Eva Schloss-Geiringer, sobrevivente do Holocausto, enteada do pai de Anne Frank, morreu aos 96 anos no sábado, informou a fundação Anne Frank Trust UK.
Em comunicado, a fundação diz que a família recebeu a notícia com “grande tristeza” e recordou o percurso de Eva, destacando o seu trabalho “pela memória, compreensão e paz.”
A coroa britânica também reagiu. O Rei Carlos, que dançou com a sobrevivente num centro comunitário judaico no norte de Londres em 2022, e a rainha Camila condenaram os horrores que Eva viveu e sublinharam “a bondade, a coragem, a compreensão e a resiliência” que promoveu.
A message from The King following the death of Auschwitz survivor, Eva Schloss.
Eva was Anne Frank’s step-sister, and co-Founder and Honorary President of the @AnneFrankTrust, of which The Queen is Patron. The Trust works to empower young people to challenge prejudice. pic.twitter.com/8HEC8lrtYp
— The Royal Family (@RoyalFamily) January 4, 2026
“Sentimo-nos privilegiados e orgulhosos por a termos conhecido e admirávamo-la profundamente. Que a sua memória seja uma bênção para todos nós”, escreveu o Rei numa nota divulgada na rede social X.
Nascida nem Viena em 1929, Eva fugiu em 1938 com a família, quando Hitler anexou a Áustria. “Após algumas andanças, foi viver com os pais e o irmão para a praça Merwedeplein, em Amesterdão, em fevereiro de 1940. Foi aí que Eva conheceu Anne Frank, também adolescente. Com outras crianças judias e não judias do bairro, brincavam na praça”, pode ler-se na página oficial na internet dedicada a Anne Frank.
Com o agravamento da perseguição nazi nos Países Baixos durante a II Guerra Mundial, em 1942 os Geiringer tiveram de se esconder, tal como a família de Anne Frank, a adolescente judia alemã que se tornou conhecida pelo diário publicado postumamente. “A convocação do irmão de Eva, Heinz, ‘para trabalhar na Alemanha’ foi o motivo imediato para essa decisão”, lê-se na mesma página.
Depois de dois anos na clandestinidade, a família foi descoberta “devido à traição de uma enfermeira holandesa que colaborava com os nazis”. No seu 15º aniversário, a 11 de maio de 1944, Eva foi deportada, juntamente com a família, para o campo de concentração de Auschwitz. Contrariamente a Eva e à mãe, “o pai e o irmão não sobreviveram às atrocidades nazis”, continua o relato no site de Anne Frank.
Após a libertação a 27 de janeiro de 1945 pelo exército soviético, voltaram a Amesterdão numa longa viagem onde encontraram Otto Frank, o pai de Anne Frank, também ele um sobrevivente de Auschwitz. Otto teve um papel importante na vida de Eva. Foi ele quem a incentivou a interessar-se por fotografia e com a câmara Leica daquele que seria mais tarde o seu padrasto, Eva seguiu para Londres para estudar. Em 1953 Otto casou com Elfried, a mãe de Eva.
No Reino Unido, Eva casou com Zvi Schloss e teve três filhas, tornando-se fotógrafa profissional. Com nacionalidade britânica, esteve 40 anos em silêncio sobre o que passara em Auschwitz. Mas em 1988, uma exposição dedicada a Anne Frank em Londres, levou-a a mudar de ideias.
“Estava longe de me envolver em política, mas percebi que o mundo ainda não tinha aprendido sobre os acontecimentos entre 1939 e 1945, que continuava a haver guerras e que persistia a perseguição, o racismo e a intolerância. Então decidi partilhar a minha experiência”, contou Eva Schloss, citada na página de Anne Frank.
A fotógrafa passou então a contar a sua história, através de conferências e da publicação de livros como a Rapariga de Auschwitz ou Depois de Auschwitz. Em 1990, Eva Schloss tornou-se cofundadora e presidente honorária da Fundação Anne Frank, promovendo o combate ao antissemitismo e ajudando milhares de jovens com programas escolares.
Texto editado por Dulce Neto