O presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses afirmou esta quarta-feira que o INEM não avisou previamente sobre alterações no atendimento do Centro de Orientação de Doentes Urgentes (CODU) durante a greve dos técnicos de emergência pré-hospitalar no final de 2024.
“Nós não fomos contactados previamente para nos avisarem de que havia uma alteração substantiva no atendimento”, afirmou António Nunes, na comissão parlamentar de inquérito (CPI) ao Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) para apurar responsabilidades durante a greve no final de 2024 e a relação das tutelas políticas com o instituto desde 2019.
De acordo com o responsável, os bombeiros e os cidadãos foram apanhados “completamente desprevenidos” com os atrasos na resposta às emergências.
António Nunes explicou que os corpos de bombeiros começaram a receber chamadas diretas de cidadãos que não conseguiam ser atendidos pelo INEM, situação que considerou “surpreendente e preocupante”.
“Houve atrasos sistemáticos no atendimento e muitos bombeiros ficaram sem perceber o que estava a acontecer”, vincou.
O dirigente sublinhou que, embora reconheça o direito à greve, deveriam ter sido acautelados serviços mínimos adequados, o que não aconteceu.
“Houve corpos de bombeiros que ficaram muito surpreendidos quando as pessoas começaram a ligar para eles”, relatou.
O presidente da LBP destacou ainda que a imagem pública do INEM contribuiu para a confusão.
“Os cidadãos ouvem falar no INEM e no CODU como entidades prestigiadas. Quando veem uma ambulância amarela dizem ‘vem aí o INEM’, e lá dentro estão bombeiros, não está o INEM”, salientou
Para António Nunes, o episódio demonstra falhas de planeamento e comunicação, com impacto direto na confiança dos cidadãos e na capacidade de resposta do sistema de emergência médica.
Presidente da Liga dos Bombeiros defende criação de comissão consultiva no INEM
António Nunes defendeu ainda a criação de uma comissão consultiva no INEM, alertando que falhas nas viaturas médicas de emergência e reanimação (VMER) e de ambulâncias no interior colocam vidas em risco. “O INEM deveria ter uma comissão consultiva onde os prestadores de serviço que estão no terreno possam participar”, afirmou.
De acordo com o responsável, a comissão consultiva do INEM deve integrar os prestadores de socorro no terreno, como os bombeiros e a Cruz Vermelha, para garantir maior transparência, coordenação e capacidade de resposta no sistema de emergência médica.
“Quando se diz que uma VMER respondeu 95% do tempo, esquecem-se os 5% em que falhou. E nesses 5% morreram duas pessoas”, exemplificou.
Associação diz que INEM “não é eficaz” e aponta “problema sociológico”
O presidente da LBP realçou que “há coisas que não podem falhar”.
“Quando a VMER de Évora não está disponível, a mais próxima é Beja ou Portalegre. Não pode ser”, lamentou.
António Nunes destacou que, ao contrário das grandes cidades, onde existe sobreposição de meios, o interior do país continua vulnerável.
“Se queremos um país mais coeso, temos de criar outras condições. Não é tudo igual”, observou.
O dirigente lembrou ainda que os bombeiros do interior enfrentam maiores dificuldades financeiras.
“Têm menos receita, menos sócios, menos apoio das câmaras, que também têm menos recursos. E depois querem comparar isso com Lisboa, Porto ou Coimbra”, sustentou.
O presidente da LBP alertou ainda para a necessidade de modernizar o sistema tecnológico do INEM, defendendo que todas as ambulâncias deveriam estar equipadas com tablets que permitam acesso imediato à informação clínica dos doentes, geolocalização dos meios e registo automático das operações.
Ex-presidente da Liga dos Bombeiros considera que Estado falhou na modernização do INEM
Para António Nunes, a ausência de equipamentos uniformizados continua a comprometer a eficiência do socorro.
“A ambulância devia ter um iPad [tablet]. Com ele coloco o número do utente, tenho a história clínica, sei para onde o doente deve ir e tenho geolocalização da viatura. A informação fica registada e não desaparece”, disse, sublinhando que a modernização permitiria reduzir erros e acelerar decisões críticas.
O dirigente recordou que há cerca de 1.800 ambulâncias e que o investimento necessário seria entre 10 e 15 milhões de euros.
“Algumas ambulâncias têm tablets, outras não. Algumas têm computador de bordo, outras não. Temos um sistema misto que dificulta o cumprimento dos diagramas de operação”, lamentou.
António Nunes revelou ainda que a Direção Executiva do Serviço Nacional de Saúde (DE-SNS) chegou a anunciar a compra de 500 tablets para equipar ambulâncias, mas “um ano e meio depois, os tablets não apareceram”.
Segundo o presidente da Liga, o INEM tem “algum atraso” nas áreas de tecnologia da informação, o que impede Portugal de operar um sistema integrado de emergência médica comparável ao de outros países europeus, alertando que não basta copiar modelos estrangeiros.
Entre 31 de outubro e 4 de novembro de 2024, durante a à greve às horas extraordinárias dos técnicos de emergência pré-hospitalar, registaram se 12 mortes, três das quais associadas a atrasos no socorro, segundo a Inspeção Geral das Atividades em Saúde (IGAS).
Composta por 24 deputados para apurar responsabilidades políticas, técnicas e financeiras relativas à atual situação do INEM, a CPI foi aprovada em julho do ano passado por proposta da IL.
O foco inclui a atuação do INEM durante a greve do final de outubro e início de novembro de 2024 e a relação das tutelas políticas com o instituto desde 2019.