O projeto Concertos para Bebés vai dedicar 2026 ao tema “Colo de mundo” e estreia 12 programas distintos que vão buscar inspiração à dança com plantas, à música antiga, às festas populares ou a Trás-os-Montes.

A companhia Musicalmente, com sede em Leiria, anunciou que a programação para 2026 “é um convite a olhar para os bebés como fonte de inspiração e saber para cuidar o planeta”.

A partir do tema “Colo de mundo”, “a música encontra a natureza não apenas como metáfora, mas como território poético e ético”, avançou a produtora, em comunicado.

“Nestes Concertos para Bebés, os bebés não são apenas espetadores: são presença transformadora, os primeiros intérpretes das vibrações que atravessam músicos e famílias. É deles — e da sua atenção plena, autenticidade, epifania e espanto — que nasce a luz que procuramos seguir”.

Em 2026, além de 12 estreias em vários palcos nacionais, e “um programa exclusivamente criado para a Casa da Música, no Porto”, anunciam-se três novas propostas internacionais, que vão levar o projeto português de música para a primeira infância a Espanha (Barcelona, Bilbau, Santiago de Compostela) e Luxemburgo.

Conta-se ainda a estreia do compositor Lino Guerreiro, com uma nova obra em setembro, o regresso de Luísa Sobral em outubro e um duo inédito, formado por filhas dos intérpretes residentes, cruzando a teorba de Mariana Santos e a concertina de Natércia Lameiro.

A programação junta linguagens e práticas artísticas plurais, contando com solistas convidados da área da música experimental, como Inês Condeço e Hugo Correia, instrumentistas de formação clássica, casos de Hugo Assunção (Orquestra Sinfónica Portuguesa) e Raquel Reis (Orquestra Gulbenkian), multipercussões de Marco Fernandes, marchas dos Santos Populares e sons da água e areia, convocados por Cristina Francisco.

A paz será evocada num concerto-manifesto, criado da partilha entre famílias, artistas e comunidade. Ao longo da nova temporada promete-se ainda um marco histórico: o teste do primeiro protótipo tecnológico que permitirá que bebés criem música em tempo real através de Inteligência Artificial e realidade aumentada, no projeto Amplify.

Projeto Amplify vai testar protótipo de bebés compositores em 2026

Os primeiros protótipos do projeto que coloca bebés no papel de compositores vão ser testados em 2026 em Portugal, no âmbito de Amplify, iniciativa que junta 14 instituições internacionais, entre as quais a portuguesa Cooperativa Paulo Lameiro.

A partir da cidade de Pisa, em Itália, onde, até sexta-feira, está reunida a equipa responsável pelo desenvolvimento das diversas soluções tecnológicas do projeto, Paulo Lameiro explicou à agência Lusa os resultados do primeiro ano de trabalho de Amplify, que recorre, em tempo real, à Inteligência Artificial e realidade aumentada.

“Estamos a fechar a primeira fase, onde os princípios do projeto ganham forma prática nos primeiros protótipos — ou exemplos de protótipos — que queremos testar no próximo ano, em 2026, mas que precisamos de aferir”.

Com duração de três anos, Amplify ambiciona tornar os bebés compositores. “Isto quer dizer que os investigadores”, que integram o consórcio internacional de 14 instituições, “vão ter de desenvolver tecnologia para captar os sinais dos bebés e traduzir esses sinais para uma notação gráfica que depois é transmitida para uns óculos”, a usar pelos músicos em concertos para a primeira infância.

A investigação está em fase de testes, “não acabada ainda”. Em Itália foi já testado o processo, “mas em elementos separados”. Em 2026, anuncia-se para Portugal a primeira experiência integrada.

“Já temos uns óculos de realidade virtual, a aplicação que vamos usar já está feita no formato 0.1, mas já podemos ler partituras nos óculos. Os músicos já estiveram a fazer este exercício”, revelou o criador, em Portugal, do projeto Concertos para Bebés.

No desenvolvimento, ao longo deste ano, vários pais estiveram “envolvidos em sessões de codesign“, porque “este projeto é muito formatado por um ‘human-centered approach‘ (abordagem centrada na pessoa)” e “não somente para produzir patentes ou ‘papers‘”.

Relativamente ao ponto de partida, “há uma dimensão nova no projeto”, destacou Paulo Lameiro. Além dos bebés produzirem a música dos concertos, “as crianças maiores, com 02 e 03 anos, vão ter um papel crucial, porque todo o ‘light design‘, a iluminação do projeto, vai ser também feita com base em alguns instrumentos musicais que são sensores também, que vão estar espalhados pelo palco”.

As crianças maiores, ao manipularem e ao tocarem neles, “estão a ativar também as luzes que vão estar incorporadas não só nos figurinos dos músicos, bem como em alguns outros elementos”.

A par disso, a equipa trabalha também numa componente que “não estava totalmente prevista inicialmente”. A captação “das emoções das mães que têm os bebés ao colo”, para que “também essas emoções sejam tidas em conta na partitura” a criar.

“Ou seja”, esclareceu Paulo Lameiro, “na verdade, a partitura vai ser escrita a três mãos (ou a seis): bebés por um lado; os pais e adultos que os acompanham; e, em terceiro lugar, os artistas, porque os artistas e os músicos têm aqui um papel importante, uma vez que a notação não é convencional e eles estão a aprender a tocar uma linguagem que é muita responsabilizadora”. “Não é um músico qualquer que vai ler aquela partitura”, sublinhou.

Em todo o processo de desenvolvimento está a ter tida em conta a diversidade cultural. “As mães no Brasil, em Estocolmo ou em Leiria têm reações diferentes e é preciso afinar o software para a cultura em concreto onde está a acontecer o concerto”.

Porque, dependendo da geografia, “há concertos onde os adultos que estão muito focados, em silêncio total, em completa concentração, e há culturas onde estar envolvido e estar a ouvir com concentração não é estar com essa postura, é estar com outras dinâmicas corporais, outros movimentos”.

“É um processo muito interessante que estamos aqui a discutir, porque envolve não só tecnologia, mas tudo o que é comportamento humano em distintas culturas”, concluiu o investigador português.