, de que Marcelo Rebelo de Sousa pretendia travar a sua candidatura presidencial através da sua recondução como chefe da Armada. O Presidente da República afastou-se da notícia em causa, argumentando que foi escrita sem ter por base declarações públicas suas: “Não dei nenhuma entrevista em que tenha dito aquilo que dizem que disse”.
Reiterando ter por princípio não comentar a corrida presidencial, Marcelo abordou este domingo as declarações do almirante Gouveia e Melo para explicar que o artigo referido não reflete uma posição que tenha tomado publicamente. “Não encontram nenhuma entrevista minha em que eu me pronunciasse sobre questões de chefia das Forças Armadas”, disse o Chefe de Estado, à margem de uma cerimónia em Vila Viçosa. Por outro lado, não desmentiu a informação avançada pelo Expresso em outubro de 2024.
O que é certo é que no livro “Gouveia e Melo — As Razões”, uma longa entrevista conduzida pela jornalista e diretora-adjunta do Diário de Notícias Valentina Marcelino, o candidato presidencial conta que nessa altura “foi esse artigo que me fez definir o rumo. Porque, quando o li, fiquei mesmo danado”.
O artigo do Expresso indicava que Marcelo pretendia reconduzir Gouveia e Melo como chefe do Estado-Maior da Armada para evitar a sua candidatura presidencial. Outro artigo do Expresso, publicado dias depois, dava conta que Gouveia e Melo só aceitará recondução se tiver a garantia de que haverá um forte investimento na Marinha, chegando-se mesmo a referir a compra de mais submarinos.
Gouveia e Melo, que já se havia referido a uma tentativa para travar a sua candidatura a Belém através da sua promoção a chefe máximo das Forças Armadas, sem indicar nomes nem datas, aponta desta vez o dedo ao Presidente da República e ao Governo.
“De facto o Governo — e também o senhor Presidente da República — não pareciam interessados em nada da defesa, para além de fazerem umas correções nos ordenados dos militares. Assim, deduzi que o que pretendiam era que eu ficasse amarrado à Marinha com o eventual ‘prémio’ de, no fim, poder ser CEMGFA e atingir o topo da carreira militar. Pensaram, especulo eu, que ficaria muito contente por me darem a oportunidade”, desabafa.
O almirante que chefiou a Marinha e o processo de vacinação contra a covid-19 deixa a ideia de que a estratégia dos que pretendiam travar a sua candidatura saiu completamente furada: “Essas pessoas verdadeiramente não me conheciam…essa é a única coisa que eu nunca faria: ser príncipe só para cortar fitas”.
“Ora, queriam dar-me importância sem me darem poder para fazer nada. Muito obrigado. Foi aí que decidi: Vou entrar no campo das verdadeiras decisões, a política“, assegura.
Henrique Gouveia e Melo não poupa críticas ao poder político, como a existência de “um certo autismo aos ventos de mudança e um alheamento perigoso do que se aproximava”, dando o exemplo da cena internacional e da possível reeleição de Donald Trump como Presidente dos Estados Unidos. “Pensei, ‘se os senhores não estão sequer preocupados, ficar não faz sentido, o meu contributo só poderá ser útil cá fora, precisamente no meio político’”, assume.
No livro, de 236 páginas, Gouveia e Melo acusa Marcelo Rebelo de Sousa de ter feito uma “coisa muito incomodativa” quando se colocou a questão da sucessão do almirante Mendes Calado como chefe da Marinha, em 2021, e terá dito que “não era necessário que o almirante Gouveia e Melo empurrasse o almirante Mendes Calado”.
“Essa frase foi verdadeiramente assassina”, sustenta o agora candidato a Belém, afirmando que não empurrou ninguém e que Marcelo o veio a reconhecer posteriormente. Só que, como essas declarações e também pelo facto de Mendes Calado estar “zangado com o Governo” de então, tudo “se conjugou para criar um ambiente difícil, de cortar à faca”.
Sobre as presidenciais de 18 de janeiro, Henrique Gouveia e Melo afirma que o seu “principal adversário” não está nas eleições, mas no “preconceito travestido de democracia”.
Quanto à crítica de Luís Marques Mendes de que a eleição de Gouveia e Melo poderia ser “um risco enorme, até um perigo para a democracia”, o almirante responde apenas: “Senti que o candidato Luís Marques Mendes tinha ensandecido por momentos“.