Em 2018, aos 82 anos, garantia na capa e nas páginas da Harper’s Bazaar que aquela seria a sua última aparição numa revista de moda. Surgia igual a ela própria, no estilo, nas poses, e sobretudo nas confissões. “Fui criada para ser uma mulher livre, minha mãe era muito liberal. Amei quem eu quis, fiz vários abortos, fumo maconha desde os 13 anos de idade. Fumei a vida inteira e posso garantir: não faz mal algum, pelo contrário. Todas as pessoas bem velhas que eu conheço fumam maconha desde sempre.” Vera Valdez, nome artístico de Vera Barreto Leite, que adotou o apelido português do lado paterno para trilhar a posteridade, morreu esta quarta-feira, aos 89 anos.

Atriz e modelo, considerada a primeira top model do Brasil, Valdez era reconhecida pela sua atuação no Teatro Oficina de São Paulo, que expressou o desalento pela perda. “Hoje à tarde Vera partiu. Voa, Vera! Etherna! Muito amor por essa maneca”, lê-se na publicação que repartilham de uma das filhas de Valdez. Não foi avançada a causa da morte da atriz.

Filha de diplomatas, carioca de gema, nascida em 1936, Vera cresceu no Rio de Janeiro, cidade que deixaria após chumbar dois anos letivos no colégio americano que frequentava. O comportamento desafiador, esse, acompanhou-a desde a infância. Os pais enviaram-na para estudar em Portugal, mas a reabilitação também ficaria pelo caminho. “Minha mãe era totalmente boêmia e meu pai não. Ele me mandou morar com minha família portuguesa – minha avó e duas tias. Fiquei lá uns dois anos.”, partilhou à Vice. Vera haveria de ser expulsa por, segundo reza a lenda, usar batom vermelho e vestidos decotados (e por fumar no recreio da escola, claro). “Eu saio com 15 anos de Portugal. Minha mãe, a diplomata Maria Barreto Leite, na época foi transferida para o consulado de Bordeaux, e eu fui com ela, claro. De Bordeaux fomos para Paris através do meu tio. Minha mãe sempre quis conhecer Paris.”, recordou ao Jornal do Brasil em 2018.

Chegou a Paris no começo dos anos 50, acompanhando a mãe, já divorciada do marido, se mudara para França. Logo em 52, começa a trabalhar com Elsa Schiaparelli, encetando o vínculo ao mundo da moda e da alta-costura, um encontro fora da caixa, como só poderia ser. “Estávamos na perfumaria da Elsa em Paris, eu e mamãe. Aí escutamos uma voz por trás de nós, “Maria Barreto Leite, o que você faz por aqui?”. Era Agustín Lara. Explicamos para ele minha vontade de ser manequim, e então ele nos disse, “Espera aí”. Ele me leva para uma cabine, onde estavam outras manequins, e a Elsa ali, trabalhando.”, descreveu ao mesmo meio.

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No evento Chanel The Little Black Jacket

“Eu fiz a última coleção da Schiaparelli. Ela era uma costureira fantástica. Ela me emprestava roupas e eu saía toda fantasiada. Como eu disse, minha mãe sempre foi boêmia, então eu saía por Saint Michel e esperava até cinco horas da manhã para pegar o metrô. E a gente ia para a Rive Gauche toda arrumada”,adiantaria ainda, agora numa entrevista à Vice, em 2011, provavelmente o meio mais indicado para desfiar as peripécias de uma vida recheada, a que admitia não ligar muito, apesar de ter testemunhado e sido protagonista de uma era única na moda e na vida parisiense, onde se incluia fumar ópio com Jean Cocteau.

Valdez trabalharia de seguida como manequim para Christian Dior, juntamente com Victoire Doutreleau. Em 1954, uma Coco Chanel a regressar ao ativo depois da paragem no tempo da II Guerra recruta a jovem Vera Valdez e Marie-Hélène Arnaud para vestirem as suas criações e brilharem na capa da revista Paris Match. Consta que a rebeldia da modelo se mantinha, tendo acabado por ser afastada pela designer devido a faltas e atrasos. Valdez haveria de voltar no entanto a colaborar com a francesa, participando mesmo no último desfile de Chanel, antes da sua morte, em 1971.

“Eu me tornei a filha que ela não teve. Brigávamos, ela me demitia várias vezes porque eu era impossível. E depois me recontratava. Éramos amigas, mesmo. Ela era maravilhosa, nossa relação, tudo, e ela era uma mulher grossa, autoritária. Coitado dos costureiros, das modelos, aprendizes. Ela tocava a empresa à mão de ferro mesmo. Tínhamos discussões sobre tudo, Brasil, por exemplo, racismo, atrasos, trabalhos. Mas não tinha jeito. A gente se gostava, ela era a minha voz da razão, no fim das contas.”, contou nessa entrevista ao Jornal do Brasil. Seria fotografada ao longo dos anos por grandes nomes como Helmut Newton, Richard Avedon, Willy Rizzo e Frank Horvat.

Quando volta ao Brasil, Vera junta-se ao elenco de modelos da Maison Canadá, mantendo-se no trilho do consumo de luxo no país. A partir do Rio de Janeiro desfilou para criadores como Dener Pamplona de Abreu. Estreou-se na carreira de atriz com uma peça chamada “Juventude em crise”, dirigida e montada por Tonia Carrero.

No final da década de 1950 Valdez casa-se no Brasil com o ator Luís Linhares da união nasce uma filha, Paula, mas o elo pouco dura — o marido terá exigido o divórcio por causa de umas fotos nua que Vera fizera para uma revista brasileira. Nos anos 60, o curriculum amoroso seria povoado por nomes como os dos cineastas Ruy Guerra, Louis Malle ou Roger Vadim, mas é o salto para os palcos de teatro e ecrãs de cinema que mais importa, juntando-se ao elenco de longas-metragens como Homem Nu, de Roberto Santos, em 1968, e As Cariocas, em 1966, de Walter Hugo Khouri. Volta a casar-se, agora com Pedro de Moraes, fotógrafo e jornalista, filho de Vinicius de Moraes, e que seria detido durante o regime militar. Em comum tiveram Mariana, que mais tarde seguiria também a carreira de atriz.

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Em 2014, antes de assistir a um desfile da Chanel

Durante a ditadura, Valdez, também ela presa e sujeita a tortura, responde ao convite de Bernardo Bertolucci e Louis Malle para sair do Brasil e trabalhar nos filmes daqueles realizadores. É já em 1982, com a Lei da Amnistia, que volta ao Brasil. Em São Paulo, adere ao coletivo experimental da Teatro Oficina, de José Celso Martinez Corrêa, onde trabalhou até aos anos mais recentes. Aliás, aos 75 anos ainda tinha pedalada para participar nas peças de sete horas do Zé Celso. Já em 2009, participou na minissérie da Rede Globo, Som & Fúria. Um ano antes, voltaria a dar que falar por posar nua, aos 72 anos, para a revista Strip. Em 2021 participou no filme “A Avó”, dirigido por Paco Plaza. E em 2023 foi Dona Cândida no filme “Tia Virgínia”, de Fábio Meira, o seu derradeiro filme.