A certa altura da segunda parte, sobretudo nos últimos dez minutos, tudo começava a ficar mal parado para Portugal. A primeira linha sueca tinha engatado e era cirúrgica na concretização de todos os ataques, os dois golos de diferença não baixavam, as situações de inferioridade numérica por exclusão não ajudavam, estava a ficar mais evidente do que nunca o desgaste acumulado do oitavo encontro em alta rotação num grupo que era curto em algumas necessidades como a organização defensiva. Quando a menos de três minutos do final Salvador Salvador caiu “enrolado” por um escandinavo, não se conseguiu levantar de imediato. Ficou no chão, respirou fundo, como que encheu o peito para o pouco que faltava. Ali, naquela altura, levar o jogo para prolongamento já seria bom. Como em tudo, os Heróis do Mar queriam mais. Queriam e conseguiram.

O melhor estava para vir: Portugal vence Suécia nos últimos segundos e conquista histórico quinto lugar no Europeu de andebol

A Suécia anulou a vantagem que Portugal entretanto recuperara mas teve um “problema”: deixou ainda seis segundos no marcador. Paulo Jorge Pereira pediu de imediato um desconto de tempo para que não fosse perdido mais tempo no reatamento do jogo, arriscou um 7×6 com dois pivôs a tentarem bloquear ao máximo os defensores de zona central dos suecos e colocou a bola nas mãos de um dos irmãos Costa. Como é mais habitual neste tipo de situações limite, Francisco recebeu de Rui Silva e fez o cruzamento, Martim assumiu num remate picado cruzado para o poste oposto e a Seleção acabou em festa o Europeu, com um histórico quinto lugar carimbado nos derradeiros segundos a premiar mais uma fase final de exceção, quiçá a mais complicada entre todas aquelas que a equipa enfrentou desde o início da atual ascensão em 2020.

Portugal estava qualificado mas quis mais. Quis tanto que fez seu o reino da Dinamarca e bateu a tetracampeã mundial

Depois da histórica vitória com a Dinamarca, Portugal caiu num grupo da main round que tinha apenas equipas campeãs olímpicas, mundiais ou europeias à exceção da Noruega… que foi quatro vezes vice-campeã mundial. Num plano meramente teórico, e olhando para os conjuntos do grupo II, a Seleção teria muito mais hipóteses de chegar às meias-finais na outra poule que acabaria por apurar Croácia e Islândia (e que vão agora jogar pelo bronze, após perderem com Alemanha e Dinamarca, respetivamente). O sorteio estava feito assim, foi assim que os Heróis do Mar quiseram desafiar o objetivo de alcançarem a melhor participação de sempre num Europeu, superando o sexto lugar de 2020. No final, conseguiram. Conseguiram mais uma vez história, conseguiram outra vez mostrar que há sempre mais um pouco de história por escrever.

Até começar este ciclo, Portugal nunca tinha ido aos Jogos Olímpicos, contava com um 12.º lugar como o melhor resultado em Mundiais e acabara por duas vezes no top 10 de Europeus (sétimo em 2000, nono em 2002). O que aconteceu a partir de 2020? Tudo. Houve edições que não correram bem, como o Europeu de 2022 ou o Mundial de 2023, mas a Seleção teve o mérito de consolidar-se como uma equipa de patamar bem mais próximo do que os melhores – algo reforçado pelas equipas de formação, como os Sub-21 que se sagraram vice-campeões mundiais em 2025 ou os Sub-20 que tinham sido vice-campeões da Europa. É assim que se explica e percebe a sexta posição no Europeu de 2020, a primeira participação de sempre nos Jogos Olímpicos de Tóquio, a quarta posição no último Mundial ou o quinto lugar neste Europeu tendo pelo meio uma tragédia complicada de superar com o desaparecimento de Alfredo Quintana.

E se o coletivo é forte, a ponto de já ter garantido as participações no próximo Mundial e Europeu pelo que consegue fazer, as individualidades também se acabam por destacar. Francisco Costa, que deve acabar como segundo melhor marcador do Europeu apenas superado pelo dinamarquês Mathias Gidsel, está nomeado para a Equipa Ideal e para Melhor Jogador Jovem, ao passo que o irmão Martim Costa e Salvador Salvador também surgem entre os nomes a votação depois de Martim ter entrado na Equipa Ideal da prova em 2024, a par dos de novo chamados Andreas Wolff, Juri Knorr, Mathias Gidsel, Ludovic Fabregas e Magnus Ausgstrup (só mesmo Nédim Rémili falha essa “repetição”, após falhar esta fase final por lesão).

“Trabalhámos muito para isto. Vamos entrando na rotina da equipa, as configurações vão ganhando forma com a competição, fica tudo muito mais fácil depois para decidir, para termos as opções na hora, mais prontas e rápidas. Embora tivesse sido um jogo que podia cair para os dois lados, o que é certo é que o nosso magnífico Martim, que é sempre chamado ao serviço nos momentos em que é necessário fazer algo deslumbrante, fez outra vez algo deslumbrante mas isto acaba por ser sempre um trabalho de todos que se comprometeram, desde o início, a perseguir este objetivo de melhorar o sexto lugar, que era algo grandioso”, começou por comentar o selecionador Paulo Jorge Pereira, em declarações ao site oficial da FPA.

“Ser menos efusivos nas vitórias e menos derrotistas”: o que se segue para Portugal no Europeu após a histórica vitória frente à Dinamarca

“Vimos que ganhar aqui este jogo à Suécia foi extraordinário e cada vez mais me envaidece e me orgulha de poder trabalhar com jogadores tão competitivos. Todos deram de si o que tinham e às vezes o que não tinham, isso enche-me de orgulho e até me emociona um pouco. Vemos que, cada vez mais, estabelecemos objetivos muito ambiciosos e depois lutamos por eles, até a exaustão, trabalhando o máximo que podemos, e acabamos por conseguir atingi-los. Os astros alinham-se, também há uma certa energia que se vai acumulando com alguns fatores também extra que, no fundo, também são combustível para nós. Portanto, foi extraordinário o que este grupo fez”, acrescentou ainda sobre esse feito histórico conseguido em Herning.

“Foi mais uma dura batalha até ao último segundo. Foi fantástico. A sensação com que ficamos é de que podemos perder e podemos ganhar. Quando se atinge um nível altíssimo em andebol, o céu e o inferno andam sempre muito próximos um do outro. Desta vez, caímos para o céu, haverá vezes em que vamos cair para o inferno. Pelo facto de nos termos conseguido manter competitivos durante todo o jogo, com alguns altos e baixos por diferentes fatores, acabámos por merecer esta vitória. Acho que os portugueses têm de estar extremamente orgulhosos deste grupo de pessoas”, comentou depois, citado pela agência Lusa.

“O tentar acho que pode ficar curto quando as metas são ambiciosas. Temos de tratar de fazer, depois logo vemos o que acontece. Este objetivo que atingimos aqui é extremamente difícil de atingir. Estivemos firmes em todos os jogos, com alguma exceção no jogo com a França, que é campeã da Europa. Toda a gente pode ganhar a toda a gente. O bonito desta história é que estamos no meio desta gente. O mais difícil agora é mantermos esta constância, mas já vamos estar presente em mais duas competições [Mundial-2027 e Euro-2028]. É preciso continuar e, como digo sempre, não nos deslumbramos muito. A partir daqui partiremos para outro voo”, concluiu o selecionador que leva mais de uma década no comando de Portugal.

“É o melhor Europeu de sempre da Seleção. Estamos super felizes, queríamos muito ganhar este jogo e esta equipa merecia atingir isto. Estamos todos de parabéns. Fizemos um grande jogo, contra uma grande seleção como é a Suécia”, destacou Martim Costa. “A cada ano e a cada jogo, tentamos superar-nos a nós próprios. Sabemos que este grupo é capaz de fazer coisas muito bonitas e estamos no caminho certo. Hoje, conseguimos o melhor desempenho de sempre em Europeus e continuamos a sonhar. Temos todos um grande caminho pela frente para conseguirmos grandes coisas”, salientou Victor Iturriza. “É o final perfeito. O cenário desta noite foi, mais uma vez, incrível. Daqui a alguns dias, vamos olhar para a classificação e dizer que o que fizemos foi inacreditável. Temos estado a escrever a história do desporto em Portugal nos últimos anos, e a única coisa que posso esperar é que possamos continuar neste caminho”, reforçou Luís Frade.

“Vivi com uma enorme emoção. Foi absolutamente espetacular. Um jogo intenso da nossa Seleção, que é, de facto, extraordinária. É a melhor de sempre e está no top 5 da Europa. Batemo-nos com as melhores seleções do Mundo. Este grupo é fabuloso. O staff e a equipa técnica mereciam este quinto lugar. Montámos, ao longo dos últimos anos, uma estratégia de sustentação de várias seleções para poder fazer o que está a acontecer aqui, que é uma renovação tranquila da Seleção principal. É um sucesso que tem acontecido muito rápido, com o apoio dos clubes nacionais, que têm sido extraordinários na aposta que têm feito no andebol. No último Mundial fomos quartos, agora aqui quintos e estamos no top 5 das melhores do Mundo. Vamos para o Mundial como a mesma postura de sempre, com respeito pelas outras equipas e com a ambição de chegar cada vez mais longe. Temos uma equipa jovem e com experiência, e muitos jovens que podem progredir. O céu é mesmo o limite”, comentou também Miguel Laranjeiro, presidente da Federação.

[Esta é a história de como dezenas de portuguesas se juntaram a mulheres de vários outros países e se tornaram seguidoras de uma seita controlada por um guru manipulador. Recrutadas numa escola de yoga em Lisboa, muitas acabaram em casas de massagens eróticas ou a serem filmadas em cenas de sexo e orgias. “Os segredos da seita do yoga” é o novo Podcast Plus, do Observador. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Daniela Ruah, com banda sonora original de Benjamim. Ouça o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]