O Supremo tribunal espanhol confirmou esta quarta-feira a divisão do caso Koldo em dois processos judiciais: o primeiro, apenas sobre as irregularidades nos contratos de compra de máscaras e outro material de saúde pelo Estado, adjudicados entre março e maio de 2020, durante o pico da Covid-19; o segundo, focado nas adjudicações de obras públicas posteriores, já fora do contexto de emergência sanitária. Esta separação formal do grande processo que começou a ser investigado, após denúncias, em 2022, não é um mero detalhe processual — revela que a Justiça vê agora o caso como composto por dois níveis distintos de possível corrupção: o episódico e o estrutural. E ambos afetam diretamente o PSOE e quem o dirige, que é também chefe do Governo de Espanha: Pedro Sánchez.
Também esta quarta-feira, o Supremo manteve a decisão de manter em prisão preventiva José Luis Ábalos, ministro dos Transportes de Sánchez entre junho de 2018 e julho de 2021, e do seu antigo assessor, Koldo García Izaguirre, que dá nome ao caso. A razão: “Risco extremo de fuga e destruição de provas”. O Ministério Público espanhol (no seu departamento de Anticorrupção) pediu entretanto para Ábalos uma pena de 24 anos de prisão e para Koldo de 19 anos e meio, num quadro que inclui os crimes de organização criminosa, tráfico de influências, suborno e desvio de fundos públicos.
E para provar que o caso está a acelerar na Justiça e está a atingir diretamente o PSOE, no final de novembro, dia 28 mais precisamente, a Audiência Nacional espanhola determinou que o PSOE deve entregar a totalidade dos registos de pagamentos em dinheiro vivo — “pagos en metálico” — entre 2017 e 2024. Incluindo os de Sánchez. O partido tentou limitar o âmbito temporal e documental. O tribunal rejeitou. Esta exigência, juridicamente simples, é politicamente devastadora: aponta para uma investigação a mecanismos internos de fluxo financeiro não contabilizado nos socialistas (um saco azul).
Neste caso, o nome a ter em conta é sempre o de Santos Cerdán León. Entre outubro de 2021 e junho de 2025, foi ele o Secretário de Organização do PSOE — o “número três” do partido, considerado também o grande amigo e braço direito de Sánchez. A 12 de junho de 2025, demitiu-se após a entrega do relatório da UCO (Unidad Central Operativa da Guardia Civil espanhola) que o identificou como responsável por gerir — segundo o relatório — cerca de 620 mil euros em comissões ilícitas ligadas a contratos públicos. O período analisado era o de 2020-2023. Cerdán controlava nomeações internas, decisões estratégicas e coordenações territoriais.
Embora as denúncias sejam de 2022, e tenha começado aí a investigação, a fase inicial do caso é de 2020. O Ministério dos Transportes, então liderado por Ábalos, adjudicou de forma direta e com carácter de emergência contratos de compra de máscaras e material médico em pleno pico da pandemia. Empresas como a Soluciones de Gestión y Apoyo SL, que em 2019 registava atividade residual, receberam contratos de dezenas de milhões de euros. Koldo García surge logo como intermediário: faz os contactos com as empresas, facilita as adjudicações, é através dele que circula a informação privilegiada e — alegadamente — também a receção de comissões.
Quem é quem
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Unidad Central Operativa da Guardia Civil (UCO) — Unidade de investigação policial anticorrupção espanhola que investiga o caso: escutas, movimentações, emails, transferências, nomeações, contratos.
José Luis Ábalos — ex-ministro dos Transportes (e figura chave do PSOE durante os governos de Sánchez). Na investigação, aparece citado repetidamente como “intermediário”: segundo a UCO, ajudava a mover influências, nomeações e contratos que beneficiavam empresas amigas.
Koldo García Izaguirre — ex-assessor pessoal de Ábalos. Começou a trama: foi detido, é considerado pivô da rede, e segundo a acusação, terá sido ele a organizar o esquema das comissões ilícitas, recebido pagamentos e manipulado contratos de forma ilegal.
Santos Cerdán León — até 2025 foi secretário de Organização do PSOE (um dos cargos mais altos dentro do partido). A UCO aponta-o como gestor central da rede: distribuiu contratos, autorizou comissões e teria cobrado uma parte dos desvios (“mordidas”) — cerca de 620 mil euros.
Empresários e intermediários — nomeadamente a empresa Soluciones de Gestión y Apoyo SL e empresários como Víctor de Aldama — são considerados parte essencial da rede: recebiam os contratos superfaturados (amañados) e distribuíam comissões.
A partir de 2023, a UCO alargou a investigação para lá da pandemia: e foi aí que deu com outro tipo de rede de comissões e de corrupção. Em redor de obras públicas, concessões e infraestruturas. É nesta fase que entram alguns empresários, como Víctor de Aldama, redes empresariais antes periféricas, e um circuito triplo de influências: partido, ministérios e empresas. É precisamente esta teia que o segundo processo judicial agora vai tentar desvendar.
A proximidade destes protagonistas com Pedro Sánchez é clara. Ábalos foi o seu aliado político durante a reconquista da liderança do PSOE em 2017-2018. Cerdán foi seu homem de confiança interna até 2025. Mas não só não existe acusação judicial contra Sánchez, como não foram encontrados quaisquer indícios diretos em relação ao chefe do Governo. Politicamente, no entanto, a proximidade pessoal coloca-o no centro da turbulência, até porque foi eleito com a promessa de limpar, quer o partido quer o país, da corrupção e de qualquer atividade ilícita.
Já não se discute se houve ou não práticas corruptas. Discute-se agora a escala, a duração e até onde chegaram essas práticas. A investigação espanhola deixou de ouvir depoimentos e começou a rastrear fluxos financeiros, o caminho do dinheiro (follow the money). E deixou de seguir suspeitas, passando a trabalhar sobre provas documentadas.
Nas reações, o PSOE insiste na narrativa da “tolerância zero”. Mas a cronologia revela afastamentos tardios, demissões forçadas e uma resistência interna inicial a assumir a gravidade do caso. Só que neste momento, a Justiça espanhola já entrou no núcleo do aparelho partidário. E será esse núcleo — entre 2017 e 2024 — que determinará até onde vai a responsabilidade: se fica em Ábalos e Koldo ou se sobe mais um degrau.