A oposição decidiu não poupar o Governo no que toca à reação à tempestade Kristin. No Parlamento, o ministro dos Assuntos Parlamentares, Carlos Abreu Amorim, passou a tarde a responder aos tiros dos partidos, que criticaram uma alegada falta de liderança do primeiro-ministro, a falta de novidades sobre apoios aos afetados e os sistemas que falham, como o SIRESP. O representante do Governo ouviu, mostrou-se indignado e atacou de volta, acusando quem o criticava — nomeadamente o PS — de fazer “chicana política a partir da desgraça de todos”.

Tanto nos corredores parlamentares como na campanha presidencial, o assunto invadiu os discursos políticos. E, no plenário — numa tarde em que os deputados se dedicaram a fazer “declarações políticas” sobre o tema que preferissem — o PS foi o primeiro a escolher falar do assunto, e logo em termos duros:  “Mais uma vez, como no apagão e nos incêndios, o Governo primeiro tenta perceber se passa a onda e depois vem aqui tentar passar um pano por 24 horas de silêncio”, atacou, criticando ainda o suposto “desaparecimento de uma ministra que não existe sempre que há um problema”, em referência à responsável pela Administração Interna, Ana Paula Martins (que esteve ao lado de Montenegro numa visita à sede da Autoridade Nacional da Proteção Civil mas não falou).

Os socialistas não estiveram sozinhos nas críticas. As falhas do SIRESP foram dos temas mais usados para falar em falhas do Estado e do Governo — Pedro Pinto, do Chega, também colocou o PS como “rosto da culpa” porque já em Pedrógão o sistema tinha falhado, lembrando que desta vez havia avisos do IPMA sobre a severidade da tempestade. “Falhou o Estado, falhámos todos nós”, acrescentou.

Na IL, algumas críticas comuns: Mariana Leitão considerou que o Governo e o primeiro-ministro “não estiveram à altura dos acontecimentos” — assim como mais em concreto Maria Lúcia Amaral, que esteve “em parte incerta” — e que não é “aceitável” que haja mais falhas do SIRESP. Também olhou para o futuro, voltando a atacar o Governo: “Não é aceitável dizer que é cedo para falar de apoios”. Já o líder parlamentar dos liberais, Mário Amorim Lopes, concordou que “algo falhou”: “O Governo não pode impedir uma intempérie, mas tem de assegurar que o Estado funciona com firmeza e celeridade”.

À esquerda, reações e diagnósticos parecidos: Isabel Mendes Lopes, do Livre, disse que não é possível dizer que o sistema de proteção civil não falhou — “se não falhou, está mal montado”; Paula Santos, do PCP, pediu que o Governo esclareça que apoios vai dar às pessoas e empresas afetadas; Fabian Figueiredo, do Bloco de Esquerda, lembrou que houve “diversos” alertas feitos por entidades independentes; Inês Sousa Real, do PAN, frisou que a legislação deve permitir que os trabalhadores faltem ao trabalho em episódios climáticos extremos; e Filipe Sousa, do JPP, pediu que o Governo esclareça “quando é que os agricultores é que poderão candidatar-se e receber apoios financeiros”.

O Governo trazia algumas respostas, embora umas mais concretas do que outras. Desde logo, o ministro começou por falar dos “efeitos duros e extremados” da tempestade para referir a “força incontrolável” da natureza — e perante isso, quis garantir, o sistema de proteção civil funcionou, minimizando consequências e antecipando riscos. “A prontidão demonstra a maturidade do nosso sistema de Proteção Civil”, assegurou, perante uma oposição cética.

Em termos de apoios, Abreu Amorim disse que o Governo “não deixará de dar as respostas exigidas e necessárias”, com três prioridades: apoio imediato às vítimas, às autarquias e uma avaliação rigorosa e transparente do que aconteceu. “O Governo assume a responsabilidade de agir”, defende. “Cada decisão visa repor a normalidade rapidamente sem deixar ninguém para trás. Onde for necessário ir mais longe, o Governo assim fará”.

Quanto a respostas concretas, o governante afirmou que os formulários para apoios a agricultores afetados já estão disponíveis nas CCDR e acrescentou que foram enviados 140 geradores para unidades de saúde entre esta quarta e quinta-feita.

E, frisando — como Montenegro tem frisado — que mesmo que o pior já tenha passado é preciso que “todos mantenham a prudência”, prometeu que o Estado responderá com seriedade e respeito pelos afetados. “Mesmo quando o extremar da situação ultrapassa as previsões de todos, os portugueses podem confiar no Estado”, insistiu. Montenegro, frisou, também foi esta quinta-feira ao terreno para dar um sinal “claro e equívoco” de apoio aos afetados — depois de já ter ouvido críticas pela sua reação no apagão e nos incêndios do verão passado.

Abreu Amorim também se dedicou a responder aos renovados ataques. Desde logo, partiu ao ataque contra Eurico Brilhante Dias, defendendo que o Governo esteve ativo na prevenção e que foram emitidos os avisos mais gravosos possíveis. “O Governo deslocou-se à Autoridade Nacional da Proteção Civil. Quando o primeiro-ministro está, não vale a pena outros membros do Governo falarem. Há liderança e essa liderança fez com que a máquina do Estado pudesse atuar”, garante.

“Obviamente não vamos dizer que tudo correu às mil maravilhas, independentemente de o fenómeno ter tido alguns aspetos extremados que não eram previsíveis”, defendeu, mas disse ver uma contradição entre o apelo à responsabilidade de Eurico Brilhante Dias e depois “de forma lamentável usar esta tragédia para um aproveitamento político”. “Não esperava isso nem de si nem de um partido com as responsabilidades do PS (…) tentar fazer chicana política a partir da desgraça de todos”.

O sistema pode ter tido “uma ou outra fraqueza”, mas nenhuma “falha sistémtica”; e o primeiro-ministro tem mostrado “liderança”, foi argumentando. No Parlamento só teria a ajuda do parceiro de coligação, o CDS: Paulo Núncio criticou a “leviandade e ligeireza” com que Eurico Brilhante Dias “tentou aproveitar a tragédia e a morte. É uma autêntica vergonha e não respeita nem honra a nossa democracia”, disparou.