O preço médio por noite nos hotéis da região de Lisboa aumentou 26,7% durante a Web Summit, que se realizou na capital de 11 a 13 de novembro. É esta a conclusão da análise feita pela Nova Information Management School (Nova IMS), que comparou os preços entre a primeira e a segunda semana de novembro.

Segundo estes dados, na primeira semana do mês uma noite num hotel em Lisboa custava, em média, 119 euros. Durante o evento, o preço médio diário por quarto subiu para 151 euros, mais 32 euros. Nuno António, professor da Nova IMS e coordenador do laboratório de Analítica de Turismo e Hotelaria, explica ao Observador que este preço médio está em linha com o valor registado em 2024. Nessa altura, o valor médio diário aumentou 27,9%, para 152 euros.

A análise feita pela Nova IMS teve em conta 155 hotéis entre 548 unidades hoteleiras na região de Lisboa, o equivalente a 28% do total. A partir de dados da Host Intelligence, foram analisados essencialmente hotéis e aparthotéis. Nuno António explica que “os dados são recolhidos dos próprios sistemas de reserva dos hotéis”. “Nem todos os hotéis têm os mesmos sistemas e nem todos partilham os dados”, o que faz com que haja limitações nos números. No entanto, salienta que os dados sobre os hotéis são recolhidos “online em tempo real e, como a percentagem de ocupação é significativa e transversal aos vários tipos e várias categorias”, permite obter “resultados que possamos inferir para a população total, os 548 hotéis”.

Esta análise traça um cenário diferente das críticas feitas por Paddy Cosgrave, CEO da Web Summit. A 8 de novembro, alguns dias antes do arranque da décima edição, o empresário irlandês queixou-se sobre “alguns hotéis em Lisboa que subiram os preços em 100% em relação à semana anterior”.

Na rede social X, mencionou “certos hotéis que aumentam os preços em mais de 300%, e às vezes 500%, em comparação com as suas tarifas normais de novembro, e depois reclamam publicamente por os hóspedes estarem a recorrer ao Airbnb”. Ainda que escrevesse que “a maioria dos hotéis em Lisboa é excelente”, declarou que “há sempre alguns que ficam cegos pela ganância e ainda têm a audácia de se queixar”.

Vários utilizadores do X responderam ao fundador da Web Summit, mencionando a lei da oferta e da procura — quando a procura aumenta, o preço também sobe. Dois dias após a publicação original, Cosgrave declarou que “duplicar os preços é ok, mas que se aumentam os preços em 500% e queixam-se sobre a procura não merecem empatia”. “Estamos a perguntar aos participantes internacionais e cerca de 40% escolheram o Airbnb. Estas são as leis da oferta e da procura”, escreveu. Já durante a Web Summit, Cosgrave voltou a dizer que “é uma decisão dos hotéis, mas depois não se queixem“.

Nuno António nota que o laboratório identificou “uma ou outra exceção” em termos de preços fora do padrão. “Imagine que tenho duas habitações ou um quarto e, às vezes, por estar muito próximo do Parque das Nações, decido colocar um preço completamente diferente, porque é em cima da hora. Posso [fazê-lo], mas é uma exceção e não traduz o número de alojamentos em Lisboa e a prática geral da cidade”, realça.

O tweet do fundador da Web Summit mencionou alguns hotéis específicos, na plataforma Booking, com preços na ordem de 2 mil euros para quatro noites. “Não fomos ver aquela unidade específica”, diz o professor. “Há muito poucas exceções. Nenhuma unidade com 100, 200 quartos consegue aumentar os seus preços em 500%, concorrencialmente ficava de fora”, nota.

Numa análise mais fina, por tipologia de hotel, a Nova IMS concluiu que os hotéis de cinco estrelas foram os únicos com subida de preço em relação ao ano passado, na ordem de “1 a 2%”. “Todos os outros, na maior parte, até tiveram mais dias com descida de preço do que com subida”, acrescenta.

Na comparação com a edição passada, o preço médio diário nos hotéis recuou 0,7%, de 152 para 151 euros.

As declarações de Paddy Cosgrave sobre os hotéis em Lisboa foram criticadas por Bernardo Trindade, presidente da Associação da Hotelaria de Portugal (AHP). Em declarações à Renascença, antes do evento, o presidente da AHP comentou que “o número de interessados que vêm a este evento tem vindo a reduzir-se, porque à escala global há mais concorrência”. O presidente da AHP também lembrou que é a taxa turística que ajuda a financiar a Web Summit.

“Web Summit mitiga a queda da taxa de ocupação em Lisboa, mas está longe de vender toda a ocupação”

Em média, os hotéis passaram de uma ocupação média de 74,2% na primeira semana de novembro para 84,8% durante a semana da Web Summit. Nuno António nota que este salto de 10,6 pontos percentuais na ocupação mostra que “há um impacto da Web Summit na hotelaria em Lisboa”.

O professor realça que o mês de novembro “tem semanas sempre relativamente baixas” neste indicador. “Efetivamente a Web Summit mitiga a queda da taxa de ocupação em Lisboa, mas ainda está longe de vender toda a ocupação hoteleira, ainda há algum espaço de manobra”, detalha. Por exemplo, comparando com a edição anterior, foi até sentido um ligeiro abrandamento na taxa de ocupação. Em 2024, este indicador situava-se em 86,3%.

Por tipo de hotel, o professor detalha que é nos hotéis de três estrelas que se encontram taxas de ocupação mais elevadas, na ordem de “89, 90%, tirando o último dia do evento, em que descem substancialmente”. Neste dia, que foi quinta-feira, é para muitos participantes o de regresso a casa — é frequente ver participantes com malas de viagem no recinto. “Nos quatro estrelas a ocupação anda nos 90%, descendo para cerca de 80% na quinta-feira”, diz Nuno António. Os hotéis de cinco estrelas tiveram taxas de ocupação entre “73% e 75%”.