Foi uma hora por cima do jogo, foi mais uma hora que voltou a falhar o clique. Apesar da vitória conseguida nos descontos na Madeira frente ao Nacional, o Benfica não encontrou uma plataforma de estabilização de resultados depois do triunfo em Amesterdão com o Ajax e ficou mais longe da liderança no Campeonato após o empate no dérbi lisboeta na antecâmara de uma nova “final” na Liga dos Campeões, na receção ao Nápoles. Principal problema? Os erros individuais que deitavam por terra o plano coletivo. Aconteceu com o Bayer Leverkusen, aconteceu com o Nacional, aconteceu agora com o Sporting. Tinha acontecido antes, não podia acontecer mais no depois. E era nessa mensagem que José Mourinho assentava o discurso para dentro e para fora, ciente de que sem travar esse momento do jogo seria difícil continuar a lutar em todas as frentes.

“Contra o Sporting fizemos um bom jogo, fomos mais fortes do que um adversário que é o bicampeão, que é uma ótima equipa. Fomos penalizado por um início de jogo mau, com um erro individual, de dois elementos, que é uma coisa que nos tem penalizado. Com o Bayer foi o nosso encontro mais conseguido, acabámos por perder com um erro individual. No Chelsea perdemos com um autogolo. Contra o Nacional começámos a perder com outro erro. A equipa sob o ponto de vista da coesão está mais forte mas quando chegas a este nível e cometes erros individuais pagas por eles”, assumira o técnico na antecâmara do reencontro com mais uma formação italiana, após a passagem de ouro por Milão onde conquistou tudo no comando do Inter.

“Não sei se será uma vantagem… Se calhar demoro menos tempo a analisar do que se fosse outra cultura. O facto de conhecer bem não significa que as dificuldades sejam menores ou que as qualidades passem a ser inferiores. É uma equipa muito forte, que ganhou dois campeonatos em pouco tempo, que joga diferente do que jogava na parte inicial da época, infelizmente para nós… Gosto muito mais da maneira que estão a jogar agora. Falar de Antonio [Conte] é falar do Nápoles. As equipas dele são completas, é impossível detetar alguma coisa que se possa dizer que são fracos. São equipas muito compactas, com consciência tática alta. O Conte é muito exigente com o mercado, arranja sempre uma maneira de criar uma equipa muito forte. Considero-o um dos treinadores mais fortes em termos de preparação da equipa”, reforçara, abrindo a porta para uma ideia que marcou também a antecâmara do encontro: as lacunas que existem no atual plantel.

“De Bruyne e Lukaku são baixas no Nápoles? Não me faças rir… Uma coisa é não teres Lukaku mas teres o Höjlund. Não me faça rir com jogadores que faltam porque não ter o De Bruyne… As minhas ausências fazem-me chorar, que não é aquilo que quero como a nossa filosofia. Vocês veem a equipa que joga, quem está no banco, esquecem-se de quem falta. Tiveram de mudar de sistema, mudaram para um que fazem do Nápoles uma equipa melhor”, atirou, antes de partir para as lacunas que identifica no atual plantel apesar dos rasgados elogios feitos quando era treinador do Fenerbahçe e defrontou as águias de Bruno Lage.

“Ao pensar em tirar o que de melhor posso tirar dos jogadores que tenho e da formação já estou a trabalhar de um modo em que estou a partir do pressuposto que não há mercado. Só para ter uma ideia, amanhã temos 23 jogadores, dez são da formação do Benfica. Desses dez, três chegam pela primeira comigo, estamos a falar de miúdos que chegaram recentemente. Tudo aquilo que aconteça e a influência que possa ter ocupa zero. Parto do pressuposto que não há mercado. Enquanto a matemática me der esperança, eu tenho esperança. Só a matemática é que me pode dar esperança. Acho que dez pontos chegariam, o que significa que o resultado do jogo de amanhã [quarta-feira] não me pode tirar as esperanças. É difícil mas continua a ser possível. Qualquer coisa que aconteça não vai acabar matematicamente…”, destacou José Mourinho.

Assim, não é só a matemática que dá esperança. José Mourinho deu um banho tático a um dos mestres do jogo, Antonio Conte, e o Benfica conseguiu a exibição coletiva mais consistente desde que o técnico regressou à Luz. Leandro Barreiro, só por ter marcado um golo de calcanhar à equipa que um dia foi de Diego Armando Maradona, dificilmente poderá esquecer esta noite na Luz mas o jogo ficou marcado por Aursnes, que, em dia de 30.º aniversário, voltou a ser um oceano do que é perceber futebol, e Richard Ríos, que apanhou o caudal certo para mostrar que ainda pode ser a grande contratação dos encarnados esta temporada.

Por meras questões táticas, como explicou José Mourinho ainda antes do jogo, Tomás Araújo entrou para o lugar de António Silva por ser mais rápido para travar a forma de jogar com Höjlund na frente e Ivanovic em vez de Pavlidis no centro do ataque para “esticar mais o jogo ofensivo” mas o encontro demorou até entrar numa fase de maior definição, com um Benfica ativo na reação à perda e na cobertura de espaços para evitar transições e um Nápoles a jogar sempre pelo seguro variando as zonas de pressão entre momentos mais altos e linhas mais recuadas. Numa das raras ocasiões em que houve essa indefinição, os encarnados foram quase perfeitos até à hora do remate: Sudakov fez um passe na profundidade fantástico para Aursnes, o norueguês que cumpria esta quarta-feira 30 anos ofereceu uma prenda de calcanhar a Ivanovic mas o avançado, isolado na área com a baliza pela frente, atirou para a defesa de Milinkovic-Savic (11′).

Não foi à primeira, também não foi à segunda. Numa altura em que os adeptos na Luz pensavam ainda como tinha sido possível desperdiçar uma oportunidade tão flagrante num jogo da Champions e contra o campeão italiano, Aursnes fez algo ainda mais difícil: Milinkovic-Savic jogou mal com os pés, o norueguês intercetou o passe ficando isolado na área descaído sobre a direita mas o remate de pé esquerdo saiu ao lado (18′). Mãos na cabeça do escandinavo, desespero no banco dos encarnados, mais um ataque de ansiedade nas bancadas… mas por pouco tempo. Quase coroando aquilo que foi a boa entrada do Benfica, com um estudo tático quase perfeito das forças e fraquezas do adversário, um cruzamento de Dahl na esquerda foi intercetado contra Ivanovic e Richard Ríos, com um toque subtil na pequena área, bateu mesmo Milinkovic-Savic (20′).

O Nápoles ainda não tinha entrado em jogo, o Benfica já ganhava e devia a si uma outra vantagem. Com uma outro “bónus”: os italianos estavam obrigados a esticar mais em campo e a avançar linhas dando metros para os encarnados explorarem a profundidade e as tais características de Ivanovic. Ainda assim, foi a formação visitante que se começou a mostrar mais no plano ofensivo, com Noa Lang a ter um cruzamento em arco ao segundo poste para o desvio de cabeça com perigo de Di Lorenzo ao lado (28′) e David Neres a desequilibrar na direita antes de cruzar para o cabeceamento de McTominay que até atrapalhou Olivera quando estava em melhor posição (38′). Foram apenas fogachos perante um Benfica maduro, a perceber bem todos os momentos do jogo e a terminar a primeira parte de novo a ameaçar o golo com Otamendi a ter um primeiro remate que bateu num defesa após canto antes de fazer a recarga muito por cima da baliza (42′).

Antonio Conte não demorou a mexer na equipa. Nos jogadores, no sistema, nas dinâmicas, lançando dois dos jogadores mais experientes do plantel, Spinazzola e Politano, em busca do empate. Ao invés, e quando estava ainda a tentar perceber as novas dinâmicas com bola do adversário, foi o Benfica que aumentou para 2-0 em mais uma grande jogada coletiva na direita que passou pelos movimentos de Aursnes e Dedic, teve um passe de Ivanovic a estender a passadeira ao movimento de entrada de Richard Ríos e terminou com um toque de calcanhar de Leandro Barreiro ao primeiro poste a bater um Milinkovic-Savic perdido (49′). Numa fase em que os italianos tentavam algo diferente, o segundo golo acabou por ditar quase o fim da história.

O encontro começava a entrar numa fase de menor qualidade, com o Benfica a controlar mas sem ter aquela frescura física para dar a estocada final numa transição como acontecera na primeira parte e o Nápoles com mais bola mas sem o mínimo de inspiração para mexer com o que quer que fosse no jogo. David Neres, numa diagonal da direita para o meio, rematou em arco para a primeira defesa de Trubin aos 71′, McTominay teve um lance em que chegou ligeiramente atrasado à bola quando os encarnados assumiam uma linha recuada a três com António Silva, mas foi o Benfica que andou mais perto do terceiro golo por Pavlidis, que entrou a todo o gás quase a mostrar que aquele lugar de 9 é seu com um remate de meia distância para boa defesa de Milinkovic-Savic (80′) e uma tentativa de chapéu também travada pelo sérvio (82′). A história estava escrita, ainda foi escrita mais história nos descontos, com Tiago Freitas e José Neto a fazerem a estreia na Luz.