Ana Matos Fernandes tinha 17 anos quando foi inaugurada a estátua de São João Batista, de João Cutileiro, na Fonte da Praça da Ribeira. Por volta dessa altura, ela e os amigos costumavam-se encontrar no “cubo”, como é conhecida a praça, para atravessarem a pé a Ponte D. Luís em direção ao Hard Club. Havendo uma noite de hip-hop nesta sala mítica, que em 2010 galgou o Douro para se fixar no Mercado Ferreira Borges, no Porto, eles não falhavam uma.
“Sabíamos de cor os horários dos autocarros e quando regressávamos íamos às pizzas da Ribeira, que estavam abertas até às 6h da manhã”, lembra, fazendo um arco com o braço, mimetizando tantos regressos com a juventude na pele, mãe de toda a intensidade, como hoje canta na sua versão de Estrela da Tarde, canção escrita por Ary dos Santos e eternizada na voz de Carlos do Carmo.
Ana, que já foi Odd com latas de tinta na mão e já sonhou abrir uma sapataria Sereia Louca em Cedofeita, é Capicua. 42 anos, do Porto, muito mais viva do que morta e acabada de derreter mais um par de letras num disco que é dióspiro verde a arreganhar a língua, mas também perna-de-pau maravilhado na mão de uma criança, depois de um mergulho no mar.
Um Gelado Antes do Fim do Mundo chega ao mercado a 21 de março, um dia depois da Primavera e um dia depois da apresentação oficial no Teatro Tivoli, em Lisboa. Haverá outra apresentação ao vivo no Porto, uma semana depois, a 27 de março, na Sala Suggia da Casa da Música.
Entre este novo trabalho e Madrepérola (2020), aquele que ela nos avisara que poderia ser o seu último álbum, passaram cinco anos. Neste hiato, longe de ter estado parada – lançou o segundo disco do projeto Mão Verde, fez a curadoria do álbum de homenagem a Sérgio Godinho SG Gigante, escreveu uma peça de teatro e lançou dois livros – Capicua foi-se inflamando de palavras, para bem da música, da poesia, das árvores, dos fungos e das utopias. Porosa à experimentação como nunca a tínhamos visto, tirou da arca uma obra com tom pré-apocalíptico, mas nem por isso derrotado ou conformado.
“É talvez o disco que fiz mais conectado com o seu tempo. Tenho mesmo umas botas enterradas na lama da realidade e é a partir dessa experiência imersiva de quem está viva em 2025 que o disco acontece”, diz-nos sentada num muro da Ribeira, onde o sol batia brando e onde a entrevista se desenrolou, com as pernas à chinês. Como diria a poeta cubana Dulce Maria Loynaz, só quem na sombra se crava, sugando gota a gota o suco vivo da sombra, logra erguer obra nobre e perdurável.
▲ "O tempo da arte é cada vez mais desfasado do tempo do mercado e então parece que é demasiado investimento para o ápice de atenção que os discos têm"
IGOR MARTINS / OBSERVADOR
Capicua não conheceu Dulce, mas conheceu um cubano que, certo dia, lhe dissera que ela era de Xangô, o orixá da justiça, dos raios, do trovão e do fogo. Que eu cuspo fogo nunca ninguém duvidou, canta em Making Teenage Ana Proud, single forrado do primeiro ao último verso pelas lutas que sempre abraçou. O fogo é cuspido ao pensamento patriarcal, racista, xenófobo, à tecnocracia, a todos aqueles que não percebem que quando derrete um glaciar derrete toda a humanidade. Na letra ela deixa bem claro: no combate e no debate, seremos adversário.
Longe de ser “solar” e “otimista” como era o de Madrepérola, o fogo deste novo trabalho ateia-se nas grandes tensões e conflitos do nosso tempo. Porém, o que lhe escasseia em otimismo, sobra em poesia. E é precisamente a poesia que faz com que Um Gelado Antes do Fim do Mundo não seja o abismo em si, mas antes uma “proposta de encantamento” para nos arredar do cinismo do grime de Chiaroscuro e para nos insuflar no que há de mais humano em nós.
Luís Montenegro (não o demissionário, mas sim o Rapaz Ego) foi o braço direito de Capicua na produção, permitindo-lhe fluir entre o fado, o rap de guerrilha, o semba e as guitarras de Pedro Geraldes com a leveza e a espinha dorsal que as palavras fortes precisam para se propagarem e germinarem. Nos samples e nos beats, encontramos o dedo de Virtus, Stereossauro, Keso e DJ Ride, camaradas de muitas rimas e batidas e de muitas lutas. Já Toty Sa’med, Gisela João e as Sopa de Pedra foram convocadas pelas próprias canções que, sendo “sábias”, sabem sempre chamar pelas vozes que lhes dão alma.
Um Gelado Antes do Fim do Mundo “é um disco para ser ouvido do início ao fim”, diz a própria. Não é um disco fácil, nem na mensagem nem na estética, como também não o é o mundo, como também não é um parto. Contra o adormecimento, encantemo-nos e ouçamos o que Capicua tem para nos dizer, tratando-nos por “tu”, nós respondendo no mesmo cumprimento, não haveria outra forma.
[o vídeo de “Chiaroscuro”, um dos novos temas de Capicua:]
Quando lançaste o Madrepérola, em 2020, deixaste em aberto a possibilidade daquele poder vir a ser o teu último disco. Disseste mesmo: “Não sei se vou ter vontade de fazer mais”.
Essa frase foi dita daquela forma, mais como uma ideia de que os discos estão em via de extinção, do que propriamente como uma ameaça de que ia desistir da música. Acho que os discos são um formato cada vez mais anacrónico. O tempo da arte é cada vez mais desfasado do tempo do mercado e então parece que é demasiado investimento para o ápice de atenção que os discos têm. Era mais nesse sentido, não era uma ameaça de que me ia embora, mas muita gente interpretou assim.
Nesse caso, o que é que te levou a fazer um novo disco?
Para cada disco tenho sempre uma espécie de exercício criativo que quero impor a mim própria. Depois, há o ponto de vista do conteúdo. Tenho que ter sempre coisas para dizer. Passados estes cinco anos, sinto que mudou muita coisa, não só em mim, mas em todos nós. Passou uma pandemia pelo meio, o mundo complexificou-se, as tensões acentuaram-se e houve um extremar de quase todos os problemas que já existiam. No rescaldo da pandemia, perguntavam-me “para quando mais música?”, mas eu ainda sentia que estávamos no olho do furacão e que era prematuro perceber para onde é que as coisas se encaminhavam. Eu própria ainda estava a perceber qual poderia ser o meu contributo. Cinco anos passados, sinto que já deu para perceber para onde é que isto caminha. Já tenho as coisas mais claras. Ao mesmo tempo, tive vontade de mudar o meu processo de composição. Antigamente, o meu processo era muito baseado naquilo que é o método clássico de construção de um disco de hip-hop, em que partimos sempre de uma recolha de instrumentais e depois escrevemos para esses instrumentais. Neste disco queria fazer a coisa de uma forma mais orgânica e experimental. Por isso é que foi muito importante para mim trabalhar com o Luís Montenegro, que é um dos músicos da minha banda há muitos anos, mas com quem nunca tinha feito este exercício. Por dominar muito bem a linguagem da música eletrónica, por um lado, e por outro a dos instrumentos tradicionais, conseguiu fazer a ponte entre o método ao qual eu estava habituada e as novas possibilidades de compor com um piano ou com uma guitarra. Portanto, desse ponto de vista, tinha o objetivo de experimentar um novo método de composição e do ponto de vista lírico queria escrever, não só rap, que era o que habitualmente fazia, mas antes fluir entre a palavra dita, a palavra cantada e o rap de uma forma mais natural e orgânica.
Um Gelado Para o Fim do Mundo é sem dúvida o teu disco mais experimental…
Há estados de espírito que ainda não tinha experimentado e linguagens musicais com as quais ainda não tinha flirtado e que neste disco acontecem não só pelo trabalho com o Luís Montenegro, mas também com o Pedro Geraldes, que grava várias guitarras. Mesmo quando partimos de instrumentais já feitos, dos meus cúmplices habituais, quer do Stereossauro ou do Ride, eu e o Luís desmontámos o instrumental quase até ao osso para reconstruir a música praticamente a partir do sample. Foi muito interessante fazer este trabalho, não só porque cheguei a resultados, estados de espírito e ambientes diferentes, como me senti livre para experimentar registos vocais mais variados. Também acho que foi essencial ter tido o hiato de cinco anos entre o Madrepérola e este disco. Não é que eu estivesse parada. Acabei por fazer o segundo disco do Mão Verde, um livro de crónicas e um livro para crianças, escrevi o disco da Aldina Duarte, fiz a curadoria do SG Gigante, escrevi uma peça de teatro chamada A Tralha… quase que precisei de fazer esta paragem dos meus discos e experimentar essas coisas todas para renovar os votos com a composição e com a vontade de fazer o disco, que é sempre uma corrida de longo curso. Tinha matéria-prima para construir um disco e caminho para andar e diverti-me muito a fazê-lo.
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Em Madrepérola agarraste-te a um tom esperançoso. Fazias uma guerrilha pelo lado belo da vida. Já em Um Gelado Antes do Fim do Mundo o tom é marcadamente pré-apocalíptico. O que mudou?
O Madrepérola parece que já foi feito noutra vida. Senti que estava de esperanças, em todos os sentidos, pelo facto de ter sido escrito durante a gravidez e num pós-parto. Isso, inevitavelmente, levou-me para o lado solar e para o otimismo. Ao mesmo tempo, a minha proposta nesse disco era a de falar de coisas sérias pelo lado irónico e dançável, que até então não tinha explorado. Neste disco é diferente. Foram cinco anos, mas houve muita coisa que aconteceu. Há uma sensação de fim de mundo, de colapso, uma angústia que é palpável, uma ansiedade por esta exposição permanente à informação e ao estímulo. As questões das alterações climáticas são cada vez mais evidentes e pairam sobre as nossas cabeças como uma guilhotina. A guerra voltou à Europa e há uma escalada da extrema-direita. Tudo se complexificou neste mundo pós-pandémico. Portanto, o disco não poderia ignorar isso. É talvez o disco que fiz mais conectado com o seu tempo. Tenho mesmo umas botas enterradas na lama da realidade e é a partir dessa experiência imersiva de quem está viva em 2025 que o disco acontece. Isso é bastante óbvio para quem o ouve. Não que não haja canções mais emocionais, mas há uma quantidade grande de canções que falam dos nossos desafios, porque foram feitas num tempo de grandes tensões e grandes conflitos.
▲ "Hoje o que sinto é que ninguém se senta à volta de uma mesa a pensar, 'então como é que a gente pode organizar isto melhor?'"
IGOR MARTINS / OBSERVADOR
Sempre tocaste em várias lutas, mas parece-nos que neste trabalho a tua linguagem está mais contaminada do que nunca. As lutas diluem-se num corpo só. Concordas?
Este disco cose-se muito a partir da palavra e da poesia, em particular. É o meu disco mais poético, nesse sentido. Não só os poemas fazem a ligação entre as canções, como também as próprias letras têm ambivalências que dão espaço a várias associações e a fios que se vão ligando. Na era dos singles, acho que o que torna engraçado fazer discos é o exercício contracorrente de aproveitar o parentesco entre as canções, a forma como elas se sucedem, completam e contaminam e às vezes se contradizem e entram em diálogo. Este disco não é um conjunto de canções aleatórias. É um disco para se ouvir do início ao fim e cuja espinha dorsal é feita a partir da palavra declamada e da poesia.
A ideia da memória e do esquecimento está muito presente em algumas canções, como em Danúbio ou Souvenir, em contraposição com o futuro. Porquê essa relação?
Falo muito sobre a nossa ausência de futuro. Aliás, o disco acaba com a frase “Triste é o povo que não consegue imaginar um futuro. Nós somos esse povo”. O maior sintoma da doença da nossa civilização é a nossa incapacidade de criar utopias, de criar alternativas àquilo que já percebemos que é insustentável. Por um lado, é-nos mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo e depois quando imaginamos o futuro, imaginamo-lo como uma distopia orwelliana, de ficção científica ou como uma grande catástrofe ambiental. Não conseguimos imaginar um futuro feliz, só conseguimos imaginar o futuro como um fim e não como uma possibilidade. Isso é uma coisa muito triste. Parece que andamos em círculo sobre os nossos próprios vaticínios nesta circunstância de sermos uma civilização suicida que vive numa espécie de profecia autorrealizada. De repente, estamos numa situação em que temos novamente um cheiro a anos 30 no ar, como digo na Danúbio, e o passado todo pela frente e, ao mesmo tempo, não conseguimos evitar não cumprir essa profecia que vaticinamos. É uma coisa paradoxal.
Referiste há pouco que a espinha dorsal do disco são os poemas. O primeiro poema que declamas no disco, já depois de evocares o poeta palestiniano Marwan Makhoul, é sobre o 25 de Abril, mas também sobre o que nos falta cumprir para salvarmos a humanidade…
Esse poema fala de celebrarmos Abril e como essa revolução nos regenerou, porque ao observarmos a história da nossa democracia sinto que aquela geração que fez o 25 de Abril falava muito de utopias. As pessoas durante o PREC sentavam-se nos cafés a debater ideias, às vezes de forma furiosa. Andavam todos a discutir projetos de sociedade — alguns deles falhados, outros nunca tentados, outros ainda bem que nunca se experimentaram — mas as pessoas tinham ideias e debatiam-nas. Hoje o que sinto é que ninguém se senta à volta de uma mesa a pensar, “então como é que a gente pode organizar isto melhor?”. Ficamos numa espécie de loop conformado, estamos a repetir as mesmas ciladas, século após século, como se não conseguíssemos fazer diferente. Isso é uma coisa desesperante. De todas as questões complexas dos nossos tempos que temos em mãos e das quais o disco fala, a incapacidade de imaginar futuros é talvez aquela que me preocupa mais.
Daí o tom pré-apocalíptico?
Claro, porque se não temos essa capacidade de imaginar o futuro e nos resignamos com a ideia tecnocrata do “There is no alternative”, de que não há nada a fazer, é quase como se não tivéssemos nenhuma razão para nos levantarmos da cama de manhã. Não há nenhuma razão para lutar.
Ainda assim, e mesmo que não seja um álbum solar como o Madrepérola, existe esperança no disco.
Apesar de eu ser crítica e pôr o dedo na ferida, este disco não é pessimista, no sentido em que a minha proposta é precisamente a de que as pessoas se sintonizem com o encantamento. É como se a música, a poesia, a natureza, o olhar infantil e pueril sobre as coisas nos devolvesse a capacidade de limpar as lentes que o tempo foi tornando foscas e nos permitisse olhar para o mundo como algo pelo qual vale a pena lutar, algo que é digno do nosso esforço e da nossa capacidade de superação. O olhar encantado sobre as coisas é aquilo que, no fundo, nos recarrega a capacidade de ter esperança e nos atira para a luta. Se não tivermos esse olhar benigno e encantado sobre as coisas, não vamos lutar por elas.
▲ "É mais fácil sucumbir ao escapismo e à dopamina rápida, mas a cultura pode ser uma contraproposta a isso"
IGOR MARTINS / OBSERVADOR
“A biodiversidade cura / todas as lutas são plurais / contra a monocultura / cultura”, dizes no tema Brava. O encantamento chega por via da arte?
A cultura é aquilo que nos humaniza, que nos torna mais empáticos e mais próximos. É o que nos distingue dos animais, mas também nos afasta desta lógica de robotização em curso — e nem estou só a falar da inteligência artificial, estou a falar desta atitude muito cínica com que estamos nas redes sociais e como olhamos o mundo. Está tudo muito banalizado. Como digo no Chiaroscuro, as pessoas misturam as coisas mais frívolas e mais superficiais com as coisas mais escabrosas e preocupantes no mesmo feed, como se tudo valesse o mesmo. Fica tudo tão banalizado que as pessoas já não se mobilizam com nada, já não se impactam nem se comovem com nada. A cultura pode ser um antídoto para esse adormecimento e para esse cinismo. É mais fácil sucumbir ao escapismo e à dopamina rápida, mas a cultura pode ser uma contraproposta a isso. Em vez do adormecimento, o encantamento poderia ser um bom antídoto para a angústia dos tempos que vivemos.
Recentemente começaste a comunicar com os teus fãs por via de uma newsletter, criada no Substack. Ainda assim, manténs as tuas redes sociais. É uma relação de amor-ódio?
É difícil não recorrer às redes sociais, principalmente quando se trabalha com cultura, porque temos cada vez menos meios de divulgação. Há cada vez menos programas e menos rubricas de cultura na televisão e na rádio, os jornais têm cada vez menos suplementos ou se têm, vão emagrecendo ao longo do tempo. Portanto, a maior parte dos artistas tem de estar nas redes sociais, porque parece que as coisas não existem para o público se não estiverem lá. O problema das redes sociais é o de estarmos no meio de todo o caos e competição pela atenção humana. É muito ingrato e frustrante estar sob o jugo da ditadura do algoritmo, que não facilita propriamente a divulgação de cultura. Do ponto de vista pessoal, as redes sociais são uma coisa pouco saudável: drena-nos a energia, o tempo e as pessoas tendem a comparar-se, acabando por erodir a sua saúde mental. Ao estarmos demasiado expostas ao estímulo e à informação, parece que nunca há tempo para parar, para contemplar, para pensar. Tens que reagir, reagir, reagir. Isso é uma roda do rato na qual estamos embrenhados, desenhada para ficarmos viciados. É uma droga muito bem pensada e pouco regulada e, pior, controlada por oligarcas. Infelizmente há poucas alternativas e poucas pessoas se podem dar ao luxo de não ter redes sociais, mais ainda trabalhando com cultura em Portugal.
Há pouco falavas do olhar pueril sobre as coisas e isso remeteu-me para o tema Flamingo, em que abordas a maternidade. Falas da maternidade como algo que te deixou quase cinza, como os flamingos que desbotam a cor quando amamentam, mas também como processo de transformação. Foi a maternidade que te devolveu o olhar pueril?
Flamingo é uma canção que fala sobre o hiato entre um disco e o outro. Para mim, como mulher, mãe, artista foi muito óbvio que aquilo que a maternidade nos exige, enquanto disponibilidade, não só emocional, mas de tempo e de força vital, está no mesmo domínio daquilo que a criação nos exige. A criação dos filhos e a criação artística, de certa forma, ocupam o mesmo espaço da nossa pulsão de vida. Nos primeiros anos de maternidade senti que conseguia escrever, mas que era muito difícil fazer música. Quando se misturou com a pandemia, tudo se tornou ainda mais pesado. Isso teve um impacto grande, não só na minha motivação para fazer música, mas também na minha forma de ver as coisas, para o bem e para o mal. Ou seja, acho que a maternidade é uma experiência transformadora e avassaladora e que, sendo muito desgastante por um lado, também nos renova por outro, porque nos dá a oportunidade de ver um ser humano a olhar para tudo pela primeira vez. Isso faz com que limpemos as lentes foscas que o tempo foi embaciando e convida-nos a ver as coisas com o olhar de encantamento, de estreia e de novidade. É muito inspirador, sem dúvida, para uma pessoa que gosta de cultivar esse lado. Agora estou super motivada outra vez para fazer música e entusiasmada com o disco novo.
Convidaste o Toty Sa’med, que canta o refrão da Ao Ocaso, a Gisela João, que participa em Danúbio, e as Sopa de Pedra, que fazem o coro da Souvenir. Porquê estas colaborações?
As parcerias nos meus discos são sempre escolhidas pela canção, que me pede uma determinada pessoa. Quando escrevi a Ao Ocaso, comecei pelo refrão, que é uma coisa pouco habitual em mim, e de imediato aquele refrão soou na minha cabeça com a voz, o sotaque e o balanço do Toty. Quando ele chegou ao estúdio, senti mesmo que as canções são sábias e que tinha acertado na mouche. A Gisela surgiu, porque o refrão tem uma guitarra do Pedro Geraldes que é meio fado. É uma canção bastante grave e tem uma escuridão e ambiente subterrâneos que casam bem com a voz grave dela, que vem das entranhas da terra. Depois, a Gisela ainda gravou um assobio que acentuou o lado Ennio Morricone e o western spaghetti da canção. Ficou mesmo perfeito. Já o refrão da Souvenir, senti que tinha de ser cantado em coletivo, como um coro de fantasmas, mas ao mesmo tempo queria que se parecesse com uma manif. Pensei que as Sopa de Pedra eram ideais, porque além de admirar o trabalho delas, são mulheres do Porto, como eu. Aquela canção fala sobre a cidade, não só a cidade do Porto, mas a ideia da cidade como um tecido de gentes, relações, histórias, memórias e sedimentos que se cruzam. As vozes das Sopa de Pedra, quando juntas, ganham texturas e espacialidade. Há partes em que a canção é fantasmagórica e há partes em que é mobilizadora. É a minha música mais Tim Burton.
▲ "A memória real daquilo que compõe o Porto como organismo vivo e não como um cenário para tirar selfies está a ser desrespeitada e está a ser erodida com a pressão imobiliária, urbanística, turística"
IGOR MARTINS / OBSERVADOR
Sentes-te um fantasma na tua cidade?
Não me sinto um fantasma, mas sinto que a cidade trata mal a sua memória, no sentido em que está muito focada para o acontecimento, para a marca e para ser uma sala de visitas. A memória é evocada quase como se fosse uma coisa meio pastiche, meio para inglês ver. A memória mais importante da cidade não é essa coisa iconográfica, de marketing, mas antes a memória que está nos lugares, nas pessoas que se conhecem, nos empregados de mesa que sabem o nome dos clientes e sabem que a mulher está doente e que o filho anda no futebol. É na mercearia, em que o merceeiro sabe o que é que as pessoas costumam encomendar todas as semanas, é no barbeiro que conhece de cor o nome dos clientes, é nas vizinhanças. Essa memória, que é a memória viva, é a mais importante para que o tecido social da cidade se mantenha coeso. Mas as pessoas estão a ser expulsas e o tecido está-se a deslaçar. Nesse sentido, acho que a memória real daquilo que compõe a cidade como organismo vivo e não como um cenário para tirar selfies está a ser desrespeitada e está a ser erodida com a pressão imobiliária, urbanística, turística e especulativa, enquanto se está a preservar uma memória que é quase uma caricatura da identidade da cidade.
Não há cidade do futuro sem memória?
Há essa ideia de que a cidade se projeta sempre para a frente, mas a cidade sem passado não é nada. Sem esses laços que trouxeram a cidade até aqui, a cidade é um espaço cenográfico, uma representação artificial de uma cidade que já não existe.
Dizes não te sentir como um fantasma, mas então como é a tua relação com a cidade?
Considero-me uma resistente, daquelas que está a tentar não ser expulsa do Porto e que quer ficar. Como digo na Circunvalação, do Madrepérola, queremos ficar com a roupa a secar à janela, que é uma coisa que cada vez se vê menos aqui na Ribeira, infelizmente. Só nos cartões postais é que ainda há roupa a secar na Ribeira.
[“Making Teenage Ana Proud”:]
Vais ter dois concertos em duas salas nas quais nunca atuaste: no Teatro Tivoli, em Lisboa, no dia 20 de março, e na Sala Suggia da Casa da Música, no Porto, a 27 de março. O que podemos esperar desses espetáculos?
Os concertos incidirão sobretudo nas canções do disco e terão uma forte componente visual, que trabalhei com o André Tentúgal. Estarei em palco com a minha banda habitual e com a Gisela João em Lisboa e com as Sopa de Pedra no Porto. Vão ser datas de muita emoção, porque as estreias são sempre muito intensas. Os discos parecem que não existem até chegarem a palco. Só se concretizam ali.
É como a gravidez e o parto?
É sim. É como se tivesse estado estes meses todos de gestação até que o parto se dá no palco. Isso emociona-me muito. Espero que as pessoas venham e que gostem.
Achas que a Ana adolescente, que se encontrava no cubo com os amigos, está orgulhosa de ti?
Só o facto de ter feito do rap uma profissão, se ela me encontrasse aqui na rua acho que me ia dizer, “superaste as minhas expectativas”. Agora é só manter o espírito insubmisso e continuar.