Ao longo dos 14 meses que passou em Old Trafford, Ruben Amorim foi quase sempre refém de três números: 3x4x3. Refém ou orgulhoso dono, consoante as interpretações ou as opiniões. Certo é que o sistema tático que criou no Casa Pia, implementou no Sp. Braga e no Sporting e levou para Inglaterra trouxe-lhe quase sempre mais dissabores do que alegrias. Mas não foi pelo 3x4x3 que o treinador português foi despedido.
Com a notícia desta segunda-feira, Ruben Amorim deixa o Manchester United pouco mais de um ano depois de ter chegado à Premier League. Sem ter tido a capacidade de dar completamente a volta ao lugar estranho e sombrio em que o clube se encontra há décadas, somou registos negativos e desilusões — ainda assim, também chegou a uma final europeia e deixou a equipa num lugar que permite ter o apuramento para as competições europeias da próxima temporada como objetivo.
???????? Rúben Amorim já não é o treinador do Man. United – os seus números no clube:
63 jogos
24 vitórias (38%)
18 empates (29%)
21 derrotas (33%)
103 golos marcados
95 golos sofridos
Entre os treinadores com 50 + jogos pelo clube, é o 4.º pior em % de vitórias, o pior desde 1972/73… pic.twitter.com/ArEtbw5efW— Playmaker (@playmaker_PT) January 5, 2026
Ao todo, ao longo dos tais 14 meses, Ruben Amorim somou 24 vitórias, 18 empates e 21 derrotas em 63 jogos disputados. Na verdade, com apenas 38% de vitórias, é o quarto pior treinador com mais de 50 jogos pelo Manchester United — e o pior desde 1972/73. Sofreu 103 golos e marcou 95, o que significa que só não concedeu em nove partidas, numa percentagem assustadora de 14%.
Numa temporada onde foi escolhido para substituir o desgastado Erik ten Hag e ainda tentar salvar o que pudesse, ficou no 15.º lugar da Premier League e apenas três posições acima da zona de despromoção, ainda que com uma folga de 17 pontos. A tábua de salvação foi sendo a Liga Europa, onde afastou Real Sociedad, Lyon e Athl. Bilbao na fase a eliminar e protagonizou a eliminatória mais espetacular da época nos quartos de final contra os franceses. Na final, porém, um golo de Brennan Johnson foi o suficiente para carimbar a vitória do Tottenham e esvaziar por completo o ano do Manchester United.
Depois de todas as cambalhotas, o verão pareceu trazer alguma clareza — até no plantel, onde parecia claramente que os red devils queriam limpar a casa à medida de Ruben Amorim. Alejandro Garnacho e Marcus Rashford saíram, dois jogadores com quem o treinador português chocou de frente e de forma bastante pública, e até André Onana e Rasmus Højlund, que também não enchiam as medidas a Amorim, rumaram a outras paragens.
Investiram-se cerca de 250 milhões de euros em reforços, entre Matheus Cunha, Benjamin Sesko, Senne Lammens e Bryan Mbeumo, mas o milagre continuou a tardar. A irregularidade de resultados e exibições foi sempre o principal estado de espírito do Manchester United de Ruben Amorim, que tanto venceu três jogos seguidos pela primeira e única vez com o treinador português entre outubro e novembro do ano passado como foi eliminado pelo modesto Grimsby Town, da quarta divisão, na Taça da Liga.
Atualmente, se é certo que os red devils só perderam uma vez nos últimos oito jogos, também é certo que só ganharam em duas ocasiões, empatando as restantes partidas. Ruben Amorim deixa a equipa no sexto lugar da Premier League com os mesmos pontos que o Chelsea e a três do Liverpool, ou seja, a três da zona de apuramento para as competições europeias — bem longe do 15.º lugar em que estava na mesma altura da temporada passada. À margem disso, Ruben Amorim também deixa a equipa numa altura em que as soluções são curtas e poucas, não só face à ausência de Bryan Mbeumo, Amad Diallo e Mazraoui, que estão na CAN, como também às lesões de Bruno Fernandes, Mason Mount, Harry Maguire, De Ligt e Kobbie Mainoo.
Incluindo interinos, o treinador português é agora o 10.º a ser despedido pelo Manchester United no espaço de 13 anos e desde a saída de Alex Ferguson em 2013, numa lista que começa com o suposto herdeiro David Moyes. De todos, só três conquistaram troféus — Moyes, José Mourinho e Erik ten Hag –, enquanto que Ole Gunnar Solskjaer é o técnico com mais jogos pelos red devils desde o histórico escocês.
Desde que Sir Alex Ferguson deixou o clube – em 2012/13, 10 treinadores já passaram pelo Man. United (incluindo interinos) – e só 3 conquistaram algum troféu:
David Moyes (1????)
Giggs
van Gaal (1???? )
José Mourinho (3????)
Solskjaer – treinador com + jogos depois da saída de… pic.twitter.com/JgCe4eYeir— Playmaker (@playmaker_PT) January 5, 2026
De forma natural, as reações ao despedimento de Ruben Amorim foram surgindo ao longo desta segunda-feira e um dos primeiros a comentar o assunto foi Rio Ferdinand, antigo central do Manchester United. “Não antecipei isto, que Ruben Amorim ia ser despedido, quando acordei esta manhã. Não estava entre os quatro ou cinco treinadores que eu pensaria que seriam despedidos”, começou por dizer o ex-internacional inglês no próprio canal de YouTube.
“Estou surpreendido, mas quando se olha para o registo dele, preto no branco, não estou surpreendido. Penso que foi definitivo e o motivo para ter sido tão incisivo à noite. Dois treinadores falaram contra a hierarquia e foram despedidos imediatamente. Mas o registo dele é o pior entre os treinadores do United desde Alex Ferguson”, acrescentou, recordando a inflamada conferência de imprensa que o treinador português deu ainda no domingo e depois do empate contra o Leeds.
Por fim, Rio Ferdinand indicou que até a linguagem corporal de Amorim antecipava que este seria o desfecho. “Vi as duas últimas conferências de imprensa dele e pensei que algo não estava bem. Uma das melhores qualidades deste tipo e das coisas de que mais se gosta nele é a sua capacidade de ser bastante enérgico e otimista nas conferências de imprensa. Nas últimas duas parecia depressivo”, terminou o inglês, que também nas redes sociais defendeu que o substituto deveria ser Roberto De Zerbi, Xavi ou Thomas Tuchel.
19 – During Rúben Amorim's time in the Premier League, the only manager to lose more games than he did (19) was Ange Postecoglou (21). Finalists. pic.twitter.com/wzFiw2xvz2
— OptaJoe (@OptaJoe) January 5, 2026
Ainda este domingo e na sequência da tal conferência de imprensa, o treinador português já tinha sido muito criticado pelas habituais vozes, com Gary Neville a defender que este tinha “iniciado um incêndio”, Wayne Rooney a indicar que tem “pena” de Ruben Amorim, mas que este “não é Guardiola ou Klopp” e Jamie Carragher a revelar-se o mais duro de todos.
“Acho que não está numa posição em que possa questionar as pessoas que o escolheram. Porque não é bom o suficiente. Não é bom o suficiente para ser treinador do Manchester United. Neste momento, mal é competente o suficiente para ser um treinador de Premier League”, vincou o antigo jogador do Liverpool.