“O que está em cima da mesa é mau de mais”. Foi neste tom que Mário Mourão, secretário-geral da UGT, anunciou a aprovação, em secretariado geral e conselho geral da confederação sindical, de se associar à greve geral, a 11 de dezembro. Será assim uma greve conjunta com a CGTP, o que não acontece desde 2013, e desde o 25 de abril será a quinta em que as duas centrais se associam para protestos.
Mário Mourão, secretário-geral da UGT, anunciou a decisão tomada pelo conselho geral da confederação por unanimidade e aclamação de que a 11 de dezembro a CGTP não estará sozinha nas ruas. Terá a participação da UGT. Tudo porque a União Geral de Trabalhadores não viu qualquer abertura do Governo, mesmo nas negociações, em acatar algumas das sugestões da confederação sindical na proposta para a reforma laboral.
“A UGT tem de prestar contas aos seus sindicatos e dirigentes e não tínhamos nada para apresentar senão a proposta de julho [o anteprojeto laboral] e por isso teve de tomar outras medidas. Depois de debate intenso nos seus órgãos, chegou à conclusão que é necessário de diligenciar para nos mobilizarmos para as lutas, nomeadamente para a greve geral. A UGT não quer fazer uma greve, somos obrigados a fazê-la”, declarou Mário Mourão, em conferência de imprensa após a aprovação pelos órgãos da greve.
A rua, acrescentou, “é o espaço que nos resta para fazer valer aquilo que são as nossas propostas”. Para a UGT, “a negociação coletiva não se valoriza com as medidas do pacote proposto pelo Governo nem os salários aumentam precarizando as relações laborais”. É “desiludir os trabalhadores que não encontram respostas para que se fixem, nomeadamente os jovens, em Portugal”, diz o mesmo responsável.
“O que está em cima da mesa é mau de mais”, afirma o secretário-geral da UGT, admitindo que o Governo fez chegar há dois dias entregou “uma nova proposta”. “Foi depois de dizermos que íamos entrar para a luta que surgiu esse documento”, insuficiente para não ter avançado com a decisão da greve. “É muito pouco”, garante, acrescentando: “Foi mais um passo que o Governo deu, para que a UGT não abandonasse as negociações”. “Não há ainda matéria em cima da mesa que deixe a UGT confortável para desmarcar a greve”. Tem “algumas matérias”, disse Mário Mourão, sem concretizar, assumindo que “ainda não tivemos tempo” de analisá-lo.
Mas Mário Mourão garante que a UGT não vai abandonar as negociações. “Estaremos totalmente disponíveis para discutir tudo”, sabendo-se que há matérias das quais não concordará. “Nunca fechámos as portas à negociação”, garante Mário Mourão, mas admite: “não sei se até ao dia da greve haverá condições” para discutir todas as matérias.
“Diálogo, diálogo, diálogo. Falhando só greve”, diz Mário Mourão, dizendo haver reuniões previstas. “Não temos indicação do Governo de que vão desistir”. O Governo tem uma leitura diferente. Em declarações à Antena 1, Rosário Palma Ramalho, ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, afirma que “a ameaça desta greve geral é reveladora da intenção da UGT de romper as negociações”. Ainda assim, acrescenta, “o Governo mantém o empenho no diálogo com os parceiros que desde o início vem mostrando na negociação”. No entanto, acusa a central de ter aprovado a greve “quando já está marcada nova reunião bilateral para quarta-feira”. Para a ministra “os portugueses não querem uma greve geral, por isso da parte Governo a negociação prosseguirá até que a UGT concretize a sua intenção de rutura”.
Intenção de rutura que a UGT afasta. “Não fechámos a porta e continuamos a dizer que se recebermos o convite para reunir já a seguir vamos para reunião”, indica Mário Mourão.
Ainda que vá admitindo poder reverter a decisão da greve — nos órgãos respetivos — caso as negociações avancem na direção das propostas da UGT, a intersindical diz que agora se irá preparar para a luta. “A proposta que chegar ao Parlamento tem de diminuir as propostas que a UGT considera mais graves”, assume. Se a proposta for para o Parlamento tal como está, “a UGT continuará na rua”, diz Mário Mourão, reforçando: “Não vai deixar de lutar”. Ainda assim, não há decisões irrevogáveis, e “quando há uma mesa negocial devemos fazer o máximo para que resultem as negociações. A greve é o limite. Esperemos encontrar resposta para alterar as decisões que agora são tomadas”.
Em conferência de imprensa Mário Mourão aproveitou para contestar as declarações de Luís Montenegro que colou a decisão da UGT ao PS. Recordando o histórico de 47 anos, e dos vários acordos assinados na concertação social, com governos da esquerda mas também da direita, Mário Mourão conclui: “Se as questões partidárias tivessem entrado nesta casa, a UGT se calhar hoje não existiria”, diz, recordando que uma das greves foi feita numa altura em que “uma dirigente desta casa ocupava a pasta do trabalho de governo socialista”. Helena André foi ministra de José Sócrates, que teve uma das poucas greves gerais conjuntas, a 24 de novembro de 2010.