Não foi a primeira vez que apontou críticas à equipa, foi a vez em que visou de forma mais direta a equipa. José Mourinho, como qualquer treinador que assume um clube grande, tinha one shot para adotar um tipo de discurso mais duro para fazer soar alarmes e mudar a direção de uma época – e essa bala foi jogada na sequência de um dos encontros teoricamente mais acessíveis da temporada e antes de um compromisso que podia marcar o resto da campanha no plano internacional. Houve um pouco de tudo no apontar de dedo no final da partida com o Atlético, agora nada disso contava para o jogo em Amesterdão com o Ajax. Nem para uns, nem para outros, tendo em conta que uma derrota quase significava o “final” da Champions.

Ajax-Benfica. Trubin evita o empate de Bounida (0-1, 51′)

“A nossa primeira parte foi pobre ao nível do que mais me dói, a atitude. Houve muito jogador que não foi sério, não encarou as coisas como devia. Ao intervalo fiz quatro substituições mas gostava de ter feito nove”, atirou o técnico poupando apenas o jovem Rodrigo Rêgo e Otamendi. “Não teve nada a ver com o sistema, o problema não era o sistema mas sim os jogadores. Já disse que não me venham bater à porta porque não jogam. Na atitude há coisas que não são negociáveis e que não posso aceitar (…) Há jogadores que às vezes saem do clube e não sabem. Pode ser que aconteça com alguns… Responsabilidade? Essa é do chefe, minha. Estou a criticar-me a mim, por não conseguir tirar o melhor deles”, acrescentou ainda depois desse duelo da Taça de Portugal no Restelo. Agora era tempo de encontrar uma resposta “esquecendo” esses alertas.

“Mensagem? Não vejo nenhum filme mas percebo que têm de debater. Como conseguem ter comentadores 23 horas e meia por dia em todos os canais? Para mim e para os jogadores acabou ali, foi uma mensagem que quis passar. Os últimos treinos foram muito bons, tem sido assim. Não tenho nada a dizer de negativo, pelo contrário. Agora é uma questão de ganhar para poder ter esperança de nos qualificarmos. Mais importante do que essa motivação não conheço…”, argumentou Mourinho na antecâmara da “final” nos Países Baixos, antes de mais duas questões a esse propósito. “O teu pai foi sempre simpático para ti enquanto jovem até te transformares num adulto responsável? Há fases, é exatamente isso”, destacou para encerrar o assunto.

Tudo se focava então no confronto com o Ajax, um duelo outrora histórico mas que juntava agora as únicas duas equipas sem pontos em quatro encontros da Liga dos Campeões e uma formação neerlandesa com um novo treinador “repescado” em termos internos, Fred Grim, que continuava sem conseguir colocar a equipa de Amesterdão ao nível que mostrou ter na época passada. “É um jogo fundamental para as duas equipas. É certo que nove pontos poderiam ser suficientes, quem perder ainda terá matematicamente esperança de se poder qualificar, mas olhando para a nossa situação de modo muito objetivo, os três próximos jogos não serão propriamente fáceis. É fundamental ganharmos”, assumira sobre a importância do encontro antes de falar também daquilo que representava um Ajax-Benfica para voltar a deixar uma mensagem para dentro.

“Nasci em 1963, o Benfica foi campeão europeu nessa década, o Ajax ganhou três taças europeias nos inícios de 70. Estes miúdos não eram nascidos. Até o Simão, que é um ex-jogador jovem, diz ‘Estes gajos não sabem quem fui’. Eles estão um bocadinho fora dessa história. Outra coisa é o carisma, a mística, a história do clube do qual eles envergam a camisola, o conhecimento da paixão dos adeptos, da história do Benfica, o lema gritam no balneário E Pluribis Unum… Têm de saber o que isso significa na profundidade do que é ser jogador do Benfica. Têm de ter essa responsabilidade. Há jogadores que nascem com o ADN para jogar em equipas grandes com este tipo de exigências, há outros que não nascem assim e que precisam de crescer. Outros nem chegam a crescer…”, apontou José Mourinho, mais uma vez à espera da tal “resposta”.

Essa “resposta” apareceu. O Benfica não fez o jogo que pode fazer pela qualidade que tem mas sentiu-se bem mais confortável no regresso a uma pele tática que prescindiu da linha de três atrás, percebeu da melhor forma os momentos do encontro mesmo prescindindo de arriscar um pouco mais e fechar cedo as contas diante de um Ajax a atravessar uma crise de confiança e até de identidade como há muito não se via e somou os primeiros pontos na Liga dos Campeões, mantendo em aberto as possibilidades de chegar ao playoff. Os laterais foram competentes, os centrais foram maiores do que o gigante Weghorst, Aursnes voltou a provar que não consegue jogar mal tendo mais ou menos bola e houve depois um Leandro Barreiro fundamental nos melhores momentos dos encarnados, provando que pode ter um papel importante nesta nova versão de Benfica em construção a partir do momento em que Lukebakio se lesionou e teve de ser operado. A isso juntou-se também a melhor versão de Trubin, que cumpriu e foi determinante na baliza encarnada.

Ficha de jogo

↓ Mostrar ↑ Esconder

Ajax-Benfica, 0-2

5.ª jornada da Liga dos Campeões

Johan Cruyff Arena, em Amesterdão (Países Baixos)

Árbitro: Sven Jablonski (Alemanha)

Ajax: Jaros; Regeer (Raul Moro, 84′), Sutalo, Baas, Wijndal (Mokio, 60′); Kenneth Taylor, Itakura, Davy Klaassen (Fitz Jim, 74′); Bounida (Gloukh, 74′), Mika Godts (Dolberg, 74′) e Weghorst

Suplentes não utilizados: Pasveer, Heerkens, Lucas Rosa, Gaaei, Alders, McConnell e Edvardsen

Treinador:  Fred Grim

Benfica: Trubin; Dedic, António Silva, Otamendi, Dahl; Enzo Barrenechea, Richard Ríos; Aursnes, Leandro Barreiro (Rodrigo Rêgo, 90+3′), Sudakov (Tomás Araújo, 81′) e Pavlidis (Manu Silva, 90+2′)

Suplentes não utilizados: Samuel Soares, Wynder, Obrador, João Veloso, João Rêgo, Prestianni, Schjelderup e Ivanovic

Treinador: José Mourinho

Golos: Dahl (6′) e Leandro Barreiro (90′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Weghorst (69′) e Dahl (74′)

O encontro começou como um reflexo das alterações que tinham sido feitas por ambos os técnicos. Do lado do Ajax, e em comparação com o que se passara no fim de semana com o Excelsior, Fred Grim procurava ter linhas mais juntas e recuadas sem posse para procurar depois a velocidade de Mika Godts e Bounida nas alas para esticar o jogo para a referência Weghorst. Da parte do Benfica, que tinha em Leandro Barreiro uma peça chave nos momentos com e sem bola de uma equipa que voltava à sua fórmula tática inicial, a ideia passava por estender a pressão a zonas mais adiantadas, forçar o erro e procurar os movimentos de rutura quando os laterais não conseguiam dar largura a uma equipa sem extremos de raiz. No “choque” de modelos, os encarnados foram sempre melhores e chegaram cedo à vantagem: Leandro Barreiro ganhou um canto num desses lances em que saiu de trás para a frente (em aparente posição irregular), Sudakov colocou a bola em Richard Ríos para um desvio travado por Jaros mas Dahl disparou um míssil para o 1-0 (6′).

O Benfica encontrava cedo uma zona de conforto para encarar de outra forma um duelo sem margem de erro, aproveitando também um jogar sobre brasas do Ajax que se adensou perante a desvantagem madrugadora num encontro que chegava na sequência de três derrotas seguidas. E era nessa altura que os encarnados iam procurando para aumentar o avanço na partida, com mais uma recuperação de bola em zona alta a permitir que Pavlidis recebesse num movimento diagonal a cair sobre o lado esquerdo antes do remate cruzado que passou perto do poste da baliza de Jaros (15′). Com menos bola mas a subir mais metros em progressão do que o adversário, o Benfica tinha o controlo absoluto do encontro mas sem chegar à jogada que pudesse dar o xeque-mate à partida, permitindo que o Ajax fosse recuperando confiança e nivelasse mais o jogo.

Esse fôlego extra ganhou outra expressão sobretudo a partir da meia hora de jogo, pouco antes de Klaassen ter um bom movimento de rutura descaído sobre a direita para o remate forte defendido por Trubin para a frente antes do corte atento de Otamendi para canto quando Weghorst se preparava para a recarga (33′). O Ajax tinha o mérito de voltar a acreditar com maior capacidade de jogar em antecipação e recuperar várias bolas ainda no meio-campo dos encarnados, o Benfica tinha o demérito de deixar de sair como fizera nos minutos iniciais da partida afundando em demasia as suas linhas e foram os neerlandeses que acabaram melhor a primeira parte, com Mika Godts a aparecer pela primeira vez num lance de fora para dentro a partir da esquerda para um remate em arco que passou ao lado mas deixou novo aviso à baliza de Trubin (45+1′).

A segunda parte começou sem alterações, a segunda parte teve uma grande mudança: ao contrário do que tinha acontecido mesmo nos melhores momentos do primeiro tempo, o Ajax ganhou qualidade no início de construção baixando Itakura para a zona dos centrais, conseguiu trabalhar em espaços curtos com variações rápidas de centros de jogo e criou duas boas oportunidades logo a abrir, com Trubin a desviar um remate de Bounida para canto em nova boa intervenção (50′) e Davy Klaassen, após uma grande assistência ao primeiro toque de Weghorst, a falhar isolado na área sem oposição com um desvio ao lado (52′). Só depois desses dois sustos regressou a melhor versão do Benfica sem bola, com outro sentido nos timings de pressão e deixando o Ajax longe do último terço mesmo entre várias imprecisões que hipotecaram a criação de aproximações ou oportunidades que permitissem chegar a um golo que fechasse em definitivo as contas.

Foi preciso esperar pelos 20 minutos finais para conhecer uma expressão ofensiva dos encarnados que não viesse de remates de meia distância (Enzo Barrenechea e Pavlidis tentaram mas muito ao lado), com Sudakov a aproveitar uma recuperação no corredor central para conduzir uma transição de 3×2 com um passe que saiu ligeiramente longo para Aursnes na direita mas que ainda teve continuidade num remate cruzado de Dedic travado por Jaros para canto (72′). Fred Grim apostava tudo com as entradas de Dolberg e Gloukh, que ainda voltou a colocar Trubin à prova num remate com pouco ângulo desviado para canto (77′), Mourinho lançou Tomás Araújo no lugar de Sudakov para montar uma linha a cinco atrás mas desta vez com António Silva à direita e não à esquerda e foi precisamente do central acabado de entrar que nasceu o momento que fechou o jogo, com Leandro Barreiro a trabalhar antes de receber à frente uma assistência de Aursnes para rematar ao ângulo e fazer o 2-0 (90′). Havia motivos para festejar, havia mais motivos para festejar: em período de descontos, Manu Silva voltou aos relvados após quase 300 dias de ausência.