Um ano após a entrada no mercado português, o acesso às estações do Metro de Lisboa continua a ser uma pedra no sapato para a operadora de telecomunicações Digi. A empresa queria que os clientes tivessem cobertura de rede móvel no metro no lançamento, em 2024, mas tal não se verificou.
No primeiro encontro com a imprensa em Portugal, os responsáveis da Digi elegem a resolução do “problema do Metro de Lisboa” como a “prioridade” para 2026.
“A cobertura no Metro de Lisboa é um ponto muito importante”, realça Valentin Popoviciu, chefe de estratégia e diretor de operações da Digi. Na altura da chegada a Portugal, a Digi criticou a falta de acesso ao Metro de Lisboa, falando na altura em “barreiras artificiais”. Em 2024, o Metro respondeu à empresa, dizendo que as críticas careciam “de base factual”.
Os responsáveis da Digi notam que as discussões com o Metro de Lisboa “começaram há três anos”. Aos jornalistas portugueses, dizem que as “autoridades deviam ser neutras” e que a administração do Metro “não foi transparente”. “Não queremos ser tratados de forma diferente, queremos ser tratados como os outros operadores”, diz Valentin Popoviciu.
“A forma como fomos tratados para acesso à infraestrutura não foi feita de forma razoável”, refere Popoviciu, dizendo que a empresa não teve problemas no Metro do Porto.
“Queríamos ter a cobertura no Metro de Lisboa ainda antes do lançamento. No Metro do Porto conseguimos ter o nosso sistema”, refere. “Em Lisboa, foi-nos dito que não poderíamos ter o nosso próprio sistema”, explicando que teria de ser partilhado com outros operadores. “A Meo é que faz a gestão do sistema e acesso de outros operadores.”
“Para nós não é aceitável não ter acesso às estações”, diz Valentin Popoviciu. “Estamos no processo de esperar pela Meo para [acesso] às linhas Amarela e linha Vermelha”, refere. “Temos duas linhas mas estas linhas não são suficientes. Precisamos da linha Azul e da linha Verde para amanhã.” Segundo este responsável, a Meo “disse que o projeto de sistema só estará concluído no fim de 2026”.
A Digi pede, assim, “à administração do Metro de Lisboa uma solução temporária”, que permitiria que os clientes da Digi tivessem rede no Metro. A empresa explica que o pedido “foi negado” pela anterior administração do Metro, tendo agora esperança na nova administração, que assumiu funções este mês.
Novo Conselho Administração do Metro de Lisboa inicia funções a 1 janeiro
Segundo Valentin Popoviciu, a tal “solução temporária” teria uma “exigência energética semelhante ao consumo de uma lâmpada”. Ao mesmo tempo, levanta duas folhas A4 para demonstrar a dimensão das caixas que serviriam de solução temporária nas estações.
“Vamos tentar discutir com a nova administração”, explicando que já avançaram com um pedido de reunião, ainda sem data para acontecer. Questionado sobre quanto tempo seria necessário para implementar uma solução temporária, Valentin Popoviciu fala “em um a dois meses” de trabalho. “A limitação é do Metro de Lisboa, não é da Digi”, realça. Contextualiza que, para haver trabalhos nas estações, as equipas da operadora precisariam de, além de autorização da administração do metropolitano, “uma equipa específica do Metro” para acompanhar os trabalhos.
Digi afirma que não vai aumentar preços em 2026
A empresa revela que não irá aumentar os preços das mensalidades dos serviços de TV, net, voz e móvel. “Não vamos aumentar os preços em 2026”, diz Valentin Popoviciu, referindo que vê os aumentos nas telecomunicações como “algo que está a acontecer em diferentes mercados” da Europa.
As três principais operadoras de telecomunicações em Portugal — Nos, Meo e Vodafone — anunciaram atualização de preços em 2026, com o valor da inflação como fasquia.
Segundo a Digi, é um “reforço” do compromisso assumido na entrada em Portugal de ter telecomunicações a preços reduzidos.
Em relação ao mercado português, a empresa reconhece que “foi recebida com algum ceticismo”, num mercado em “que os consumidores são informados e alérgicos às letras pequenas”.
Em 2025, a empresa diz que ultrapassou os 4.600 sites equipados com tecnologia 4G, dos quais 2.600 já têm cobertura 5G. Para este ano, está prevista a implementação de mais de 500 sites.
Digi está interessada em mais espectro — e espera por próximos leilões
A operadora está interessada em ter acesso a mais espectro de telecomunicações, que é usado pelas empresas do setor. Aliás, a chegada da Digi a Portugal foi feita à boleia do leilão de licenças de espectro para o 5G, um processo de quase dez meses que só ficou concluído em outubro de 2021.
Os responsáveis da Digi explicam que estão interessados em ir ao jogo das licitações num leilão para a faixa dos 700 MHz, mas “também no espectro de licenças que vão expirar em 2027”, esclarece Valentin Popoviciu. “Temos menos espectro do que os outros operadores”, diz o responsável. “Agora também estamos no mercado. O espectro tem de ser leiloado para que toda a gente possa ter acesso a mais.”
Questionado sobre se as licenças devem ser mais longas, Popoviciu responde de forma afirmativa. “A altura de um novo leilão é também o momento certo para ter licenças mais longas.”
Empresa não revela valores de investimento. “Não é relevante para os consumidores”
Em novembro, a Digi afirmou que investiu 120 milhões de euros em Portugal, com o CEO da Digi, Serghei Bulgac, a dizer que “grande parte do investimento em Portugal” estava feito.
Porém, para 2026, a empresa prefere não revelar valores de investimento. “É um número elevado, não vamos divulgar”, diz Valentin Popoviciu. Após insistência da imprensa, refere que “é na ordem de centenas de milhões de euros”.
O responsável da Digi refere que conhecer o valor de investimento “não é relevante para os consumidores”. Porém, diz que a companhia está “preparada para investir a longo prazo”.