A família nasceu com os patins calçados. A mãe, Tatiana, foi patinadora artística e competiu pelo Uzbequistão nos Jogos Olímpicos de inverno de 1998 e foi campeã nacional em dez ocasiões. O pai, Roman e também ele patinador artístico, esteve nos Jogos Olímpicos de inverno de 1998 e 2002 e também foi campeão nacional uzbeque em sete ocasiões. E até a avó, Valery, chegou a representar a União Soviética e é atualmente treinadora de jovens patinadores. Ilia, portanto, não tinha grande opção.
Aos 21 anos, Ilia Malinin é atualmente o nome maior da patinagem artística mundial. Apesar da ascendência da família, já nasceu nos EUA em 2004 e representa os norte-americanos, tendo começado a patinar no gelo com pouco mais do que seis anos. É bicampeão mundial, já venceu a final do Grand Prix em três ocasiões e é tetracampeão nacional. Em Milão-Cortina, nos Jogos Olímpicos de inverno que estão a decorrer, estreou-se nas andanças olímpicas — e desde logo a fazer história.
Historia pura sobre el hielo.
Ilia Malinin causó sensación en los Juegos Olímpicos al ejecutar un backflip prohibido durante casi 50 años, y lo hizo limpio sobre una sola cuchilla. Simplemente increíble.#IliaMalinin #JuegosOlímpicos #PatinajeArtístico pic.twitter.com/3I3DWY2Erz— Abraham Rivera (@Abraham_Rivera3) February 9, 2026
Ainda este sábado, no programa curto do evento por equipas, concluiu um backflip, um salto mortal para trás, com os dois pés. Este domingo, na prova livre, elevou a fasquia e demonstrou um backflip com apenas um pé, ou seja, aterrando no gelo em cima de uma única lâmina. Ambos os movimentos estiveram banidos das competições internacionais desde 1976 e até 2024, por serem demasiado perigosos para a integridade física dos patinadores que os tentavam, e Ilia Malinin tornou-se agora o primeiro a alcançá-los depois de uma proibição de 50 anos — o primeiro homem, já que a francesa Surya Bonaly, nos Jogos de Nagano em 1998, também concluiu um backflip com um pé, mas foi penalizada na pontuação.
A prestação individual de Ilia Malinin acabou por garantir a revalidação da medalha de ouro olímpica por parte dos EUA no evento por equipas: os norte-americanos até estavam no segundo lugar depois da conclusão do programa livre feminino, atrás do Japão, mas os 200.03 pontos que o patinador registou sozinho garantiram a vitória. Novak Djokovic estava na Milano Ice Skating Arena e foi filmado a reagir efusivamente ao backflip do norte-americano, colocando as mãos na cabeça, com Ilia Malinin a mostrar-se incrédulo com o facto de o tenista o ter visto competir.
“Vi o Djokovic lá e foi surreal. Todos me disseram que depois de ter aterrado o ‘backflip’ ele ficou sem palavras e pôs as mãos na cabeça. Pensei que era incrível. É um momento que se vive uma vez na vida, ter um tenista famoso a assistir à minha performance”, disse o patinador natural do Estado da Virginia, onde frequentou a George Mason University. Apesar de ainda ter vários anos de carreira pela frente, Ilia Malinin tem plena noção de que quer ser muito mais do que um atleta e até já tem uma inspiração: The Rock.
Un Novak Djokovic incredulo davanti all’esibizione di Ilia Malinin alle Olimpiadi di Milano Cortina 2026 ???? pic.twitter.com/gmkc1XE6w8
— SuperTennis TV (@SuperTennisTv) February 9, 2026
“Um dos meus objetivos é definitivamente tornar-me uma celebridade global mundial e isso está relacionado com a patinagem. Algo como o The Rock: era conhecido pelo ‘wrestling’, mas depois virou ator e passou a ter todas aquelas oportunidades diferentes. A minha ideia é ser parecido a esse nível”, explicou o norte-americano numa entrevista recente à revista Forbes, sendo que já é o patinador artístico mais bem pago dos Jogos Olímpicos de inverno.
Já nascido no século XXI, porém, conta com as redes sociais para atingir esse objetivo. Aos 13 anos, quando realizou o primeiro salto quádruplo em competição, mudou o nome da conta pessoal do Instagram para “ilia_quadg0d_malinin”, passando a ser tratado por Quad God, Deus dos quádruplos. “Há mais pessoas a conhecerem-me por ‘Quad God’ do que pelo nome, definitivamente. E às vezes isso é bom, porque ter uma alcunha própria faz com que consiga destacar-me mais junto do público”, indicou recentemente.
A verdade é que a alcunha autoimplementada foi uma espécie de profecia que conseguiu completar. Ilia Malinin dominou todos os seis tipos mais comuns de saltos quádruplos e tornou-se o primeiro (e ainda único) e a realizar um axel quádruplo, quatro rotações e meia no ar antes de aterrar de costas. Para além disso, é também o único patinador a completar sete saltos quádruplos num único programa livre. Pode não ser Deus, mas faz o que mais ninguém consegue.
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