Nos últimos anos, o mundo do futebol e o mundo dos negócios uniram-se de tal forma que, a simbiose que parecia impossível, deu lugar a uma nova forma de pensar e viver o desporto. Os clubes – ou a estrutura profissional de futebol – deixaram de ser dos sócios e adeptos e passaram para as mãos daqueles que têm dinheiro para fazer face às despesas, que também têm tendência para crescer, catapultando o clube para outro patamar em muitos desses casos. Esta nova forma de gestão é vista como o futuro do futebol e poderá chegar a Portugal nos próximos anos de um ponto de vista mais afirmativo, embora o investimento externo já tenho entrado, por exemplo, pela porta de Rio Ave, Famalicão, Casa Pia ou Alverca.

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O mais recente caso chega de Espanha, com o Atl. Madrid a fechar, nos últimos dias, um grande negócio com o recentemente criado Apollo Sports Capital (ASC), que foi fundado a 29 de setembro e pertence ao Apollo Global Management, um fundo dos EUA criado em 1990 por Leon Black, Josh Harris e Marc Rowan, e que é responsável pela gestão de um volume de 850 mil milhões em ativos, com 17 mil milhões a dizerem respeito ao mundo do desporto. O ASC é liderado por Al Tylis e tem cinco mil milhões de dólares para investir no desporto, tendo saltado para a ribalta com a compra de 55% do capital dos colcheneros, que tem a totalidade do seu capital avaliado em 2,5 mil milhões de euros, segundo o El País, que cita “fontes conhecedoras da operação”. A título de exemplo, o fundo Apollo envolveu-se no futebol português em 2019, com uma operação financeira que permitiu ao Sporting assegurar um encaixe de 65 milhões, num negócio que envolveu a titularização das receitas relativas aos direitos televisivos, que foram vendidos à NOS. Tudo aconteceu numa altura em que o clube liderado por Frederico Varandas passava por problemas de tesouraria.

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Tylis é um empresário e investidor com participações em diversos clubes ingleses, mexicanos e colombianos juntamente com atores de Hollywood, como Ryan Reynolds ou Eva Longoria, e antigos futebolistas, como é o caso de Mesut Özil. “Tendo sido investidor em vários clubes ao longo dos anos, sei em primeira mão como o Apollo Sports Capital será importante no mercado. Traremos capital paciente, estruturas transversais e uma gama de soluções superior às estratégias típicas vistas até agora”, referiu o investidor, citado pelo El Mundo. O negócio para a compra de 55% das ações do Atl. Madrid passou pela Atlético HoldCo Company, uma holding fundada em 2021 e que tinha uma parte significativa do capital do clube (mais de 70%), tendo Miguel Ángel Gil, Enrique Cerezo e Ares Management como principais figuras. Com este negócio, Gil mantém-se como CEO mas passa a ter 10% das ações, ao passo que a empresa de gestão de fundos fica com 5% e o atual presidente com 3%. A Quantum Pacific, que é um grupo empresarial liderado pelo israelita Idan Ofer, continua a ser o segundo maior acionista, tendo agora 27% das ações.

“Esta operação proporcionará um futuro mais sólido ao clube para competir com os gigantes do futebol europeu”, espera o clube que atua no Metropolitano. De acordo com o último balanço económico, tem a sua dívida fixada nos 510 milhões de euros, algo que se espera que diminua nos próximos anos, já que a entrada de capital visa “apoiar os planos do clube a longo prazo”, destacando-se um “investimento adicional nas equipas do Atl. Madrid e em importantes projetos de infraestrutura”, no qual se inclui, segundo a imprensa espanhola, a cidade desportiva dos colchoneros, que exige um investimento de pelo menos 800 milhões e motivou, segundo o El Mundo, as primeiras conversas entre o Apollo e o clube. “Para mim era importante contar com um parceiro de longo prazo que acreditasse na nossa estratégia e pudesse potenciar as nossas atividades fora do campo com o desenvolvimento da Cidade do Desporto”, explicou Ángel Gil.

A ASC garante que o Atl. Madrid será o seu “principal investimento”, recusando a ideia de estar a criar “uma estratégia de multi-propriedade para o controlo de clubes”. Apesar de o negócio ter sido oficializado por todas as partes envolvidas, o investimento da ASC está ainda sujeito ao cumprimento das habituais normais das entidades reguladoras do mercado, devendo ser concluído nos próximos três a seis meses. Certo está o facto de a família Gil deixar de ser a principal proprietária do Atl. Madrid após 33 anos nessa condição. Segundo o El País, o clube chegou a cogitar a possibilidade de ter um investidor árabe, mas optou por ter um acionista com presença no mundo do desporto.

O Apollo Global Management é conotado como um dos fundos de investimento mais importantes do mundo, com os seus ativos a aproximarem-se do bilião de dólares. A sua sede está localizada em Nova Iorque, embora possua escritórios em cidades de todos os continentes. Entre as suas apostas recentes figuram, para lá do Atl. Madrid, os torneios de ténis Madrid Open e Miami Open, que pertencem à categoria de Masters 1.000, sendo apenas superados pelos Grand Slams. Com vista a potenciar-se no mercado, o Apollo investiu grandes quantias de dinheiro no Caesars Entertainment Corporation, a maior companhia de casinos e jogos do planeta, bem como no Las Vegas Resort, que possui os famosos casinos de Las Vegas. Para além disso, o fundo adquiriu ações das companhias de cruzeiros Norwegian Cruise Line e Regent Seven Seas Cruises.

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Com esta operação, que deverá rondar os 1,4 mil milhões de euros, o Atl. Madrid vai entrar na lista das três grandes operações no futebol europeu, ficando atrás da recente aquisição do Manchester United, feita pelo empresário britânico Jim Ratcliffe, que pagou 1.425 milhões de euros à família Glazer por 27,7% das ações dos red devils. O topo da lista é ocupado pelo Chelsea que, em 2022, foi vendido a um consórcio de investidores norte-americanos, liderado por Todd Boehly, por 2.850 milhões, numa operação que teve de ser feita por conta da invasão russa na Ucrânia, já que o russo Roman Abramovich teve de se “desfazer” do clube inglês. A essa quantia juntou-se um montante de mais de dois mil milhões de euros oriundo do compromisso de novos acionistas.

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A seguir aos colchoneros está agora o AC Milan que, em 2022, foi comprado na totalidade pelo fundo norte-americano RedBird Capital Partners, por 1,2 mil milhões de euros. Apesar de a transação se aproximar da que foi feita pelo Atl. Madrid, a valorização dos espanhóis acaba por superar em mais do dobro a que aconteceu no clube italiano, segundo o El País. Em 2018 foi a altura de o empresário Stan Kroenke adquirir praticamente a totalidade do Arsenal, pagando 625 milhões de euros pelos 30% que lhe faltavam para chegar aos atuais 97%, o que atirou o clube para uma cotação superior aos dois mil milhões. Dos EUA chegam ainda fundos de dois grandes clubes que cresceram na última década, catapultados pelos chamados petrodólares: o PSG, que pertence ao fundo soberano do Qatar, e o Manchester City, que tem como principal proprietário o emir Mansour bin Zayed Al Nahayan.

Nos parisienses, o fundo Arctos Partners, que tem sede no Texas, adquiriu, em 2023, 12,5% do clube por mais de 500 milhões de euros, o fez ascender a valorização do PSG para os 4,250 milhões. Por outro lado, em 2019, o fundo Silver Lake comprou 10% do City Football Group, por 444 milhões, ficando ainda com participações nas outras equipas do grupo City. Atualmente, a sua participação está situada nos 18%. Globalmente, os dois clubes foram um investimento modesto para os donos, tendo custado, respetivamente, 100 milhões em 2011 e 228 milhões em 2008. Há ainda a registar a compra do Inter pelo fundo Oaktree (395 milhões em 2024), e da Roma (591 milhões em 2020) e do Everton (456 milhões em 2024) por Dan Friedkin. Já o Newcastle foi comprado Fundo de Investimento Público saudita (PIF) por 400 milhões.