Adrian Heath manteve a história em segredo durante mais de um ano. A família mais próxima sabia, os verdadeiros amigos também souberam, as autoridades informaram que sabiam — mais ninguém precisava de saber. Mais de um ano depois, porém, a certeza de que não foi o único e continuava sem ser levou-o a contar tudo.
Aos 65 anos, o treinador inglês decidiu dar uma longa entrevista ao The Athletic onde recorda os três dias de novembro de 2024 em que foi dos EUA a Marrocos para apanhar o susto de uma vida. E tudo começou com uma proposta de trabalho que, na realidade, não existia. Mas para contar a história de Adrian Heath é preciso recordar quem é Adrian Heath.
Natural de Newcastle, foi avançado do Stoke City, do Everton, do Aston Villa, do Manchester City, do Burnley e do Sheffield United, tornando-se mesmo a contratação mais cara dos toffees até então, em 1982, e passando ainda pelo Espanyol da Catalunha. Começou o percurso de treinador assim que deixou os relvados, com breves passagens por Burnley, Sheffield United e Coventry antes de rumar aos EUA para assentar arraiais e fazer carreira. Orientou Austin Aztex, Orlando City e Minnesota United, com Kaká a passar-lhe pelas mãos na equipa da Florida, e estava desempregado há pouco mais de um ano quando o telefone voltou a tocar.
Ex-MLS coach Adrian Heath thought the offer of a coaching job in Saudi Arabia could be a logical next career step.
Instead, it led to the former Everton player being kidnapped in Morocco, held at knifepoint, and left fearing for his life.@PaulTenorio with an extraordinary… pic.twitter.com/G5PhXXNdh0
— The Athletic | Football (@TheAthleticFC) January 21, 2026
A proposta vinha da Arábia Saudita. Um clube, que Adrian Heath não quer nomear devido às investigações que ainda decorrem tanto nos EUA como em Inglaterra, estava interessado em contratá-lo. Depois de uma primeira abordagem no verão que culminou com a escolha de outro treinador, os maus resultados levaram os sauditas a abordar novamente o entorno do inglês. Heath aceitou conversar e nos dias seguintes, através de chamadas telefónicas com a presença do agente e também da mulher, Jane, fechou o salário, o orçamento para a equipa técnica, o sítio onde iria ficar a viver e até o plano de saúde a que teria direito.
“O processo decorreu exatamente da mesma maneira que tinha decorrido o processo em que ele foi de Inglaterra para os EUA ou de Orlando para o Minnesota. Não existiam sinais de alerta porque tínhamos tido horas de conversas. O agente não hesitou em questão alguma”, recorda Jane, casada com o treinador há mais de 30 anos, ao The Athletic. Adrian Heath falou com várias pessoas que conhecia na Arábia Saudita, incluindo Steven Gerrard, que na altura treinava o Al Ettifaq, e todos tinham apenas coisas boas para dizer sobre o clube em questão e o futebol saudita. Tudo parecia bem encaminhado.
Dias depois de tudo ter ficado acordado, o agente de Adrian Heath disse-lhe que o dono do clube, um sheikh, queria conhecê-lo — de preferência em Marrocos, onde tinha vários hotéis e outros negócios e iria estar nos dias seguintes. O inglês aceitou e partiu para Tânger em novembro de 2024, com escala em Manchester, sendo recebido no aeroporto por dois homens que lhe entregaram um ramo de flores e o encaminharam para o carro que o levaria ao hotel.
Harrison Heath, à esquerda, é filho de Adrian Heath e joga atualmente no Miami FC
Ao fim de 40 minutos de viagem, porém, o carro deixou a autoestrada e encaminhou-se para vias secundárias. “No início pensei que era a maneira mais rápida de chegar ao sítio para onde íamos. Mas 20 minutos comecei logo a entrar em pânico, porque as estradas eram cada vez piores e estava a anoitecer. Acabámos por entrar num bairro estranho, perto do porto. Era suposto ter ficado num hotel junto à praia”, recordou o treinador ao The Athletic.
O carro parou num beco e os dois homens levaram Adrian Heath para um pequeno apartamento onde estavam outros três. Sentaram-no no sofá e depressa explicaram o que queriam: dinheiro. Ameaçaram a mulher do inglês, os dois filhos e os quatro netos, e tiraram-lhe a carteira e o telemóvel. Heath recordou a diferença horária, disse que era impossível pedir à mulher para realizar uma transferência naquele momento, e chegou a ser ameaçado com uma faca encostada ao pescoço no momento em que Jane ligou, preocupada com a ausência de notícias.
Depois de uma noite em branco, pouco depois das 6h da manhã, os três homens que o mantinham cativo exigiram que telefonasse de novo à mulher a pedir que fizesse uma transferência. Jane percebeu que algo estava errado e, já depois de desligar a chamada, telefonou a um dos filhos, Harrison, a pedir ajuda. Harrison ainda conseguiu falar com o pai, sem adiantar grandes pormenores ou novidades, e acabou mesmo por ser a nora de Adrian Heath a solução para todo o problema.
Em 1982, Adrian Heath foi a contratação mais cara da história do Everton até então, custando perto de 750 mil libras
Kaylyn Kyle, atual apresentadora de televisão que foi internacional pelo Canadá, lembrou-se que a sogra tinha acesso à localização exata do telemóvel do marido. Em Marrocos, os três homens tinham retirado e controlado o telemóvel de Adrian Heath, mas não tinham desligado a localização. Nos EUA, Jane Heath tirou um screenshot à localização do marido, que depressa foi transmitida ao FBI, e enviou a mesma imagem para o número do treinador. Tudo tinha mudado.
“Foi como se tivessem desligado um interruptor”, recorda Adrian Heath, que nesta altura já tinha sido novamente ameaçado com uma faca junto ao pescoço. Os três homens levantaram-no, colocaram-no novamente no carro, conduziram até ao aeroporto e deixaram-no lá sem mais explicações. No fim de tudo, o treinador tinha a mala, o telemóvel, a carteira e o passaporte — só tinha mesmo ficado sem os 600 dólares em dinheiro que tinha levado consigo.
Apanhou o primeiro avião para a Europa, rumo a Madrid, e no dia seguinte estava a aterrar no Minnesota. Ao todo, passou 24 horas dentro do apartamento em Marrocos e três dias tinham passado desde que tinha deixado os EUA até ao momento em que regressou. Foi recebido no aeroporto pela mulher e por um agente do FBI, que só permitiu que o casal tivesse uns minutos para se reencontrar antes de os interrogar em separado.
“Parece uma loucura, mas tenho de usar a palavra ‘sorte’. Que sorte que eu tive. Até ao FBI me disse que tive muita sorte em conseguir voltar. Às vezes ainda parece surreal. Foram os três dias mais longos e mais rápidos da minha vida. Deram-me uma oportunidade para reavaliar a minha vida e o que é realmente importante. E a única coisa que importa é a família. Tudo o resto é secundário”, recorda Adrian Heath, que decidiu tornar a história pública depois de saber que outros dois treinadores passaram pelo mesmo num momento anterior e que um outro já caiu no mesmo esquema depois do seu próprio susto.