Outrora próximos, Alexis Tsipras e Yanis Varoufakis trocam agora, dez anos depois, fortes acusações em praça pública. No seu livro de memórias recém-publicado, Ithaki, o ex-primeiro-ministro grego e antigo líder do partido Syriza diz que ninguém gostava de Varoufakis, acusando-o de se concentrar mais em si próprio e nas suas teorias do que nos objetivos do executivo do partido da esquerda radical, numa altura em que a Grécia tentava contrariar a política europeia de austeridade. Já Varoufakis ripostou que Tsipras foi a “maior conquista” da troika, ao capitular perante as pressões dos credores.

Tsipras, em comunicado, promoveu o livro indicando que era “a altura” para a sua “voz” ser ouvida, tendo aproveitado para contar como o economista grego foi escolhido por ele, devido ao perfil público e alta reputação. Porém, em excertos citados pelo The Guardian, o político admite agora que a escolha foi feita subestimando o “fator pessoal”, necessário para um cargo daquela importância.

“Ele era, na verdade, mais celebridade e menos economista“, atacou Tsipras, sublinhando que o economista passou “muito rapidamente” de “trunfo” a “protagonista negativo”. “Não só os nossos potenciais aliados não o suportavam, como também os seus próprios colegas”, lê-se ainda.

Varoufakis foi ministro das Finanças durante pouco mais de seis meses, entre janeiro e julho de 2015, um período marcado por intensas negociações no Eurogrupo (que reúne os ministros das Finanças da União Europeia) sobre o futuro económico da Grécia, que se aproximava da bancarrota. Para o ex-primeiro-ministro, porém, Varoufakis não via essas discussões como uma forma de “conseguir um acordo melhor para o país“.

“Eram uma experiência, uma oportunidade histórica para provar a verdade das suas teorias económicas“, escreveu o antigo líder, lembrando uma circunstância em que o ministro das Finanças lhe propusera que o governo desse “cupões” aos pensionistas e aos trabalhadores empregados que podiam ser usados para “comprar bens ou serviços”. “Quando ouvi isto, não sabia se rir ou chorar. Reagi: “Estás a falar a sério?“, relatou.

“Varoufakis provou ser inadequado para um acordo que exigia um tratamento complexo e delicado”, acusou ainda, sublinhando que o então ministro parecia “estar a gostar” de aparecer como “a cara das negociações” que aparecia na capa das revistas de todo o mundo.

O confronto entre o ministro grego e o então homólogo alemão, Wolfgang Schauble, levou a Grécia para perto do ponto de rutura com a Zona Euro. Porém, Tsipras garante que essa não era a sua intenção naquela altura, apesar de admitir que queria romper com a política dominante na União Europeia

“Eu queria um acordo honroso dentro da zona euro, mas também não escondíamos o facto de que queríamos uma mudança radical na Europa, que queríamos acabar com a imposição do absurdo económico do neoliberalismo, não só na Grécia, mas de um extremo do continente ao outro“, lê-se

As pretensões de Tsipras e do Syriza viriam a esfumar-se. Mesmo depois do pacote de resgate da troika ter sido rejeitado em referendo em julho de 2015, o seu governo viu-se obrigado a negociar novas medidas com os credores e aprovar um novo plano. Nessa altura, porém, o executivo já não tinha Varoufakis, que se demitira poucas horas depois do resultado do referendo.

Varoufakis contra-ataca e diz que Tsipris foi a “maior conquista” da Troika

As alegações no livro, que ainda não foi publicado, não ficaram sem resposta. Apesar de dizer que tem muitos livros para ler e que prefere “esperar pelo filme”, Yanis Varoufakis acusou o ex-primeiro-ministro de estar a tentar “esconder culpa com ingenuidade” e “passar carne por peixe” por ter capitulado face à troika após a vitória no referendo.

“Certa vez, perguntaram a Margaret Thatcher: ‘Qual foi a sua maior conquista?’ E ela respondeu: ‘Tony Blair, do Partido Trabalhista’. Se fizer a mesma pergunta aos defensores mais ferrenhos da troika hoje em dia, eles responderão: Alexis Tsipras“, criticou o economista, que hoje lidera o partido MeRA25, , numa entrevista à televisão estatal grega ERT.

Questionado sobre a crítica à proposta dos supostos “cupões”, Varoufakis diz que era um sistema de pagamentos “à frente do seu tempo” e que já tinha sido aplicado no Brasil. “Chamar-lhe cupões é auto-humilhante”, continuou, apontando que é “como chamar Tesla a um Fiat”.

“Menosprezá-la chamando-a de ‘cupões’ é uma das razões pelas quais não vou ler o livro. Neste momento, em Frankfurt, estão a discutir o euro digital. Esse é o sistema que eu propus. Apresentá-lo como cupões de que ele ouviu falar no final do período de seis meses só prova a qualidade do homem.”, atacou.