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A exposição “Habitar Portugal 1974—2024”, que é esta quarta-feira inaugurada no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, reúne uma seleção de 100 projetos de arquitetura dentro e fora de Portugal ao longo de 50 anos de democracia.
Comissariada pelos arquitetos Alexandra Saraiva, Célia Gomes e Rui Leão, esta edição especial da iniciativa da Ordem dos Arquitectos em parceria com o centro de arquitetura do Museu de Arte Contemporânea do Centro Cultural de Belém (MAC/CCB) estará patente ao público até 26 de abril.
Em evidência, nesta seleção, estarão obras como o Bairro 11 de Março, em Olhão, de José Maria Lopes da Costa, a Pousada de Santa Marinha da Costa, em Guimarães, de Fernando Távora, a Casa das Mudas, na Madeira, de Paulo David, ou a Embaixada de Portugal em Brasília, de Raúl Chorão Ramalho.
Lançada em 2003, a exposição “Habitar Portugal” visa divulgar a arquitetura contemporânea produzida por arquitetos portugueses em Portugal e no estrangeiro procurando destacar a abrangência territorial, diversidade de autores e representatividade das obras “selecionadas como um referencial da qualidade da arquitetura portuguesa e do seu contributo para o desenvolvimento económico e social do país”, assinala a organização.
Para a sétima edição, dedicada ao período entre 1974 e 2024, a Ordem dos Arquitetos desafiou uma equipa curatorial com experiências profissionais e geográficas distintas para assinalar meio século de arquitetura portuguesa em democracia, “num contexto marcado por profundas transformações políticas, sociais, económicas e territoriais”, justifica a entidade.
Para além da apresentação das obras, a exposição propõe uma leitura alargada da arquitetura produzida desde o último quartel do século XX até à atualidade, integrando diferentes escalas, programas e contextos e convidando o público a refletir sobre o significado contemporâneo de habitar em Portugal.
A mostra está dividida em três eixos temáticos: o primeiro, “Arquitetura como gesto político”, reúne obras que evidenciam o papel da arquitetura como instrumento de transformação social, desde a habitação social à infraestrutura urbana, dando como exemplos o Conjunto Habitacional Pantera Cor de Rosa, em Lisboa, de Gonçalo Byrne e António Reis Cabrita, a Câmara Municipal de Matosinhos, de Alcino Soutinho, a Assembleia Regional dos Açores, de Manuel Correia Fernandes, exemplos da dimensão social, institucional e simbólica da arquitetura produzida após 1974.
No segundo eixo — “A persistência da memória” — é valorizada a intervenção no património edificado, destacando projetos que dialogam com a história e a memória coletiva, através de novas funções e soluções arquitetónicas, em projetos como o Convento de São Francisco, em Vila Franca do Campo, São Miguel, de Teresa Nunes da Ponte, a reabilitação do Mercado do Bolhão, no Porto, por Nuno Valentim, o Arquipélago — Centro de Artes Contemporâneas, nos Açores, por Menos é Mais e João Mendes Ribeiro.
O terceiro eixo, intitulado “Ruturas e Novas Configurações”, apresenta obras que exploram novas linguagens, tecnologias e programas, antecipando novos modos de habitar, com especial atenção à sustentabilidade, à inovação e às transformações sociais e culturais contemporâneas, descreve a Ordem dos Arquitetos.
Este terceiro eixo reúne obras como o Hotel Dom Henrique, no Porto, de José Carlos Loureiro com Luís Pádua Ramos, o Museu do Côa, de Camilo Rebelo e Tiago Pimentel, ou o Centro de Interpretação do Românico, em Lousada, dos Spaceworkers, projetos que “evidenciam novas linguagens, abordagens tecnológicas e formas contemporâneas de habitar”.
Entre outros projetos em destaque na seleção fora de Portugal estão a Marginal da Baía de Luanda, em Angola, de Alexandre Costa Lopes, Cinco Jardins de Infância, na Guiné-Bissau, do Coletivo Mel, e o Desert X Al Ula Visitor Centre, na Arábia Saudita, de Ricardo Gomes, KWY.studio.
A Ordem dos Arquitetos ressalva que a exposição “não pretende ser exaustiva”, mas sobretudo “desafiar o visitante a olhar para além do passado, questionando os desafios do presente e antecipando o futuro”.
Urbanismo disperso fragiliza população, diz Ordem dos Arquitetos
O presidente da Ordem dos Arquitetos considerou esta quarta-feira que o urbanismo disperso em Portugal agrava as condições de segurança da população em caso de catástrofe e defendeu intervenções em rede, entre municípios, para ordenar rios e florestas.
“Se construirmos de uma forma sustentável, integrando bem as nossas cidades, os nossos espaços e respeitando o território, à partida as nossas construções resistem mais tempo”, disse o arquiteto Avelino Oliveira, em entrevista à agência Lusa a propósito da exposição que a Ordem inaugura esta quarta-feira, “Habitar Portugal”, e do atual momento que o país atravessa, com cheias, inundações, derrocadas, vias e equipamentos destruídos por uma sucessão de tempestades.
“Habitar Portugal” é uma exposição recorrente da Ordem, com a qual se pretende refletir sobre a arquitetura, contando ao mesmo tempo uma história, explicou à Lusa o arquiteto Avelino Oliveira.
“Quando estamos a fazer um edifício de arquitetura estamos a fazê-lo para que vá para lá da nossa geração. É esse o contributo que geralmente uma geração dá à seguinte, é que quando constrói, quando edifica, vai deixar esse património para a geração seguinte. Uma construção que só sirva uma geração é uma construção que não está a desempenhar a sua função”, defendeu.
O arquiteto lembrou, neste sentido, que o dia-a-dia faz por vezes esquecer que materiais mais baratos e de mais fácil aplicação podem não ser a melhor solução.
“Estruturas de rápida construção, mais metálicas – isto mais ligado às empresas – com materiais mais leves, foram mais afetados pelo fenómeno [Kristin], que foi fora do normal”, constatou.
A prevenção, sustentou, passa por melhorar o planeamento. “Há zonas que não podem estar expostas a construção”.
De acordo com o arquiteto, existem em Portugal vários mecanismos de proteção e um problema complexo, a tendência para o urbanismo disperso.
“Todos os grandes documentos falam de concentração urbana, o que significa criar núcleos urbanos ou industriais mais fortes, mais resilientes, com infraestruturas mais bem preparadas, em vez de ir ocupando terreno a terreno, ligados por estradas”, exemplificou Avelino Oliveira.
“O facto de estarmos perante uma situação de urbanismo disperso, de construção dispersa, fragilizou-nos”, admitiu o presidente da Ordem dos Arquitetos.
Além de hábitos e sistemas de planeamento “mais frágeis”, Avelino Oliveira identificou também que nem sempre são respeitados os instrumentos de planeamento: “Essa deve ser a lição que devemos tomar para o futuro. Não podemos estar dependentes apenas da construção caso a caso”.
“Temos de pensar que estamos a construir o território em conjunto e temos de pensá-lo em conjunto. Se estamos a pensar em unidades industriais, elas têm de ser encaixadas dentro de grupos de unidades industriais, cujas infraestruturas possam estar preparadas para tudo, inclusive para uma situação em que possa faltar energia e que seja preciso repô-la”, declarou.
O arquiteto pronunciou-se igualmente contra a construção em zonas de leito de cheia ou de proteção, em reservas, o que pode fragilizar outros sistemas.
“Nas nossas cidades, o único instrumento válido de que toda a gente fala é o PDM (Plano Diretor Municipal) e há uma série de instrumentos de gestão que são desprezados”, lamentou o responsável pela Ordem, enumerando os planos intermunicipais de ordenamento do território, entre outros.
“Essa é uma falha bastante significativa (…), ninguém pode ordenar um rio ou uma zona de floresta ou de reserva, um canal rodoviário, apenas pensando no seu próprio município, tem de ser em rede”, preconizou.