Grand National Experimental. Traduzido à letra fica algo como “grande experiência nacional”; ou, como é mais conhecido, simplesmente GNX. 37 anos separam o modelo Buick Regal do álbum do mesmo nome, editado no final de 2024 por Kendrick Lamar. Um álbum que serviu a dois tempos como homenagem às suas raízes, forjadas na sonoridade hip-hop da Costa Oeste dos EUA, bem como uma “volta olímpica” do rapper de Compton, após um ano em que a vitória no beef contra Drake o cimentou como estrela maior do mundo do hip-hop. Um estatuto que ficou ainda mais claro depois de Lamar ser anunciado como artista principal do espetáculo de intervalo da 59.ª Super Bowl, a final da National Football League (NFL), o primeiro rapper a ter essa distinção a solo.
Se a curiosidade era muita para ver como é que o artista, sempre teatral e político, se apresentaria no mais mainstream dos eventos desportivos e culturais norte-americanos — e que indiretas incluiria para o “rival” canadiano — é seguro dizer-se que Kendrick correspondeu às expectativas. Ao longo de cerca de 14 minutos, o rapper monopolizou a atenção dos milhões que assistiam pela televisão e das cerca de 75 mil pessoas que encheram a Ceaser’s Superdome, em Nova Orleães, entre elas um convidado de honra: o Presidente dos EUA, Donald Trump, que marcou presença no evento.
Com a ida do chefe de Estado norte-americano a sinalizar o “degelo” na sua relação com a NFL (recorde-se que, no primeiro mandato, Trump entrara em guerra com a liga de futebol americano em virtude dos protestos dos jogadores face ao hino nacional), e um dia depois de a organização ter anunciado que ia retirar da end zone do relvado a frase “End Racism” (“Acabem com o Racismo”), Lamar foi fiel a si próprio, numa atuação carregada de simbolismo político e que contou com vários convidados. A começar por Samuel L. Jackson, que abriu as hostilidades vestido à moda do famoso “Tio Sam”, dando a todos as boas-vindas ao “grande jogo americano”.
Kendrick Lamar's Full Super Bowl Halftime Show performance #SuperBowl pic.twitter.com/OxZED0YXDn
— popculture (@notgwendalupe) February 10, 2025
Em palco, em cima do Buick GNX, Lamar lançou-se nos versos do teaser que disponibilizou ao mundo no dia do lançamento-surpresa do álbum. Seguiram-se alguns versos de squabble up, um dos principais êxitos do último disco, rodeado de bailarinos vestidos de vermelho, azul e branco, as cores nacionais. “A revolução vai ser televisionada. Escolheram a hora certa, mas o tipo errado”, alertou Lamar; fora do palco, o “Tio Sam” L. Jackson intervinha para criticar os procedimentos: “demasiado alto, demasiado descuidado, demasiado gueto”.
Seguiram-se dois temas de DAMN., disco de 2017, que proporcionaram o momento mais abertamente político da noite. Em HUMBLE., o seu primeiro número 1 na América, Lamar e os dançarinos, todos eles afroamericanos, formavam uma moldura humana da bandeira dos EUA; depois, o explosivo DNA., com o rapper de 37 anos a comandar os bailarinos como se de um exército se tratassem, enquanto discorria sobre a herança cultural que lhe corre no sangue.
[Terapia de Casal é o podcast que pode acabar com o casamento do Guilherme Fonseca e da Rita da Nova. Ouça aqui o novo episódio, que também está disponível nas plataformas de podcast.]
A partir daqui, o alvo mudou. Se na primeira parte da atuação Lamar colocou o dedo na ferida do legado racial da América, depois da diss track euphoria o foco voltou-se para Drake, rapper com o qual protagonizou em 2024 uma das mais mediáticas rivalidades das últimas décadas do hip-hop e da indústria musical (e que valeu a Lamar muitos dividendos, comerciais e críticos). Que saiu vencedor, é consensual; que a forma como abordaria o assunto era um dos principais tópicos de curiosidade da noite, também. Kendrick sabia-o e divertiu-se a brincar com as expectativas do público. Depois de um regresso a GNX e um breve interlúdio pelos temas man at the garden e peekaboo, levantou o véu: “quero tocar a música favorita deles, mas sabem que adoram processar”, rimou por cima dos primeiros acordes de Not Like Us, numa referência aos processos judiciais de Drake contra Lamar e a Universal Music Group. “Não, sabem que mais, vou abrandar”.
Que entre SZA, sua colaboradora frequente e a única convidada previamente anunciada pela NFL. A voz atual do R&B concentrou as atenções num breve medley que incluiu os duetos luther, do último álbum, e All the Stars, escrita para o filme Black Panther (2018), cuja banda sonora teve a curadoria do músico. “Isso mesmo, é isto que a América quer”, interveio Jackson pela última vez. “Estás quase lá, agora não estragues…”
A frase ficou por acabar. Primeiro, Kendrick declarou a sua intenção: “40 acres and a mule, isto é maior do que a música” em referência à falsa promessa feita aos escravos emancipados depois da Guerra Civil Americana. Depois, entrou finalmente Not Like Us, o êxito que decidiu em definitivo a rap battle do ano passado. A referência direta a Drake arrancou mesmo um sorriso a Lamar, num momento que contou com a colaboração de todo o estádio e um cameo de Serena Williams, também ela criada em Compton e que teve uma breve e conturbada relação com o rapper canadiano.
Para o final da frenética atuação ficou tv off, single viral de GNX que contou com uma aparição de Mustard, DJ e produtor responsável pelo tema (e por Not Like Us). “turn this tv off”, desliguem a televisão, concluiu o rapper antes de sair do palco, onde a cada canto se erguiam uma cruz, um círculo, um triângulo e um quadrado — os símbolos da consola de jogos Playstation. As luzes do estádio apagaram-se e, nas bancadas, surgia uma mensagem iluminada para um (ou talvez mais do que um) destinatário: “Game Over” na América de Kendrick Lamar.