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Seja bem-vindo ao "Vos Circulares", o podcast do Observador, em parceria com a Associação Smart West Portugal, que nos fala de sustentabilidade e economia circular. Hoje vamos olhar para o setor da construção e perceber de que forma a inovação pode ajudar a tornar os edifícios mais sustentáveis e mais circulares, com recurso a uma tecnologia que ainda parece saída do futuro: a impressão 3D. Vamos conhecer o caso do empreendimento habitacional da Mariadeira, no município da Póvoa de Varzim, e perceber o que esta experiência pode trazer para o futuro da construção e da habitação no nosso país. Este é um episódio que conta com o apoio da Avelar. E para esta conversa tenho hoje comigo o José Maria Ferreira, CEO e fundador da Avelar, e o Edgar Brito, coordenador do projeto de empreendimento habitacional da Mariadeira. Muito obrigado aos dois por terem vindo à Rádio Observador. José Maria Ferreira, começaria aqui pelo princípio. Como é que nasceu a Avelar e o que é que distingue esta abordagem daquilo que estamos habituados a ver nos métodos de construção que são mais convencionais?

A Avelar nasceu para responder a um problema estrutural. Precisamos de construir mais habitação em menos tempo, com maior possibilidade e com menos dependência de processos artesanais. O que nos distingue não é apenas termos uma impressora 3D, é tratarmos um edifício como um sistema industrial digital. Começamos no modelo digital, planeamos a utilização dos materiais, automatizamos a execução das paredes e procuramos integrar instalações, caixilharias, coberturas e acabamentos. Na construção convencional, muitas decisões são resolvidas no estaleiro, através de operações excessivas. No nosso modelo, uma parte crescente destas decisões é antecipada no projeto e transformada em informação que a máquina consegue executar. Portanto, a impressora é uma ferramenta. A verdadeira inovação está na integração entre projeto, materiais, automação e construção.

Edgar Brito, olhando aqui um pouquinho mais em pormenor para o projeto da Mariadeira, qual é o principal objetivo deste empreendimento? De que forma é que também procura responder às necessidades das pessoas que vão habitar este espaço?

Se calhar, um pouquinho pelo início, porque este foi um projeto muito rápido, no sentido em que foi lançado há menos de um ano, era um dos últimos projetos PRR, poderia-se ter perdido esse financiamento e teria de ser concebido e construído em menos de um ano. O tipo de clientes que nós temos neste caso, estamos a falar originalmente de habitação de emergência, 32 estúdios, uma espécie de um hotel social para quem necessita, normalmente pessoas em situação de fragilidade, vítimas de violência doméstica, potencial de pessoas sem abrigo. Na realidade, quando nós desenhamos isto, nós temos várias coisas no nosso mindset. O primeiro é que tem que ser desenhado para bastante tipos de pessoas diferentes, não há um cliente fechado. E um segundo, tendo em conta que estamos a usar dinheiro dos contribuintes, que tem que ser tudo desenhado para durar.

E conseguiram esse objetivo? Em que fase é que está o projeto nesta altura? Falava-me de um ano.

Construído.

Ele está construído, está pronto a entregar?

Há cerca de dois meses que o projeto está concluído. Está-se a aguardar as ligações da rua. Uma obra que já deveria ter sido executada para as pessoas poderem ir habitar.

Estar completamente operacional. José Maria Ferreira, quando falamos em impressão 3D, no caso em particular dos edifícios, ainda parece uma tecnologia muito distante da realidade da construção atual. De forma simples, como é que funciona este processo? Que vantagens é que também traz? Já percebemos que são em termos de tempo, também de custos e imagino que na utilização dos próprios recursos.

Eu vou continuar a usar uma coisa que já uso há bastante tempo para explicar e até porque estamos a falar para um público em geral. Eu normalmente costumo explicar como é que funciona uma impressora 3D, como se estivesse na cozinha a fazer um bolo. Aperta um saco e imprime a decoração do bolo. Isto é para as pessoas perceberem exatamente como é que funciona uma impressora 3D.

Aquela saco de pasteleiro.

Exatamente. Eu costumo chamar à nossa impressora 3D uma pasteleira, que não é pasteleira.

Sim, mas estou a perceber a imagem.

Mas é exatamente esse objetivo, que é que se tenha uma noção exata do que é uma impressora 3D, o que é que ela faz.

Edgar, do ponto de vista da arquitetura, como é que se desenha um edifício para ser construído em impressão 3D? Isto é um desafio para os arquitetos? A tecnologia condiciona o projeto ou, pelo contrário, abre aqui também novas possibilidades?

É os dois.

Ok.

O nosso ateliê, que é um ateliê de arquitetura e engenharia, que colaboramos com a Avelar, aquilo que nós fazemos, nós começamos com a restrição. Nós não começamos com uma ideia, com um desenho, como se fazer qualquer coisa, nós começamos com a máquina. Quais são as restrições da máquina, o que é que a máquina nos possibilita e depois também como é que nós integramos todos os outros sistemas construtivos. De certo modo, este projeto foi uma oportunidade não só para a impressão 3D, mas para pensar como é que nós podemos construir para a impressão 3D, porque não é muito produtivo estarmos a pensar como usar a impressão 3D e depois construir tudo o resto de forma tecnologia dinossauro, tem que ser tudo readaptado. E todo este pensamento foi feito. É um enorme desafio, mas foi precisamente isto que permitiu construir a tempo e horas e com um orçamento muito reduzido.

José Maria Ferreira, falamos neste programa de economia circular. É fácil de identificar onde é que ela entra no modelo da Avelar. Imagino que a escolha de materiais, a redução de resíduos, a durabilidade e o eventual fim de vida destes edifícios entram aqui nas preocupações. Consegue dar-nos exemplos de como é que isto acontece na Avelar?

Acontece na Avelar e está a continuar a acontecer, porque isto é um processo muito evolutivo, porque é muito transversal, porque os materiais que podem ser usados são infinitos, eu diria até Neste momento estamos até com uma candidatura de um eco concrete, que é chegar a um concreto ecológico, onde podem ser usados diferentes tipos de materiais. Neste momento estamos a olhar para os têxteis, olhar para as lamas, até com a filtragem das águas. Estamos a olhar para reaproveitamentos, neste caso, de materiais que até é difícil levar a vazadouro e que podem ser usados ou como isolamentos ou até como material que pode integrar na própria impressão. Portanto, é uma coisa que há de continuar e há de ser uma coisa bastante interessante na impressão 3D, que é usar e reciclar todos esses materiais. Para além de que a própria impressão 3D usa um terço do betão, quer dizer que nós construímos com muito menos betão, portanto, com muito menos materiais, e só aí, por si só, já temos uma redução bastante grande da utilização do material, assim como também em termos de isolamentos. Nós podemos usar, porque a parede da impressão 3D, nós podemos lá meter uma série de materiais. Neste momento estamos a usar até cortiça em final de vida, por exemplo. E com tudo isto conseguimos isolamentos incríveis. Portanto, a utilização e a reciclagem, neste caso, de materiais é uma coisa que nos interessa muito integrar na impressão 3D.

Edgar Brito, no caso da Mariadeira, que critérios é que estiveram na base da escolha dos materiais e conseguiram aqui soluções alternativas ou inovadoras, porque temos que conciliar também sustentabilidade, conforto, mas também durabilidade?

Sim, eu diria, normalmente começamos pela durabilidade. É habitação social, tem que ser feito para durar. Nós dizemos que é tudo projetado por uma certa violência, para conseguir aguentar com isso. Para ser forte, tem que ser robusto. Isto é, se pensamos que vamos construir habitação social com pladur e este tipo de tecnologias, acho que não estamos a fazer um bom serviço. Começa por aí, a durabilidade é o mais importante. O ponto seguinte, óbvio, a sustentabilidade, porque é uma decisão que é feita agora e que é irreversível, e portanto a sustentabilidade vem desde todos os materiais. O primeiro é usar o mínimo possível, o mínimo indispensável. Tudo onde não necessitamos rebocos, não usamos. Tudo o que possa ser retirado, um exercício de subtração. Depois, como o José Maria acabou de referir muito bem, isolamentos como a cortiça são fantásticos.

Só para perceber uma coisa, a cortiça já sai da impressora ou ela depois é aplicada?

Sim, imprime-se duas camadas, o betão impresso, e depois aquilo que se compra vem cortiça nos big bags, granulada.

E é aplicado...

E faz-se um furinho e deixa-se cair. E na realidade, a cortiça é utilizada porque é mais fácil, não só por ser natural, mas também por ser muito fácil. Portanto, todos os processos também têm que ser com a fase.

É um material de bom isolamento, como sabemos.

Natural. Também temos, se calhar é importante referir, temos umas borrachas recicladas que utilizamos muitas vezes para as solas de sapatos, que são usadas para tudo que seja transição de materiais, temos uma pequena startup portuguesa. Sempre que conseguimos, vamos integrando esse tipo de tecnologias e de reutilização de desperdícios, que nos parece que é um ponto muito importante. Sermos, digamos, de certo modo, os chefes de fila dessa plutão.

José Maria Ferreira, há resultados concretos que já se podem medir neste projeto do Mariadeira, quando comparado com o modelo de construção mais convencional. O Edgar já aqui falou um bocadinho no tempo de construção, mas imagino que também em menos resíduos, em menos custos, em menos impacto ambiental.

Sim, já está aprovado. Aliás, temos uma obra até anterior à Mariadeira, que também tem uma relação muito grande com a Reciclar, em Matosinhos, onde inclusivamente as paredes até estão a ser seguidas e até monitorizadas pela Faculdade de Engenharia do Porto, em termos de isolamentos. Mas no caso da Mariadeira, o importante aqui foi termos passado de um protótipo a uma operação real. Isto por quê? Porque não só conseguimos testar a rapidez da construção, neste caso, sistemas construtivos, por exemplo, o caso do Edgar Brito, por exemplo, o caso das coberturas, que é uma cobertura seca, com uma performance incrível em termos de isolamento, assim como determinados sistemas construtivos, por exemplo, todas as portas e janelas desta Mariadeira, todas elas são o que eu chamo portas inteligentes. Inteligentes porque todas essas portas têm uma tomada, têm um interruptor e têm luz. Quer dizer, que é uma coisa que normalmente nos sistemas construtivos tradicionais não são aplicados. Portanto, há aqui uma série de coisas, nomeadamente as casas de banho, por exemplo, onde vai já tudo incorporado, desde toda a instalação da água, luz, etc. E são elementos que podem ser sempre acrescentados e amanhã podem ser mudados. Pode mudar de uma casa de banho para um arrumo ou para uma cozinha, o que quer que seja, são funcionais.

É fácil essa transformação?

É fácil. E uma grande particularidade que tem esta Mariadeira é que a dada altura são dois estúdios que estão separados, que por si só, com o retirar uma parede que une, neste caso, até uma sala, pode passar a ter dois estúdios e pode aumentar. Portanto, esta facilidade de aumentar e diminuir a habitação é versátil. Por isso, a Mariadeira para nós foi realmente um case study onde nós testamos ao limite, não só a durabilidade, mas também a funcionalidade da habitação.

Edgar Brito, há na execução deste projeto desafios que não esperavam? Imagino que de um projeto como este se retirem sempre algumas aprendizagens. Alguma que destaque neste caso em particular do Mariadeira?

Eu diria, há várias. A principal tem a ver com a própria equipa e com a forma de fazer projeto. Começamos no início, temos de focar não apenas no nosso desenho, mas começar com as restrições, começar com a máquina, começar com os produtos que temos disponíveis ou a procurar aquilo que permite executar. A Mariadeira foi o primeiro projeto que eu sei que é inteiramente estrutural o betão, não há estrutura nenhuma no interior. Em regra, o que se faz, imprime-se e é um betão fantástico e depois vai-se meter uma estrutura no interior. Esta foi a primeira vez que se definiu um sistema que é efetivamente estrutural e eu acho que uma operação desta dimensão é única na Europa, que eu conheço. Portanto, isto foi uma grande tecnologia, uma grande inovação. Há esse ponto, e que teve a ver toda a equipe, que é: como é que nós conseguimos sempre otimizar, melhorar processos, tornar isso melhor? Portanto, é um exercício de rigor, precisão extrema e que depois que esteja adaptado. Porque havia também uma coisa que o José Maria dizia: "Isso tem que ser construído por uma pessoa sem qualquer tipo de formação, que apareça aqui amanhã. Como é que nós fazemos uma obra desta natureza?" E, portanto, todos os processos que levaram à simplificação, o José Maria, por exemplo, referiu, nós não temos roços nas paredes, não temos instalações a passar, vem tudo pelas portas, por ombreiras. Às vezes as portas, as pessoas acham que parecem muito mais caras, mas efetivamente há uma redução de processos e, portanto, podemos apostar em melhor qualidade. Depois, desafio de projeto, desafios de obra, eu acho que tem a ver com mentalidades do início. Eu lembro, por exemplo, quando falámos com o nosso pistoleiro, canalizador, ele achou muito estranho termos só uma parede com uma placa de pedra com tudo colocado, que nunca tinha visto uma coisa assim.

Há aqui uma questão cultural ainda a ultrapassar.

E depois de fazer as primeiras, disse: "Eu gostava era de fazer todas assim, porque reparei que faço isto em metade do tempo".

É mais prático. Estamos aqui a ficar sem tempo. José Maria Ferreira, queria tentar perceber também o que é que falta para que um modelo de construção deste possa ser mais vezes replicado noutros projetos, principalmente com a finalidade que tem o Mariadeira, promovido se calhar também por municípios, numa altura em que tanto se fala da falta de habitação. Há entraves a algum nível legal?

Eu não gosto de complicar esses níveis, porque claro que todos nós temos obrigações de olhar para isto e todos nós temos tempo para olhar para isto quando quisermos e até mesmo politicamente, isto pode ser uma coisa fácil também de se olhar e de se replicar. Temos é que deixar, e todos nós, falo de uma forma geral, temos é que deixar de ser um bocadinho "primeiro experimentas tu e depois se funcionar, eu olho". Temos que, de alguma forma, voltarmos se calhar todos a sermos crianças e a sermos mais criativos, mais aventureiros, mais divertidos, no fundo, porque toda esta rigidez que acontece hoje a todos os níveis, não é só na construção, não permite que as pessoas tenham criatividade e que estejam recetivas às novas tecnologias. Eu continuo a dizer que todos estes sistemas, tal e qual como na indústria automóvel, muitas vezes não têm que partir do construtor. Eu acho que o construtor está viciado de tal forma na construção tradicional que não vai estar atento a estas novas tecnologias.

Tem que partir do promotor.

Tem que partir, talvez, da parte acadêmica, dos novos jovens que saem das faculdades e das universidades, porque realmente isto é muito mais divertido. Porque isto é controlado como uma consola, é tecnológico, é uma coisa muito mais fácil para a camada jovem. Eu até chamo bastante a atenção a isto e costumo usar isto, porque nós temos que criar melhores condições na construção civil e melhores empregos. Por isso, eu acho que toda esta construção 3D ou construção do futuro, se assim se pode dizer, eu acho que é mais dedicada aos jovens e aos novos jovens.

Serão eles que farão a transformação mais naturalmente.

Exatamente.

Muito bem, José Maria Ferreira, Edgar Brito, agradecer-lhes por esta conversa sobre inovação, sobre habitação e novas formas de construir de forma mais sustentável, mais circular. O projeto da Mariadeira mostra-nos que a economia circular também pode passar pela forma como pensamos e construímos espaços onde vivemos, procurando aqui também nesse processo reduzir desperdícios, utilizar melhor os recursos e encontrar novas soluções para responder às necessidades da habitação. Este foi o "Votos Circulares", podcast d'"O Observador" em parceria com a Associação Smart Waste Portugal, num episódio que contou com o apoio da Avelar. Junte-se a nós no próximo programa. Continue a descobrir tudo sobre sustentabilidade e economia circular.