Dois mil e duzentos milhões de euros. Isso mesmo, com todos esses zeros: 2.200.000.000 euros. Mais coisa, menos coisa, foi esta a quantia que o Manchester City foi gastando para mudar em definitivo o paradigma no futebol inglês depois dos títulos de 2012 e de 2014. Chegou Pep Guardiola, um todo poderoso com toque de Midas no currículo, chegou também um reforço da capacidade de investimento com muitos milhões à mão desde 2016. A atual época, com Hugo Viana como diretor desportivo no lugar do espanhol Txiki Beguiristain, não foi exceção. No verão chegaram Gigi Donnarumma, Tijjani Reijnders, Cherki, Rayan Aït-Nouri, entre outros, agora acaba de chegar Antoine Semenyo. Podia ser apenas mais um jogador, podia ser apenas mais um investimento de 75 milhões de euros. Não é. E, uma década depois, o médio ofensivo chegou ao topo.

A história, essa, podia ser completamente diferente. Passou meio nas entrelinhas de tudo o que se escreveu sobre o Manchester United na altura do despedimento de Ruben Amorim mas algures no verão, quando a contratação de Matheus Cunha continuava a ser a única num plantel que necessitava de novas referências, o internacional ganês do Bournemouth chegou a jantar em Londres com o treinador português e com James Wilcox, diretor dos red devils. Estava animado com a hipótese de rumar a Old Trafford, ficou à espera, o seu telefone nunca tocou, com Wilcox a dizer que os cherries não abdicavam da cláusula e Amorim a ficar com Bryan Mbeumo como segundo reforço (que, contas feitas, pode ficar quase ao preço de Semenyo…). Foi por isso que, nesta janela de mercado de janeiro, a estrela do Bournemouth não quis ouvir mais nada nem ninguém. Era o City, queria o City, nada o afastava do City – e de poder trabalhar com Guardiola.

Foi assim que, esta sexta-feira, foi apresentado ao lado de Hugo Viana como reforço do Manchester City, que atravessa uma das fases menos conseguidas da temporada com três empates consecutivos na Premier que deixaram o Arsenal com seis pontos de avanço na frente (Sunderland, Chelsea e Brighton). “Tive que ser muito forte para chegar até aqui. Sinto que fiquei muito mais forte em termos emocionais e mentais. Tive a minha família, os meus amigos e a minha namorada ao meu lado, sempre a animarem-me. Tive de esforçar-me muito para superar os momentos difíceis e foi por isso que me transformei no homem que sou hoje: forte, pronto para conquistar o mundo”, destacou nas primeiras declarações como reforço do City.

Antes, a despedida do Bournemouth dificilmente poderia ter sido melhor: num encontro de novo com muitos golos, Semenyo deu a vitória aos cherries no quinto minuto de descontos. “É um jogador incrível, alguém que foi melhorando de época para época desde que chegámos. Veio de categorias inferiores, foi subindo escalões e estava preparado para fazê-lo outra vez. Se não for o melhor, é um dos melhores jogadores que já treinei, um jogador de classe mundial no futebol e como pessoa. O futebol foi justo e deu-lhe este momento que foi maravilhoso”, referiu Andoni Iraola, técnico do Bournemouth. “Foram três anos incríveis. Cheguei como um miúdo, com vontade de aprender, ambição e vontade de triunfar. Sinto que é o momento adequado para fechar este capítulo e começar outro. Não foi uma decisão fácil”, disse o jogador na despedida.

Sempre a questão da vitória e do “subir a pulso”. Percebe-se porquê. E se hoje é um dos melhores jogadores da Premier League, há dez anos estava fora do futebol depois de ter sido recusado por todos os clubes.

Quando tinha apenas 15 anos, os treinos todos de captação que foi fazendo tinham o mesmo destino: “não”. Foi assim com o Arsenal, foi assim com o Tottenham, foi assim com o Fulham, foi assim com o Milwall, foi assim com o West Ham (que nesse mesmo ano fez o mesmo a um tal de Michael Olise), foi assim também com o Crystal Palace. Esta custou-lhe mais, após oito semanas de trabalho no centro de treinos do clube, e foi por isso que desistiu mesmo do futebol, ficando parado sensivelmente um ano com essa frustração de ver por um canudo o sonho de um dia ser jogador profissional. “Quando tens 15 ou 16 anos, não sabes como lidar com a frustração disso. Tive muitas dúvidas mas essas experiências acabaram por ajudar-me a ser o jogador que sou hoje”, assumiu Antoine Semenyo numa entrevista concedida ao Football Focus.

Foi nessa fase pior que Dave Hockaday conseguiu convencer o miúdo nascido em Chelsea, com pai ganês (e também ele antigo jogador em clubes do país) e mãe francesa, a entrar no programa da academia jovem do South Gloucestershire e Stroud College. Os olheiros voltaram a ver nele um jogador com potencial e talento, entre Birmingham, Crystal Palace e Bristol City optou pela última possibilidade em 2017. Estava dado aquele primeiro passo para recuperar a pista de um dia alinhar na Premier, um passo que fez com que cada degrau para cima ou para baixo fosse utilizado como aprendizagem para chegar ao topo do futebol.

Depois de ter feito a estreia pelo Bristol City no Championship quando tinha 18 anos, Semenyo foi cedido ao Bath, da National League South, ao Newport County, da League Two, e ao mais conhecido Sunderland, que em 2020/21 estava na League One. Essa perseverança fez com que voltassem em grande ao Bristol City, o clube que assumiu como “seu” a partir do momento em que apostou nele após o momento mais baixo do trajeto, com três temporadas no Championship que o consolidaram como jogador e abriram a porta para a estreia internacional pelo Gana, seleção que optou representar. Em 2023, quando levava oito golos em 27 encontros pelo Bristol City, o Bournemouth não teve dúvidas em pagar 11,5 milhões pelo seu passe.

Custou mas foi. A porta da Premier League estava finalmente aberta para Semenyo mostrar que ainda ia no início do caminho: 36 jogos com oito golos e duas assistências em 2023/24, 42 jogos com 13 golos e seis assistências em 2024/25, 21 jogos com dez golos e três assistências em 2025/26 (fazendo apenas meia época, entenda-se). A capacidade que tem para fazer de todos os lançamento laterais uma espécie de cruzamento com as mãos para a área tornou-se uma das imagens de marca mas a chegada do médio ofensivo ao Etihad é bem mais do que um conto de fadas: faz (e bem) qualquer posição do ataque, mais pelas alas ou atuando pelo centro, tem uma velocidade e uma capacidade física que impressionam, ganha vários duelos individuais, sabe explorar os espaços entre linhas e traz sobretudo imprevisibilidade a um ataque do City que tem sempre Haaland como referência mas que enfrenta problemas quando defronta blocos mais baixos.