Há dias assim. Quando Luís Marques Mendes se levantou e se fez à estrada, esta segunda-feira, não podia antecipar o tema — e o protagonista — que lhe ocuparia o dia e invadiria os discursos. Até porque quando chegou à feira de Paredes, para falar com os vendedores e comprar alguma fruta e salpicão, não sabia que além das compras receberia também um presente vindo direto da campanha de João Cotrim Figueiredo — que, à hora a que Mendes circulava na feira quase deserta, dizia aos jornalistas que não excluía votar Ventura se não passasse à segunda volta.

Na campanha de Mendes, o burburinho foi imediato. Sebastião Bugalho, Hugo Soares e a assessoria de imprensa apressaram-se a dar indicações ao candidato, mostrando-lhe a notícia antes do momento em que faria declarações à imprensa. Compasso de espera. Com um ar satisfeito, Mendes colocava-se diante dos microfones e disparava o primeiro tiro do dia: “Cotrim está a reconhecer que não vai à segunda volta”, logo o “voto na candidatura da IL é inútil”.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

“Não vai passar, não vai ganhar. O que há de novo é ser o próprio candidato a reconhecer o que muitos têm dito”. Curiosamente, ainda na véspera Mendes tinha sido questionado sobre o que faria numa segunda volta se não passasse — e, ao contrário de Cotrim, tinha respondido aos jornalistas que teria de não perceber de política e de ter alguma propensão para a autoflagelação para responder à questão.

Ao contrário, Mendes quis garantir que está mentalizado para ir à segunda volta. “Faltam quatro semanas. Na minha cabeça, a segunda volta está completamente preparada. O debate com o meu adversário, a parte em que vou visitar o país… A minha cabeça está preparada para mais quatro semanas, até adapto os meus descansos de campanha”, revelou. Durante a feira, mostrou-se bem disposto, prolongando mais as conversas do que é habitual, e ouviu uma feirante que disse “ter muito orgulho em ser do PSD desde criança” prever que Ventura “irá pela sanita abaixo”. “Não sabemos ser derrotados!”, gritou ao ouvido de Mendes, enquanto outra vendedora fazia um aviso simpático: “Ai de si que não ganhe. Não se deixe ir abaixo!”.

Ao longo do dia, Cotrim ajudou Mendes a não se “ir abaixo”. Pelo contrário. Enquanto a campanha assistia ao caos instalado entre liberais, Cotrim via-se obrigado a esclarecer o que tinha querido dizer, negando que se esteja a preparar para votar em André Ventura se o cenário se colocar e que continua focado em passar à segunda volta. Mas, tendo dito também que não conhecia o Ventura que viu “nos últimos quatro dias” — “moderou o discurso e parece um político diferente” — o entusiasmo instalava-se nas fileiras de Mendes.

Outro fator contribuiu para piorar o dia de Cotrim — a acusação de assédio lançada por uma ex-assessora do partido, que o candidato veio classificar como “absolutamente falsa” –, embora na campanha de Mendes o assunto não tenha sido empolado: o candidato rejeitou fazer comentários sobre o tema. Ainda assim, Cotrim via-se mais uma vez obrigado a desdobrar-se em explicações — e na campanha de Mendes o discurso continuava a ser dirigido ao adversário que está a dividir os votos da AD.

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Ao fim da tarde, em Vila Pouca de Aguiar, Sebastião Bugalho dedicou-se ao tiro contra Cotrim, provocando ora aprovação, ora risos na plateia: “Até lhe chama moderado! É caso para dizer que é liberal até dizer Chega!”. E, se até agora a candidatura dizia que um voto em Cotrim era um desperdício, ou uma inutilidade, Bugalho dizia mais: afinal, votar no liberal “serve para as piores coisas possíveis”.

Além do fator Ventura, atacou o colega de Parlamento Europeu noutros âmbitos: Cotrim é o autoproclamado “reformista” mas que “nunca reformou” na prática; fala do legado de Sá Carneiro sem “saber nada” sobre ele; “não tem posição nenhuma” e isso fica provado quando diz agora estar disponível para apoiar o Governo, ou quando diz ser realista mas admite votar em Ventura, que tem um programa económico irrealista.

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“Esta é uma eleição para o Palácio de Belém, não é para o palácio da bazófia”, disparou, sugerindo que Cotrim tem condições para ganhar o segundo mas não para se candidatar ao primeiro. Contra o “deslumbramento”, defendeu o voto em Mendes.

E o próprio Mendes subiu ao palco pronto para ganhar o máximo de terreno possível, aproveitando os erros de Cotrim. O dia, assumiu, foi “estranho”, porque começou com “contradições de Cotrim”, ainda Mendes escolhia as pêras que ia levar para casa.

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Depois, dramatizou e avisou os apoiantes: “Temos boas razões para acreditar, mas hoje mesmo a nossa responsabilidade aumentou”. E aumentou graças a Cotrim: “Disseram que estariam ao lado do Chega. Isto é um problema sério, disseram-nos que era a direita liberal e afinal parece que é a direita radical. Significa na prática a IL querer entregar Portugal aos cartazes do Chega, e isso é mau para a democracia”.

Mendes quis levar as declarações de Cotrim ao limite: insistiu que esta foi uma “grande surpresa”, séria e preocupante, e que “a democracia está sob ameaça”. “A minha candidatura, além de ser da moderação e da estabilidade, tem de ser da defesa da democracia”, um porto seguro para acolher quem é do centro-esquerda e centro-direita, disse, voltando a apelar ao eleitorado por quem Cotrim tem estado a puxar. “Estarei aqui sempre na defesa de um Portugal livre”, proclamou. A plateia entusiasmou-se e gritou “vitória” pela primeira vez nesta campanha. À direita, a luta aquece.

Ouça aqui a reportagem da Rádio Observador

“Não é o Palácio da Bazófia”. Bugalho e Mendes criticam Cotrim