Uma decisão nas meias-finais do Campeonato de hóquei em patins entre Sporting e FC Porto, dois carros de adeptos azuis e brancos que se deslocaram a Lisboa para apoiarem os dragões no jogo realizado no Pavilhão João Rocha, o ataque sem precedentes nos últimos (largos) anos que terminou agora com a acusação de sete adeptos casuais dos leões de cinco crimes de tentativa de homicídio qualificado tentado, dez crimes de ofensas à integridade física qualificadas, um crime de incêndio, cinco crimes de roubo (um qualificado e consumado e quatro na forma tentada) e três crimes de dano qualificado. Mas como aconteceu tudo?
As mensagens que foram trocadas entre um dos arguidos e a namorada são um dos pontos chave ao longo do despacho de acusação do Ministério Público a que o Observador teve acesso. Numa primeira fase, ainda antes do ataque na Alameda das Linhas de Torres, no Lumiar, um dos envolvidos explicou à companheira o que estaria prestes a acontecer: “Estamos à espera dos portistas para lhes darmos nos cornos”. Mais tarde, já depois do ataque que apenas terminou quando alguém aparentou ver a chegada de um elemento policial, um áudio resumiu o que se passara: “Pegámos fogo a dois carros deles, ya. Ainda levaram com bué de pedras na cabeça, bué de garrafas”. “A maior parte estávamos tapados, incluindo eu, amor”, acrescentou.
Foi nessa altura que a namorada respondeu, com uma das informações que estava a circular depois do ataque nesse final de tarde. “E ‘tá um sócio em estado grave, só fazem m****”, escreveu. “Eu sei kkkk“, atirou esse mesmo arguido, naquilo que o Ministério Público considerou ser um “rir” perante o que acontecera.
Na reconstituição de tudo o que aconteceu nesse dia 10 de junho, o despacho de acusação acaba por traçar todo o filme com muitos dos factos que entretanto tinham sido conhecidos. Dez adeptos do FC Porto em dois carros que tinham chegado por volta das 14h30 a Lisboa para o clássico decisivo nas meias da Liga de hóquei em patins, que teria início às 15h, e que deixaram as viaturas na zona do Lumiar a cerca de dez minutos a pé do Pavilhão João Rocha, ficaram na zona dos adeptos visitantes já depois do final da partida que acabou com triunfo dos dragões nas grandes penalidades, saíram do recinto apenas às 18h07 com o encontro a terminar entre as 17h30 e as 17h45 e foram depois acompanhados por elementos da PSP até às suas viaturas.
Foi a partir desse momento que começou o filme de terror. As duas viaturas decidiram seguir pela direita seguindo a Alameda das Linhas de Torres, na direção contrária ao Pavilhão João Rocha para evitarem cruzamentos com adeptos do Sporting, mas acabaram por ser intercetados mais à frente no Lumiar, na zona do cruzamento com a Estrada da Torre. Apercebendo-se da presença de cerca de 20 elementos dos casuais pertencentes ao grupo Sporting Youth (mais de 20 minutos depois da primeira mensagem supracitada de um dos arguidos à namorada), ambos tentaram inverter a marcha e fugir. Um conseguiu, outro não.
A viatura de trás foi atingida com garrafas de cerveja, tochas e petardos, teve uma tocha acesa no interior fruto dos vidros partidos com as agressões que foi retirada (evitando com isso a propagação do incêndio) mas conseguiu sair do local, subindo o passeio e alterando a direção antes de se refugiar no interior de um prédio nas proximidades. Já a viatura da frente acabou por ficar retida e com todos os ocupantes sem capacidade de saírem perante os ataques de cerca de 20 pessoas que começaram depois de o sinal ter ficado vermelho.
Uma das várias pedras arremessadas ao veículo apanhou a cabeça do condutor, que ficou desorientado e deixou que batesse num outro carro que estava à frente. ““Filhos da p***” Sporting! Sporting! Ides morrer, filhos da p***! Vão morrer”, “Aqui é Sporting Youth, ides morrer filhos da p***” e “Sporting Youth Hooligans, vão Morrer” foram algumas das frases ouvidas antes e durante o ataque, com bastões extensíveis e pedras antes de serem lançados para o interior da bagageira artefactos pirotécnicos que iniciaram vários focos de incêndio na viatura.
O ataque continuou, uma das pedras atingiu mesmo outra viatura estacionada, as chamadas iam-se propagando no carro e só mesmo quando um dos agressores gritou “Olha a bófia, fujam!” foi possível as cinco vítimas saírem da viatura, que acabaria por ficar totalmente carbonizada. Apesar das várias tentativas de furto, os agressores conseguiram levar apenas uma mochila do interior do carro.
Prisão preventiva para adeptos do Sporting que atacaram carro com apoiantes do FC Porto
O adepto portista que conduzia essa viatura que não conseguiu fugir foi o ferido mais grave do ataque, com “laceração do couro cabeludo, ferida no lábio, ferida incisa na região temporal esquerda, traumatismo crânio-encefálico e queimaduras graves (de segundo grau) nas mãos e no membro inferior direito”. Entre as outras vítimas, houve mais uma laceração do couro cabeludo, várias queimaduras de primeiro e segundo grau e cortes num braço, sendo que dois desse adeptos tiveram de ser conduzidos ao hospital.
O Ministério Público acusa sete adeptos desse grupo do Sporting de “atuarem em grupo no âmbito de um plano a que aderiram e por todos traçado, que visou atear fogo às viaturas em que seguiam os elementos do clube rival, com os ocupantes no seu interior, não lhes permitindo que saíssem, desferir pancadas e bastonadas, apedrejar as vítimas e carros e apropriarem-se de objetos de valor que os mesmos tivessem na sua posse”. Além da clara superioridade numérica, a acusação alega também que “os arguidos evidenciaram frieza de ânimo não se importando com as consequências, que poderiam ter sido fatais para os cinco elementos que se encontravam no interior da viatura, apenas cessando no momento em que se aperceberam da aproximação da polícia”. É isso que justifica todos os crimes pelos quais estão acusados.
De recordar que, entre os sete adeptos, três foram detidos logo no próprio dia 10 de junho (um deles já reincidente neste tipo de ataques, tendo sido antes condenado por um crime de homicídio qualificado na forma tentada e por um crime de roubo), pouco depois dos ataques, outros três a 23 de setembro depois da investigação e mais um a 24 de outubro. Houve também mais suspeitos da prática dos atos que não foram até este momento identificados pela investigação. Todos os detidos ficaram em prisão preventiva após o primeiro interrogatório judicial, sendo que dois passaram a prisão domiciliária no mês passado.