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O candidato presidencial Henrique Gouveia e Melo reafirmou esta quinta-feira a necessidade da defesa do segredo de justiça e da presunção de inocência, sob pena do “sistema poder ficar em causa”. O militar também defendeu a criação de um “novo contrato social” para desenvolver Portugal.

Em Porto de Mós, no distrito de Leiria, à margem de uma visita à empresa Vasicol, o ex-chefe do Estado-Maior da Armada estranhou os contornos das fugas de informação na Operação Influencer.

“O que é estranho? Há uma pessoa que é escutada, quer aceder ao seu processo, não consegue aceder ao seu processo. E depois, num jornal, vêm as escutas todas. Há qualquer coisa que está errada neste reino”, declarou.

Gouveia e Melo defende a necessidade de “os atores que fazem parte do sistema” terem de “fazer verdadeiramente uma séria reflexão sobre isto”. “Nós precisamos de proteger o segredo de justiça, a presunção de inocência. E nós não podemos ser julgados em praça pública por fugas de informação. Porque é muito difícil recuperar a reputação. A reputação é das coisas mais importantes que temos de preservar”, acrescentou.

Em Porto de Mós, frisou a necessidade dos candidatos presidenciais terem “coragem” e não “fingir que as coisas não acontecem”. “Não podemos andar em conversas circulares. Isto [fugas no sistema de justiça] exige coragem para dizer: ‘isto está mal e tem que ser mudado'”, disse.

Henrique Gouveia e Melo teme que “se os próprios atores que fazem parte do sistema não mudarem”, haverá consequências.

“Se não fizermos qualquer coisa para mudar isto, essa confiança [no estado de direito] pode ficar em causa. E é isso que nós temos que alterar”.

Gouveia e Melo não quer “país a três velocidades”

Gouveia e Melo apontou o exemplo da Vasicol (uma fábrica em Porto de Mós, que emprega 600 pessoas) para mostrar a necessidade de “olhar para o interior do país”.

“Não queremos um país a três velocidades, é mau para o país. Nós temos que criar um novo conceito, um novo contrato social, que desenvolva um país como um todo, com empresas pujantes, mas empresas viradas para as pessoas”, sublinhou.

Em Porto de Mós, Gouveia e Melo encontrou muitos trabalhadores imigrantes — um terço da mão-de-obra da Vasicol.

“Também é um aspeto positivo. Falo muito em que a imigração tem que ter integração. E as pessoas que estão aqui estão totalmente integradas. Eles têm os seus salários, regularizam, com o tempo regularizam a sua situação no país, trazem as suas famílias e, com o tempo, passadas uma ou duas gerações, fazem parte completamente da nossa comunidade”, disse.

Para o ex-chefe do Estado-Maior da Armada, a imigração tem um papel decisivo na renovação da demografia. “Se não renovarmos a nossa comunidade, nós, de acordo com as estatísticas, daqui a 40 anos, 45 anos, seríamos praticamente metade dos portugueses de agora, ou seja, seis milhões de portugueses. E isso também fragiliza o país. Um país desabitado é um país mais frágil”, sustentou.

O candidato identifica Portugal como “o país das grandes cidades, o país do litoral e depois o país do interior”: “É um país a três velocidades e isso é mau para a coesão do país, é mau para o potencial económico do país, porque temos muita zona desocupada que podia gerar riqueza e não está a gerar riqueza”.

Gouveia e Melo defende ser necessário “olhar para o interior” e trabalhar para ter “um país como um todo”: “Nós estamos, grosso modo, entre os 60% e os 70% de rendimento per capita do que são os países mais desenvolvidos. Portanto, temos de puxar a nossa carruagem para a frente e não deixar ir caindo para trás. Por isso é preciso a ambição”, concluiu.

Nesta primeira ação de campanha do dia, o candidato falou ainda da possibilidade de criação, pelo Governo, da criação de uma bolsa escolar máxima para estudantes do ensino superior de agregados familiares com rendimentos abaixo do limiar da pobreza.

“O princípio é bom, haver bolsas para os mais pobres. A questão é, serão essas bolsas suficientes para fazer a diferença para uma pessoa que é realmente pobre? Com essa bolsa consegue sustentar-se e fazer o seu curso superior? Esse é que é o problema”.

Gouveia e Melo considera que o valor anunciado — 1.045 euros anuais — “é uma pequena ajuda, mas não faz a diferença”.

“Acho que é verdadeiramente insuficiente. Eu falo muito sobre o que são as medidas demagógicas, são as medidas que ficam bem nas televisões, nos telejornais, mas há uma diferença entre essas medidas e aquelas verdadeiramente que fazem a diferença”, criticou.