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Ao fazer um novo disco, o Rapaz Ego fez as pazes com o mundo

Este artigo tem mais de 6 meses

Eis o novo capítulo de uma história contada em três atos e a duas vozes. Mais direto e mais tranquilo, o novo álbum "Fazer as Pazes" vai agora rodar pelos palcos nacionais.

Ao vivo, o Rapaz Ego terá João Borsch na bateria, Miguel Marôco nas teclas, Gonçalo Bicudo no baixo e Rodrigo Andrade e Sousa nas percussões e teclas
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Ao vivo, o Rapaz Ego terá João Borsch na bateria, Miguel Marôco nas teclas, Gonçalo Bicudo no baixo e Rodrigo Andrade e Sousa nas percussões e teclas

Ao vivo, o Rapaz Ego terá João Borsch na bateria, Miguel Marôco nas teclas, Gonçalo Bicudo no baixo e Rodrigo Andrade e Sousa nas percussões e teclas

Luís Montenegro era um tipo ansioso. Tão ansioso que nem sequer dava conta de viver permanentemente com os nervos em franja: “Quando a ansiedade desapareceu, percebi que tinha ansiedade todos os dias, quase a toda a hora”, partilha com o Observador, no seu estúdio em Marvila, volvidos três anos intensos de terapia. Durante esse tempo, muita coisa aconteceu: a morte súbita do amigo Gastão Reis, baixista dos Zarco, uma pandemia distópica que prometia um final feliz, mas afinal não ficou tudo bem, um desgosto amoroso e até um acidente de mota.

Se Luís se aguentou à bronca foi muito por culpa de Rapaz Ego, persona criada em 2017, qual Venom de um Homem Aranha desencantado com as suas teias. Sob esse disfarce de bacano confiante, assinou já três edições: o psicadélico Gente a Mais (2016), gravado ainda na sua cidade-natal (Sorria, está na Maia!); Vida Dupla (2021), um exercício de guitarradas prog-rock apenas recomendado a quem tem dedos de centopeia; e Fazer as Pazes, o álbum em que homónimo e heterónimo se tornaram unos. “É a minha fase Gogeta”, diz, expondo a sua afeição pelo universo Dragon Ball. Trocando por miúdos: Luís e Rapaz finalmente fundiram-se num só e deixaram os egos de lado. Isso, meus caros, são boas notícias.

Desde logo, pela confiança com que o músico e produtor de 35 anos agora olha para o seu trabalho, ele que tinha muita dificuldade em acreditar que aquilo que fazia “era coisa digna de ser ouvida”. Quem lança singles como Crime em Tânger ou Quero Tanto não devia autoflagelar-se, mas a cabeça é um bicho complicado e a de Luís tinha néons fluorescentes a berrar-lhe não vales nada. Rapaz Ego, nesse sentido, salvou-lhe a vida, como o próprio canta.

Curiosamente, ao ganhar confiança em si, deixou de sentir necessidade em exibir todos os seus virtuosismos académicos, libertando-se, assim, de uma certa bazófia e, acima de tudo, do seu dedo acusatório. É quase como se tivesse nascido de novo. Já não é um mar de autocrítica infinito”, desabafa, junto ao seu piano Yamaha, no qual compôs metade do esqueleto de Fazer as Pazes. A outra metade, foi de guitarra ao colo.

Das teclas saiu, por exemplo, a única balada do disco. “Foi a música mais rápida que fiz na vida. Demorei três horas a fazê-la e em dois dias estava masterizada”. Culpa aborda o fim de um relacionamento da perspetiva de alguém que guarda “a beleza do encontro”, em vez de cismar na dita culpa, esse veneno que apodrece a raiz do amor. Surge depois de Pingo de Vergonha, a primeira do álbum que se anuncia com um dedilhado à guitarra, e antes de Bater de Frente, dois temas em que é notória a brasilidade de Rapaz Ego e a afinidade com Milton Nascimento, o seu “ídolo”, Zé Ibarra, Dora Morelenbaum e Caetano Veloso.

O cafuné com o Brasil continua em Bomba de Fumo e Tão Perto, desta feita com a soul, o disco e o funk a darem cartas, num jogo que tem tanto de Tim Maia como de Tagua Tagua. O álbum fecha com Filho d’um Filho e Caso Sério, momento em que Rapaz Ego carrega nas guitarras sujas e no baixo, assumindo uma veia entre o grunge, o nu metal e o rock sinfónico, entre No Doubt e os Muse em início de carreira, com amadrinhamento de Clã e toda a finesse de uma Competência para Amar.

Em suma: apesar de Fazer as Pazes ser mais direto do que Vida Dupla, álbum claramente profícuo em solos, divagações nos sintetizadores e corpos harmónicos, não quer dizer que seja um trabalho simplista e de leitura linear. Há muito subtexto em cada canção e isso, em parte, justifica-se pelas inúmeras horas que Rapaz Ego passou a ouvir Gorillaz durante o processo de composição, como pela sua preocupação em ter “alguma coisa musicalmente engraçada a dizer”, ao invés de meter os arranjos na Bimby e contentar-se com a sopa competente do costume.

Capicua e Femme Falafel: “Desafiaram-me e inspiraram-me imenso”

Há ainda outro dado importante a ter em conta neste disco, aquele que, segundo o próprio, fecha a tríade de Rapaz Ego e deixa em aberto a via da liberdade criativa para explorar caminhos inusitados (ele que, além de fazer parte de uma outra banda, os Salto, anda também fisgado no rap). No último ano, Luís Montenegro produziu e coproduziu respetivamente os álbuns de Capicua (Um Gelado Antes do Fim do Mundo) e de Femme Falafel (Dói-Dói Proibido), dois dos trabalhos nacionais mais entusiasmantes de 2025, de duas músicas com um manancial de recursos estilísticos fora do normal.

“A Ana [Capicua] é das escritoras mais proficientes que eu conheço. É surreal a maneira como ela desbloqueia, lírica e criativamente. Já a Raquel [Femme Falafel]… não sei se ela caiu em si do talento e da qualidade que tem. As duas têm acuidade na palavra e conseguem ser incrivelmente gentis e doces e, ao mesmo tempo, meter um veneno no que dizem. Desafiaram-me e inspiraram-me imenso.”

“A minha música nascia de uma tensão, como aquelas pessoas que deixam acumular raiva e depois explodem. Era muito esgotante emocionalmente. Agora a música dá-me muito mais prazer, é uma revelação"

Enquanto Ana mostrou ao Rapaz Ego a magia de ir atirando as cores para a tela, quase de improviso e sem julgamentos desnecessários, para depois a mão do pintor acomodar cada tom no sítio certo, Raquel, com o seu rigor dandi, tirou-lhe os complexos em usar palavras difíceis e até tontas. O resto, fez Boris Vian, “a pessoa que mais me inspirou liricamente”, confessa. Há neste nino que é homem, gajo e indivíduo [Filho d’um Filho] uma queda declarada para as mortes poéticas. Antero, nesse sentido, está para Vida Dupla, como Caso Sério para Fazer as Pazes. Num, ele perdeu o tino, no outro teve uma morte jacobina. “Antigamente, a morte para mim era o momento de choque e neste disco é o momento de renascimento.”

Renascido e crescido, Rapaz Ego vai agora andar em digressão. Lisboa, a 31 de janeiro (Casa do Capitão) e Porto, a 6 de fevereiro (Plano B) são as cidades que se seguem, mas também há paragens marcadas no Barreiro (20 fev., Sala 6), em Braga (21 fev., Lustre), Coimbra (28 fev., Salão Brazil) e Santa Maria da Feira (9 set., Cineteatro António Lamoso). Mais se anunciarão em breve.

A seu lado em palco terá João Borsch na bateria, Miguel Marôco nas teclas, Gonçalo Bicudo no baixo e Rodrigo Andrade e Sousa nas percussões e teclas. Muita malta da Cuca Monga, portanto, editora que dá selo ao disco. A promessa é a de os concertos combinarem a exigência técnica de Vida Dupla com a fluidez de Fazer as Pazes, dando espaço aos músicos para improvisos de momento e, quiçá, para o erro também. “Este disco é um fechar de capítulo em que eu me aceito na totalidade.” Ao fazer as pazes consigo próprio, Rapaz Ego fez as pazes com o mundo e com todas as suas imperfeições. Há agora alívio no seu pisar. O Luís pode finalmente trabalhar em paz.

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