Um deputado do partido Trabalhista britânico está sob pressão política após ter sido revelado que terá estado diretamente envolvido numa tentativa de associar jornalistas à propaganda pró-Kremlin e de mobilizar o GCHQ (serviços secretos responsáveis pela segurança e espionagem eletrónica) para investigar a origem de uma notícia que escrutinou os Trabalhistas. De acordo com as informações divulgadas pelo The Guardian, Josh Simons participou em mensagens enviadas a responsáveis de segurança cibernética britânica nas quais identificava jornalistas e sugeria ligações a redes russas.

A investigação revelou que nos emails, enviados às secretas britânicas em 2024, Simons pediu que ao GCHQ que investigasse a origem de uma reportagem do The Sunday Times, publicada em novembro de 2023, sobre o Labour Together, um thinktank britânico para debater ideias para o partido Trabalhista, não ter declarado 730 mil libras (cerca de 840.900 euros) em financiamentos políticos.

O thinktank acabou por ser multado em mais de 14 mil libras (cerca de 16 mil euros) pela Comissão Eleitoral britânica por violar as regras de transparência. À data dos donativos, a organização era dirigida por Morgan McSweeney, atualmente chefe de gabinete de Keir Starmer, o atual chefe do Governo britânico. É atribuída ao thinktank um papel importante na ascensão de Starmer ao cargo de primeiro-ministro.

De acordo com os emails consultados pelo jornal britânico, Josh Simons alegou junto das autoridades que a reportagem do Sunday Times fazia parte de um esforço para desacreditar o thinktank e enfraquecer Starmer antes das eleições. O deputado trabalhista referiu os nomes de Gabriel Pogrund e Harry Yorke, autores da notícia, sugerindo que o trabalho poderia estar ligado a uma campanha de desinformação russa. Foram também transmitidas informações pessoais sobre o jornalista independente Paul Holden, incluindo a alegação de que pertenceria a uma rede de extrema-esquerda que difundiria propaganda pró-Kremlin.

Os emails indicam, ainda, que Holden estaria a viver com a filha de Andrew Murray, — antigo conselheiro de Jeremy Corbyn, líder da ala esquerda —, descrito por Simons como alguém “suspeito de ligações aos serviços secretos russos”.

Thinktank ligado aos trabalhistas pagou quase 35 mil euros para investigar jornalistas

Segundo o The Guardian, não existem quaisquer provas credíveis de que estes jornalistas tenham participado em campanhas pró-Rússia ou de que a reportagem do Sunday Times tenha tido qualquer intuito além do de um trabalho de interesse público sobre o incumprimento da lei.

De acordo com os jornais ingleses, o thinktank terá contratado uma empresa de relações públicas para recolher informação sobre vários jornalistas que escreviam sobre o financiamento do grupo. Os jornais referem que foi contratada a APCO Worldwide, para tentar identificar as fontes dos jornalistas.

O deputado do partido Trabalhista enfrenta agora pedidos de demissão devido à decisão de pedir o relatório e à sua eventual utilização para influenciar investigações oficiais. Está também sob investigação da equipa de ética e deontologia do Gabinete do Governo britânico, que analisa o papel do deputado no pedido e divulgação do relatório. O gabinete de Simons afirma, porém, que estas alegações são falsas.