Muitos internacionais de um lado e do outro, muitos campeões mundiais e europeus de um lado e do outro, um nome a centrar todas as atenções antes de um dos grandes duelos da quinta ronda da Liga dos Campeões – ou, como destacava o El País, um teste à “catarse” de Lamine Yamal, o miúdo de 18 anos que viveu de tudo no futebol ainda antes de atingir a maioridade e entrou depois naquele patamar em que muitos questionaram se ia colocar todo o talento ao serviço do lado bom ou do lado mau da indústria. Para já, tudo apontava para que a direção fosse correta. No entanto, e antes de regressar a esse patamar, deu várias voltas que causaram receio. Ponto de viragem? A forma como o Barcelona perdeu em Madrid contra o rival Real.

Depois de um temporada demasiada longa a muitos níveis, da parte física à vertente emocional, o jogador nascido em Esplugues de Llobregat quis apenas “desligar”. Conheceu Neymar, fez uma festa de arromba para celebrar os 18 anos que mereceu muitas críticas externas pelos alegados excessos, teve a primeira relação com outra figura pública (a cantora Nicki Nicole, de quem entretanto se afastou) e mostrou em campo que não tinha desaprendido nada, com três golos e três assistências nos primeiros quatro encontros da época. De seguida, uma fase menos conseguida. Pelo ruído na sequência do segundo lugar na corrida à Bola de Ouro, pelo impacto da derrota no Santiago Bernabéu, pela lesão na zona da púbis que envolveu um afastamento entre a Real Federação e o clube. “Voltou” e, em quatro partidas, fez três golos e duas assistências.

“A chave será tirar-lhes a bola, bem como o aspeto físico. O Barça é uma grande equipa. Este ano talvez não controlem totalmente os jogos mas são campeões da Liga e vencedores da Taça. Estão a sair-se bem e têm muito talento. Não vai ser um duelo entre o Lamine e o Cucurella, vai ser entre Chelsea e Barcelona. Será uma batalha difícil mas espero que façamos um bom jogo. Contra jogadores assim nunca se sabe o que vão fazer mas conheço-o um pouco e tenho o apoio da minha equipa”, comentara o compatriota do extremo. Os olhos estavam focados num só duelo mas havia outro jovem canhoto de 18 anos “esquecido”.

“O Estêvão vai ser um jogador importante para o Chelsea. O mais importante para ele é aproveitar ao máximo, ser feliz e não pensar em ser melhor do que este ou aquele jogador, apenas pensar em si mesmo e tentar ser melhor do que ele próprio a cada dia. O Estêvão será tão importante no futuro para o Chelsea como Lamine Yamal já é para o Barcelona atualmente. é muito jovem e pode melhorar muitos aspetos, mas estamos muito felizes com ele. Para mim, é mais ou menos a mesma coisa que digo sobre Pedri: é bom para quem ama futebol assistir a jogadores como Estêvão, Lamine Yamal e Pedri. Essa é a beleza do futebol”, destacara Enzo Maresca, técnico dos campeões mundiais. E no dia do teste à tal catarse de Lamine Yamal, foi mesmo o internacional brasileiro que deixou um cartão de visita ao futebol mundial.

A partida começou a todo o gás, com Enzo Fernández a marcar num lance que acabou por ser anulado por mão de Fofana antes da assistência final (3′), Ferran Torres a desperdiçar a primeira oportunidade flagrante dos catalães (5′) e Reece James a ter um remate forte de meia distância para defesa de Joan Garcia (8′). As várias nuances táticas quase camaleónicas que o Chelsea mostrava com laterais pelo meio, médios sempre projetados na frente e uma constante exploração da profundidade deixavam o Barcelona completamente à deriva, com o golo a ser uma questão de tempo. Enzo teve outro lance invalidado por fora de jogo de Chalobah no início da jogada (24′) mas a bola lá acabou mesmo por entrar e contar mesmo, num canto rápido que teve um cruzamento rasteiro de Cucurella, um desvio de calcanhar para a baliza de Pedro Neto e um corte de Ferran Torres em cima da linha que bateu ainda em Koundé e seguiu na direção errada (27′).

Lamine Yamal, numa das raras ocasiões em que conseguiu ir ganhar espaço entre linhas aos londrinos, ainda teve um remate perigoso para defesa segura de Robert Sánchez (33′) mas aquilo que nascera torto tarde ou nunca se iria endireitar, ainda para mais depois da expulsão de Ronald Araújo por segundo amarelo quase em cima do intervalo (44′). Com menos um unidade, Hansi Flick ainda acreditou num ato de fé com a troca de Ferran Torres por Marcus Rashford na frente mas a noite era de outro artista canhoto a aparecer.

Após mais um golo anulado agora a Andrey (entrado ao intervalo para o lugar de Malo Gusto) por fora de jogo de Alejandro Garnacho no início do lance, Estêvão protagonizou o grande momento do encontro com uma jogada de génio em que passou por Pau Cubarsí, aguentou a pressão de Alejandro Baldé e disparou um míssil de pé direito sem hipóteses para o 2-0 (55′). Estava aberta a passadeira para uma goleada que parecia iminente mas que teve apenas mais um golo… que inicialmente foi anulado: Pedro Neto recebeu nas costas da defesa dos catalães, assistiu Delap para o desvio final e o português estava em posição regular, com uma festa que foi apenas adiada (73′) antes da ovação de pé de Stamford Bridge na saída de Estêvão.