O remate certeiro de Gonçalo Alves encerrou um jogo empolgante de hóquei em patins entre FC Porto e Sporting, que teve sucessivas cambalhotas no marcador. Mas o que se passou na passada terça-feira, dia 10, fora do Pavilhão João Rocha em Alvalade, logo a seguir, acabaria por abafar a euforia das dezenas de adeptos dos dragões que festejaram a passagem à final do campeonato.
A situação envolveu agressões, tochas e uma série de outros engenhos pirotécnicos, cerca de duas dezenas de adeptos do Sporting e um “ataque bárbaro” ao carro em que seguiam cinco adeptos do FC Porto. Resultado: quatro feridos — dois transportados para o hospital — e um carro totalmente destruído pelas chamas. O Observador reconstitui os momentos da tarde de terça-feira, em Lisboa.
Veja a reconstituição em vídeo do ataque ao carro dos adeptos do FC Porto
15h-17h25. Um jogo intenso com momento de crispação entre adeptos
A aproveitar o feriado do Dia de Portugal, centenas de pessoas compuseram as bancadas do Pavilhão João Rocha para o derradeiro encontro da semifinal do campeonato português de hóquei em patins, com hora de início marcada para as 15h.
Depois de quatro embates com duas vitórias para cada equipa, Sporting e FC Porto encontravam-se em casa dos leões para decidir a passagem à final de dia 14 de junho, na qual já marca presença o Óquei Clube de Barcelos.
Num reflexo daquilo que foi toda a eliminatória, a surpresa no resultado manteve-se até ao final e obrigou as equipas a passar pelos penáltis, depois de um prolongamento igualmente equilibrado, para decidir o vencedor do encontro. Aí, a mestria de Gonçalo Alves ultrapassou um Ângelo Girão em despedida, que atirou o stick pelo ar assim que se apercebeu de que colocava um ponto final na carreira com uma derrota frente ao rival.
Os festejos dos azuis e brancos no ringue foram interrompidos pelo discurso de despedida do guarda-redes do Sporting, que agradeceu ao clube e pediu “mais respeito” às dezenas de adeptos portistas que o apupavam nas bancadas — num dos momentos mais crispados das habituais altercações verbais durante este tipo de jogos.
“Infelizmente, em resposta (super desajustada, vergonhosa e muito pior) ao comportamento de cerca de 20 portistas, houve um ataque que podia ter tido consequências muito mais graves”, escreveu um adepto do Sporting nas redes sociais, recordando os insultos a Girão durante o discurso como uma possível explicação para o ataque.
18h30. Adeptos portistas preparam-se para deixar Lisboa após vitória
Terminado o encontro que durou mais de duas horas e meia, os cinco adeptos do FC Porto que tinham feito a viagem para Lisboa começaram o caminho de regresso a casa cerca das 18h30. Mas a apenas cinco minutos do Pavilhão João Rocha, na Alameda das Linhas de Torres e pouco antes da intersecção com a Estrada da Torre, o Ford escuro foi atacado.
18h35. Carro alvo de emboscada. “Alguém chame a polícia!”
Foi no momento em que pararam num semáforo que os cinco adeptos portistas foram atacados. Um portal especializado em claques fala em 30 sportinguistas, as autoridades admitem dezenas de envolvidos. As imagens que circulam nas redes sociais mostram pelo menos 15 pessoas a lançarem-se contra o carro dos adeptos portistas, a partir vidros, a agredir os ocupantes e a lançar material inflamável para o interior. Num ápice, o carro fica envolto numa nuvem de fumo.
A poucas dezenas de metros dali, algumas pessoas assistem ao desenrolar do ataque. “Oh meu Deus, olha-me isto. Oh meu Deus! Jesus Cristo! Ai, Meu Deus! Alguém chame a polícia”, brada uma mulher que assiste à violência que toma conta de uma alameda da cidade, menos movimentada àquela hora por ser feriado nacional.
Em segundo plano de um vídeo gravado a partir da traseira de um carro, vê-se algum movimento na estrada: passam vários carros junto ao Ford alvo do ataque e, pouco depois, também um autocarro. Junto a uma das paragens perto do local, várias pessoas assistem à emboscada. No meio do caos, os apelos da mulher que grava o vídeo sobem de tom: “O carro está a pegar fogo, saiam daí”, grita.
De outro plano, é possível observar outro carro que circulava no mesmo sentido, em frente ao Ford onde seguiam os portistas, mas que não foi visado pelos agressores. Apesar de o FC Porto se referir às “viaturas”, no plural, que seguiam para a Invicta e que foram “apedrejadas e alvo do arremesso de artefactos pirotécnicos”, a PJ explica ao Observador que não tem conhecimento de mais carros atingidos.
Quando os cinco adeptos saíam do carro, já se viam as primeiras labaredas na parte traseira do Ford. Numa questão de minutos, o carro seria totalmente consumido pelas chamas, como mostram imagens captadas no local e difundidas pelo jornal Record.
“Deparei-me com uma situação dantesca de um carro incendiado e as labaredas chegavam à altura das árvores. É uma situação muito grave”, relatou o passageiro de um autocarro à SIC Notícias. O Jornal de Notícias avançou esta quarta-feira que uma das vítimas foi atingida com uma pedra na cabeça e sofreu um traumatismo craniano.
Prontamente, os Sapadores de Lisboa, o INEM e a PSP dirigiram-se ao local, onde foram assistidos os adeptos — dois deles foram transportados para o Hospital Santa Maria, com ferimentos graves provocados pelas queimaduras. Em Nova Iorque, onde os dragões vão jogar o Mundial de Clubes, André Villas-Boas, presidente do FC Porto, revelou mais tarde que “todos os adeptos já estão de regresso a casa”, no Porto.
Quase em simultâneo com o momento do crime, começaram a surgir imagens do ataque inicialmente noticiado pelo Correio da Manhã, que viriam a ser fulcrais para a polícia identificar rapidamente três adeptos que já eram conhecidos das autoridades.
▲ Imagens captadas do crime permitiram identificar suspeitos
20h00. Começa jogo de futsal do Sporting. Suspeitos identificados no Pavilhão João Rocha
Assim que tomou conhecimento da natureza do ataque, a PSP percebeu que a investigação ao ataque desta terça-feira em Lisboa teria de passar para alçada da Polícia Judiciária. No entanto, a colaboração entre as duas entidades foi fulcral para chegar à identidade de alguns dos suspeitos.
Com imagens onde são percetíveis os sportinguistas a atacar os adeptos do Porto a circular profusamente nas redes sociais, a polícia viu facilitada a missão de identificar os agressores. Apesar da gravidade do ataque, e depois de terem deixado feridos quatro adeptos que seguiam no Ford, a verdade é que estes casuals do Sporting não abandonaram os espaços que ajudam a compor a geografia desta tentativa de homicídio.
Casuals
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Os casuals são um movimento em crescimento de adeptos que faz do secretismo a sua maior arma: nunca andam identificados com cores ou equipamentos dos clubes a que pertencem, tal como aconteceu no ataque desta terça-feira aos portistas. Apesar de não estarem obrigados a usar a violência, muitos seguem esse caminho.
Em trabalho de “monitorização” das pessoas presentes num novo encontro no Pavilhão João Rocha, a PSP identificou três “adeptos com características compatíveis com as dos autores” do ataque, que estavam a assistir ao Sporting-Leões Porto Salvo em futsal.
Se este jogo — realizado no mesmo local, horas depois da partida de hóquei — foi de melhor memória para a equipa da casa, o mesmo não se pode dizer relativamente aos três jovens sinalizados: foram detidos e transportados diretamente do pavilhão para a esquadra, pelos polícias, antes de serem entregues à PJ.
21h-22h11. FC Porto e Sporting reagem ao ataque
A primeira reação, naturalmente, surgiu por parte do FC Porto, que repudiou “veementemente” estes “gravíssimos acontecimentos” e admitiu que já estava “em contacto com as vítimas deste ataque bárbaro”, a quem prometeu “todo o apoio no regresso a casa, bem como na assessoria jurídica necessária às participações cíveis e criminais adequadas”.
“O clube também já contactou a Autoridade para a Prevenção e Combate à Violência no Desporto (APCVD) e a Federação de Patinagem de Portugal (FPP) e irá até às últimas consequências para garantir que este caso não passa sem uma punição severa e exemplar para os criminosos nele envolvidos. (…) Apenas por mero acaso este atentado cobarde não causou vítimas mortais”, lia-se ainda no comunicado emitido às 21h03 de terça-feira pelos dragões.
Na primeira reação, também a direção do clube de Alvalade condenou “de forma veemente os atos de violência” e deixou claro que não se revia “nestes comportamentos, que atentam contra os valores do clube e desrespeitam o espírito do desporto”.
“Quem escolhe a violência como forma de expressão não representa o Sporting. A paixão pelo clube nunca poderá ser usada como escudo para a violência”, remataram, demonstrando total colaboração com as autoridades, no sentido de apurar responsabilidades e identificar os responsáveis.
Madrugada de quarta-feira. Adeptos sportinguistas levados para a PJ
Na sede do órgão de investigação criminal, em Lisboa, desenvolveu-se, durante a madrugada de quarta-feira, a formalização da detenção destes sportinguistas, com idades entre os 22 e os 26 anos.
Em comunicado, a PJ explicou que os jovens estão “indiciados pela prática de cinco crimes de homicídio qualificado na forma tentada, ofensas à integridade física qualificada, um crime de incêndio, de roubo e detenção e uso de armas proibidas”.
Estes detidos, segundo o Jornal de Notícias, eram todos conhecidos das autoridades: um deles tinha acabado de cumprir parte de uma pena de menos de seis anos de prisão por tentativa de homicídio (ocorrida em Lisboa, em 2018); outro teve uma medida cautelar de interdição de entrada em recintos desportivos por ter utilizado engenhos pirotécnicos durante um Benfica-Sporting; e o terceiro também tinha registos de episódios de violência em contexto desportivo. Todos, acreditam as autoridades, pertencem aos casuals do clube de Alvalade.
A PJ não descarta que ainda venham a ser detidas mais pessoas envolvidas no ataque aos adeptos do FC Porto e lembra que nos vídeos são vistos dezenas de adeptos, ainda que nem todos tenham tido a mesma intervenção nas agressões. “Há um grupo que estava mais atrás e não teve intervenção direta, mas faziam parte da dinâmica de atuação do grupo e também poderão vir a ser indiciados por algum crime”, explica ao Observador fonte ligada à investigação, que se centra também em tentar apurar o motivo da agressão que pareceu direcionada aos cinco portistas.
Estes detidos serão presentes a primeiro interrogatório judicial para aplicação das medidas de coação.
Manhã de quarta-feira. Frederico Varandas denuncia “ataque bárbaro”
Numa reação ao ataque, o presidente do Sporting falou num “ataque criminoso e bárbaro” e em atos que “mancham o nome do Sporting”. “Não é uma batalha que deve ser travada pelos clubes. Precisamos da ajuda do Governo para travar este fenómeno”, disse Frederico Varandas aos jornalistas na manhã de quarta-feira, quando abordava o futuro de Gyokeres.
Tarde de quarta-feira. Villas-Boas agradece ao Governo
Esta quarta-feira, já em Nova Iorque, o presidente do FC Porto elogiou o trabalho do Governo, na pessoa de Margarida Balseiro Lopes, ministra com a tutela do Desporto, e de Pedro Dias, secretário de Estado do Desporto; bem como a PSP e a PJ, que diz terem trabalhado “afincadamente para rapidamente encontrar os suspeitos”, com “diligências muito rápidas”.
“Desejamos que estes [suspeitos e detidos] paguem forte pelos crimes que cometeram. São imagens violentas que entraram em muitas casas, por isso não nos chegam apenas os comunicados. Precisamos do apoio do Governo e dos órgãos de comunicação social para levar uma nova educação ao desporto e expulsar este tipo de comportamentos da sociedade”, continuou André Villas-Boas, exigindo um combate “não só com palavras, mas com atos”.
O presidente portista revelou ainda que todos os adeptos atacados já estavam em casa, no Porto, e que o clube ia apoiar as vítimas e suas famílias.
Com três casuals detidos, a PJ não baixa os braços para tentar identificar, e possivelmente deter, mais adeptos envolvidos nesta tentativa de homicídio que relegou para segundo plano o Sporting-Porto em hóquei em patins, que terminou empatado a 4 golos e foi decidido, a favor dos portistas, nos penáltis.