A família nasceu com os patins calçados. A mãe, Tatiana, foi patinadora artística e competiu pelo Uzbequistão nos Jogos Olímpicos de inverno de 1998 e foi campeã nacional em dez ocasiões. O pai, Roman e também ele patinador artístico, esteve nos Jogos Olímpicos de inverno de 1998 e 2002 e também foi campeão nacional uzbeque em sete ocasiões. E até a avó, Valery, chegou a representar a União Soviética e é atualmente treinadora de jovens patinadores. Ilia, portanto, não tinha grande opção. 

Aos 21 anos, Ilia Malinin é atualmente o nome maior da patinagem artística mundial. Apesar da ascendência da família, já nasceu nos EUA em 2004 e representa os norte-americanos, tendo começado a patinar no gelo com pouco mais do que seis anos. É bicampeão mundial, já venceu a final do Grand Prix em três ocasiões e é tetracampeão nacional. Em Milão-Cortina, nos Jogos Olímpicos de inverno que estão a decorrer, estreou-se nas andanças olímpicas — e desde logo a fazer história.

Ainda este sábado, no programa curto do evento por equipas, concluiu um backflip, um salto mortal para trás, com os dois pés. Este domingo, na prova livre, elevou a fasquia e demonstrou um backflip com apenas um pé, ou seja, aterrando no gelo em cima de uma única lâmina. Ambos os movimentos estiveram banidos das competições internacionais desde 1976 e até 2024, por serem demasiado perigosos para a integridade física dos patinadores que os tentavam, e Ilia Malinin tornou-se agora o primeiro a alcançá-los depois de uma proibição de 50 anos —  o primeiro homem, já que a francesa Surya Bonaly, nos Jogos de Nagano em 1998, também concluiu um backflip com um pé, mas foi penalizada na pontuação.

A prestação individual de Ilia Malinin acabou por garantir a revalidação da medalha de ouro olímpica por parte dos EUA no evento por equipas: os norte-americanos até estavam no segundo lugar depois da conclusão do programa livre feminino, atrás do Japão, mas os 200.03 pontos que o patinador registou sozinho garantiram a vitória. Novak Djokovic estava na Milano Ice Skating Arena e foi filmado a reagir efusivamente ao backflip do norte-americano, colocando as mãos na cabeça, com Ilia Malinin a mostrar-se incrédulo com o facto de o tenista o ter visto competir.

“Vi o Djokovic lá e foi surreal. Todos me disseram que depois de ter aterrado o ‘backflip’ ele ficou sem palavras e pôs as mãos na cabeça. Pensei que era incrível. É um momento que se vive uma vez na vida, ter um tenista famoso a assistir à minha performance”, disse o patinador natural do Estado da Virginia, onde frequentou a George Mason University. Apesar de ainda ter vários anos de carreira pela frente, Ilia Malinin tem plena noção de que quer ser muito mais do que um atleta e até já tem uma inspiração: The Rock.

“Um dos meus objetivos é definitivamente tornar-me uma celebridade global mundial e isso está relacionado com a patinagem. Algo como o The Rock: era conhecido pelo ‘wrestling’, mas depois virou ator e passou a ter todas aquelas oportunidades diferentes. A minha ideia é ser parecido a esse nível”, explicou o norte-americano numa entrevista recente à revista Forbes, sendo que já é o patinador artístico mais bem pago dos Jogos Olímpicos de inverno.

Já nascido no século XXI, porém, conta com as redes sociais para atingir esse objetivo. Aos 13 anos, quando realizou o primeiro salto quádruplo em competição, mudou o nome da conta pessoal do Instagram para “ilia_quadg0d_malinin”, passando a ser tratado por Quad God, Deus dos quádruplos. “Há mais pessoas a conhecerem-me por ‘Quad God’ do que pelo nome, definitivamente. E às vezes isso é bom, porque ter uma alcunha própria faz com que consiga destacar-me mais junto do público”, indicou recentemente.

A verdade é que a alcunha autoimplementada foi uma espécie de profecia que conseguiu completar. Ilia Malinin dominou todos os seis tipos mais comuns de saltos quádruplos e tornou-se o primeiro (e ainda único) e a realizar um axel quádruplo, quatro rotações e meia no ar antes de aterrar de costas. Para além disso, é também o único patinador a completar sete saltos quádruplos num único programa livre. Pode não ser Deus, mas faz o que mais ninguém consegue.

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