O número de casos de sífilis têm vindo a aumentar significativamente ao longo das últimas décadas. Na Europa, foi registado um aumento de 53% desde 2019, segundo o Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças (ECDC). E mesmo com o crescimento desta infeção sexualmente transmissível, muito pouco se sabia sobre as origens desta doença.

Até esta quinta-feira, quando um grupo de investigadores internacionais publicou um estudo na revista Science com com uma resposta a esta questão. Apesar de existirem várias teorias — algumas que colocam o nome de Cristóvão Colombo e a sua expedição às Américas ao barulho —, este grupo liderado pelo italiano Davide Bozzi chegou à conclusão que para encontrar a origem desta doença, tiveram de viajar tanto no espaço, como no tempo.

Foi na Colômbia que encontraram os vestígios de um ser humano datados de há mais de 5.500 anos. De um fragmento de tíbia deste caçador coletor que teria entre 45 a 60 anos, conseguiram confirmar a presença da versão “primitiva” da bactéria Treponema pallidum — a que transmite a infeção —, que nesta altura já possuía os genes associados às estirpes atuais. Esta descoberta confirma que a sífilis já circulava há cerca de 5.500 anos, pelo menos naquela região do globo, com o potencial para provocar doença e adaptar-se aos hospedeiros humanos.

A partir desta amostra recolhida, os investigadores sugerem que a origem da sífilis não esteve dependente da intensificação da agricultura ou da densidade populacional, fatores que são comuns entre outras doenças infecciosas. Admitem, assim, que esta descoberta poderá ser um “passo crítico para reduzir o estigma” associado a esta doença e, deste modo, “melhorar a saúde pública”, afirmam Molly Zuckerman e Lydia Ball, da Universidade de Colorado, em declarações citadas pelo jornal El Mundo.

Para as investigadoras, que não participaram no estudo, as conclusões deste estudo são também importantes por estabelecer o “elo de ligação perdido” entre a arqueologia e a genética, tendo sido possível identificar vestígios da doença nos ossos milenares.

Antes deste estudo ter sido publicado, os vestígios da doença foram identificados nos restos de um ser humano de há cerca de 2.000 anos, enterrados no Brasil. Estas conclusões, publicadas no ano passado por uma equipa de paleontólogos da Universidade de Zurique, configuravam até esta semana a mais antiga presença de sífilis alguma vez encontrada.

Mas até estes vestígios sul-americanos terem sido descobertos, o que reinavam eram apenas teorias. A principal apontava o dedo à tripulação de Cristóvão Colombo, referindo que o navegador, vindo da sua primeira expedição às Américas, terá trazido a doença no navio de regresso à Europa. Outros referiam que a sífilis já circulava na Europa muito antes disso, mas que ainda não havia sido identificada.