Ano de 2025 ou ano de 2026, para José Mourinho, era a mesma coisa. Já não festeja propriamente esse dia 31 de dezembro, não olha para o réveillon como um happening, não liga nenhuma a tradições como passas ou roupa interior especial. A isso, e na antecâmara da receção ao Estoril na Luz, acrescentou mais coisas para lançar janeiro. “A transição do calendário não me diz nada. Sobre o Campeonato, agarro-me à matemática porque ainda estão muitos pontos em disputa. Agarro-me ao facto de sermos a única equipa que ainda não perdeu em competições portuguesas. Não somos uma equipa do outro mundo mas somos uma equipa difícil de bater, com forças e debilidades. Não podemos esquecer que o teu sucesso também depende dos outros. O FC Porto está a fazer uma primeira volta extraordinária e que não dá oportunidade mesmo a quem está a fazer bem…”, apontou. Se as contas continuam, há algo a que não se pode agarrar.

A ditadura de Zalazar contra a equipa que ficou sem governo (a crónica do Benfica-Sp. Braga)

Começando pelos vencedores, o Sp. Braga “vingou” o empate sofrido na Pedreira para a Primeira Liga depois da vantagem (e completo domínio) ao intervalo e alcançou a sexta presença na final da Taça da Liga – Allianz Cup, a primeira na história frente ao rival minhoto V. Guimarães. Mais: nas últimas dez temporadas, tirando decisões de Supertaça, os bracarenses conseguiram a sétima final, ultrapassando também o FC Porto no número de presenças na decisão da Taça da Liga (6-5). A par de todos esses dados, sobra ainda uma outra curiosidade: o conjunto orientado por Carlos Vicens passou a ser a única equipa ainda presente em todas as provas, apesar de ocupar apenas a quinta posição no Campeonato pelo mau início de campanha.

Já em relação ao Benfica, a quinta derrota da época depois do tenebroso arranque a perder na Champions com quatro desaires consecutivos acabou por ser também a primeira em termos nacionais, suficiente para hipotecar a conquista de mais um troféu depois do arranque a ganhar a Supertaça ainda com Bruno Lage naquela que era também a estreia de José Mourinho na competição criada em 2007. No final, e tendo como próximo encontro oficial uma deslocação ao Dragão para defrontar o FC Porto nos quartos da Taça de Portugal, o técnico não poupou nas palavras nem na flash interview nem na conferência, sempre com uma ideia muito presente: mais do que o Sp. Braga merecer ganhar, o Benfica é que merecia perder.

“Peço desculpa ao Sp. Braga e ao Carlos [Vicens] mas não consigo dizer que o Sp. Braga mereceu ganhar, tenho é que dizer que o Benfica mereceu perder. Fomos nós que fizemos uma primeira parte horrível, com exceção dos primeiros cinco minutos, em que tivemos uma oportunidade para marcar. Mas a partir do momento em que o João Pinheiro assinalou o penálti, que se viu que era fora da área, houve um clique inexplicável de negatividade, de nervosismo, de qualidade horrível em posse de bola, com perdas de bola incríveis, com sucessivos contra-ataques, com o Zalazar a explorar bem a profundidade do nosso lado direito, com um segundo golo absolutamente inaceitável – e não da parte do Otamendi, que já tinha um cartão e não podia terminar a ação… Com tantos erros técnicos, foi uma primeira parte horrível a todos os níveis. É inaceitável numa meia-final de uma competição, inaceitável nem que fosse um jogo de pré-época com os nossos vizinhos no Seixal, se fosse o Amora…”, começou por dizer em declarações à SportTV.

“Na segunda parte, fomos uma equipa que começou a deixar o Sp. Braga colocado às cordas. Tínhamos falado ao intervalo que era importante apertarmos. O terceiro golo é também inexplicável. Para virar, não podemos cometer erros defensivos. Fazemos as substituições do Ivanovic e do Lopes Cabral para dar mais profundidade e presença na área e depois, numa bola parada longe da área, sofremos o terceiro golo. Foi mesmo a cereja no topo do bolo para quem merecia perder”, acrescentou sobre o filme do jogo.

“Há coisas que se podem dizer internamente e que não se podem ou não se devem dizer externamente. Normalmente, não falo no balneário depois dos jogos. Hoje falei, falei num tom crítico mas calmo, não houve portas pelo ar ou nada que se pareça. Tive uma conversa que foi um monólogo porque não os senti em condições de se abrirem e falarem, uma coisa que terão que fazer. Mas houve desempenhos individuais inaceitáveis, rendimentos individuais muito, muito baixos e que depois se vão traduzir numa performance coletiva na primeira parte muito muito fraca”, referiu ainda na zona de entrevistas rápidas.

“Próximo jogo no Dragão para a Taça de Portugal? Vamos jogar contra a equipa mais forte em Portugal neste momento, os pontos assim o dizem. Não tenho a certeza se o João Pinheiro será assim com todos os capitães das equipas que ele arbitra. Tenho muita dúvida, parecia quase vontade de o Otamendi ser expulso. Se calhar é bom para o currículo dele expulsar um campeão do mundo… Uma coisa é um insulto, outra coisa é uma discussão. Parece-me completamente descabido”, concluiu José Mourinho à SportTV.

“Hoje, pensando que jogaríamos a final, não vamos para casa e vamos para o Seixal. Os jogadores vão dormir no Seixal, amanhã há trabalho, depois de amanhã há trabalho. Só que não há jogo sábado. Não havendo final sábado, o nosso próximo jogo é com o FC Porto, na próxima quarta-feira. Ao chegar ao Seixal, cada um vai para os seus quartos. Desejo que os jogadores durmam tão bem quanto eu, ou seja, não dormirem. É aquilo que lhes desejo. Que não durmam e pensem muito como vou pensar. E que depois comecemos a conversar, que não foi o que aconteceu. No balneário foi um monólogo e monólogo a mim não me entra, gosto de dialogar. Vamos conversar sobre as diferenças entre a primeira e a segunda parte e prepararmos da melhor forma o jogo com o FC Porto. Sem o Otamendi, sem o António Silva e muito provavelmente sem o Enzo. Mas vamos lá, a pensar que podemos ganhar o jogo”, disse na conferência.

Também Rui Costa, presidente do Benfica, reagiu no final do encontro na zona mista. “Era uma competição que queríamos ganhar e a primeira parte não justificou isso. Dormida no Seixal? Já estava programado de qualquer das maneiras, a passagem de noite no Seixal não é uma situação de castigo, é uma situação de prevenção para os próximos jogos. Lamentável é nós não estarmos aqui no sábado para disputar a final. É uma responsabilidade nossa”, confirmou o líder dos encarnados. “Jogo da Taça de Portugal no Dragão? O Benfica joga sempre o tudo ou nada. É verdade que o Campeonato é a competição mais importante do ano, mas o Benfica entra em todos as competições para ganhar e o que fizemos na primeira parte não justificava que ganhássemos a competição. É lamentável isso”, acrescentou ainda Rui Costa.