Não existe um único fabricante de baterias que não esteja avidamente a tentar produzir a primeira bateria sólida viável, tecnologia que permitirá disponibilizar acumuladores capazes de armazenar mais energia — garantindo uma autonomia superior —, suportar recargas mais rápidas sem aquecer em excesso e, ainda, serem mais baratos de fabricar. Mas, de uma forma ou de outra, este Santo Graal das baterias tem conseguido iludir mesmo os fabricantes de acumuladores mais reputados do mercado. De repente, surge uma startup finlandesa, a Donut Lab, que gritou eureka, afirmando que não só as suas células funcionam, como viram o seu potencial ser confirmado por testes independentes, algo que nunca tinha acontecido até aqui.
A Donut Lab já tinha surpreendido em Janeiro, quando anunciou que as células que estava a desenvolver conseguiam ser recarregadas em apenas cinco minutos. O sector encarou isto como mais uma reivindicação com pouco ou nenhum fundamento, similar a dezenas de outras que regularmente têm surgido vindas um pouco de todo o lado — com ênfase para a China —, sem que alguma vez existisse qualquer prova de uma bateria formada com células em que o electrólito que banha os dois eléctrodos seja sólido, em vez de ser líquido.
Agora, apenas um mês depois do primeiro anúncio, a startup nórdica tornou público uma série de testes realizados pelo VTT Technical Research Centre finlandês com as suas células, que provaram que estas conseguem recarregar de 0 a 80% em apenas quatro minutos e meio, para necessitarem de somente 7 minutos para carregar de 0 a 100%. Quase tão importante quanto a rapidez dos carregamentos destas células sólidas, foi a conclusão que a criação da Donut Lab era capaz de carregar a potências muito superiores ao máximo actual (400 kW), sem qualquer sistema de refrigeração activo.
Na indústria automóvel, a eficiência das baterias está dividida por níveis consoante a sua velocidade de carregamento que, por sua vez, depende não só da potência que sejam capazes de aceitar, mas também do período durante o qual essa potência se traduz no armazenamento de energia ao ritmo mais rápido, o que determina o C-Rate da bateria, ou Taxa C em português. Essencialmente, se uma bateria consegue carregar de 0 a 100% em 1 hora, então diz-se que tem uma Taxa de 1C, para os acumuladores que necessitam de apenas 1/2 hora serem 2C e se forem capazes de ir de “vazias a “cheias” em 12 minutos (⅕ de hora), então serão 5C.
As baterias formadas com as novas células da Donut Lab, a confirmar-se a capacidade de recarregar de 0-100% em 7 minutos, serão praticamente 9C. Para nos apercebermos das vantagens destas baterias sólidas face às tradicionais com electrólito líquido, temos de ter presente que mesmo as mais eficientes destas últimas, como as NMC 811, oscilam apenas entre 1C e 2C, sendo raras, para não dizer inexistentes, as 3C (0-100% em 20 minutos em testes independentes), o que significa que as sólidas representam um ganho brutal. Se a isto associarmos as vantagens de uma maior densidade energética, o que lhes permite armazenar a mesma energia num acumulador que é cerca de duas vezes mais leve e menos volumoso, uma vez que tudo aponta para os 270 Wh/kg que as melhores baterias tradicionais atingem dispararem para cerca de 500 Wh/kg, então os veículos eléctricos poderão tornar-se francamente mais atractivos. E baratos.