O Serviço de Urgências do Hospital de Santo André, em Leiria, recebeu quase dois mil feridos até 16 de fevereiro, um dia após o fim do estado de calamidade decretado pela passagem da depressão Kristin, afirmou a Unidade Local de Saúde (ULS).
Entre 28 de janeiro e 16 de fevereiro, as urgências daquele hospital admitiram 1.936 doentes com traumas, 141 dos quais graves ou muito graves, segundo dados enviados à agência Lusa por fonte oficial da ULS da Região de Leiria.
Ao longo de quase três semanas, o hospital registou 28 grandes traumatismos graves, 23 traumas graves em membros, sete quedas graves e 24 traumas cranioencefálicas graves ou muito graves, referiu.
“Durante estes 19 dias, atingimos mais de 1.900 casos de ortotrauma. Desses, mais de 200 foram operados aqui pelos nossos serviços e só foi necessário transferir para hospitais de referência — Coimbra ou Lisboa — 30 casos”, disse à Lusa o presidente da ULS de Leiria, Manuel José Carvalho.
Para o responsável, o hospital, com duas equipas de ortopedia e equipas de cirurgia reforçadas, conseguiu “responder às necessidades, em termos de catástrofe”.
Segundo Manuel José Carvalho, o conselho de administração, às 08:30 de 28 de janeiro, já estava reunido com todos os serviços do Hospital de Santo André para ativar o plano de catástrofe e suspender toda a atividade programada do hospital, para se preparar “para aquilo que estava para vir”.
Sem comunicações externas e com falta de profissionais retidos em estradas cortadas, o Hospital de Santo André adaptou-se às circunstâncias, graças também ao “espírito de missão dos profissionais”, vários deles a “viver a catástrofe”, com as suas casas ou de familiares afetadas, vincou.
“As pessoas rapidamente se organizaram”, notou, referindo que, apesar de a afluência de casos de trauma ter diminuído ao longo de um mês, o “fluxo continua a surgir” e continuam a ser registados casos, sobretudo relacionados com quedas de telhados e trabalhos de reparação.
Depois do caos dos primeiros dias, Hospital de Leiria ainda sente efeitos da tempestade
A 28 de janeiro, chegou uma torrente de feridos, alguns nos seus carros, ao Hospital de Leiria, que estava sem comunicações e com trabalhadores retidos nas estradas. Um mês depois, o ritmo abrandou, mas ainda se sentem os impactos da tempestade.
Só nas primeiras seis horas após a passagem da depressão Kristin pela região de Leiria, o Hospital de Santo André recebeu 177 pessoas com mais do que um trauma — alguns dos quais graves ou muito graves. Ruben Fidalgo, enfermeiro gestor do serviço de urgência, põe os números em perspetiva: “Há hospitais que a partir de quatro ou cinco politraumatizados, acionam logo a chamada gestão de catástrofe”.
Se o fluxo de doentes a entrar nas urgências era grande, os efeitos da tempestade dificultavam ainda mais a ação dos profissionais de saúde.
As estradas cortadas pela queda de árvores retinham enfermeiros, médicos e assistentes para render as equipas do turno da noite. Doentes não conseguiam ligar ao 112, a falta de comunicações não permitia contactar com outros hospitais, as ambulâncias tinham dificuldade em fazer a circulação normal no hospital, com estruturas caídas na envolvente, contaram à agência Lusa vários profissionais de saúde do Hospital Santo André, integrante da Unidade Local de Saúde (ULS) de Leiria.
Nesse dia, Ruben Fidalgo, de 38 anos, acorda às cinco da manhã, em Coimbra, onde vive, com a Cruz Vermelha a perguntar-lhe se sabia se estava tudo bem com o seu hospital.
Percebendo que algo se passava, mas sem saber o quê, o enfermeiro põe-se à estrada em direção a Leiria. O percurso de uma hora acaba por demorar quatro — encurtado, mesmo assim, pela ajuda de uns bombeiros que o reconheceram na fila da A1 e o ajudaram a passar.
Às 09:00, quando finalmente chega ao Hospital de Leiria, encontra “um cenário devastador”. “A primeira coisa que fiz foi absorver o ambiente, que estava a entrar em ebulição”, recorda à Lusa o enfermeiro.
“Percebi que a coisa ia ser complexa”, diz.
No serviço, não se sabia que colegas poderiam chegar para render as equipas da noite, com vários retidos ou a chegar com muitas horas de atraso. Outros, que nem estariam escalados, apareceram para ajudar.
Um dos casos que marcou Ruben o foi de um homem politraumatizado, que caiu de uma altura superior a sete metros, que vinha em cima de uma tábua num porta-bagagens de um carro e outro de um filho que, sem conseguir ligar ao 112, trouxe a mãe em paragem cardiorrespiratória no banco do pendura.
O diretor do serviço de ortopedia, António Santos, morava muito mais perto que Ruben do hospital, mas nesse dia, o percurso habitual de dez minutos entre os Marrazes e Leiria alongou-se por duas horas.
Quando chegou, viu um serviço de urgência “caótico”, cheio de gente para ser atendida.
O primeiro caso que apanhou foi o de um homem que dormia num atrelado em Fátima e chegou “cheio de fraturas”, sem que o médico com 40 anos naquele hospital conseguisse perceber ao início como é que aquilo tinha acontecido. “O atrelado tinha voado”, recorda António Santos.
Também Elisabete Valente, diretora do serviço de anestesiologia, percebeu logo assim que chegou às urgências que ia haver “muito trabalho de traumatologia no bloco operatório”.
“Tivemos de nos reorientar nessa tarefa. A grande dificuldade que eu tinha era mesmo comunicar com os meus colegas”, afirma à Lusa a médica que no primeiro dia fez 30 horas seguidas a trabalhar e contabilizou duas semanas sem dias de descanso — ela e o restante serviço. Outros passaram três e quatro dias no hospital sem ir a casa.
Em cinco dias, operaram-se “mais de 100 doentes”, vinca António Santos.
Houve muita coisa que teve de mudar no espaço de horas no Hospital de Leiria. O primeiro doente urgente a sair para Coimbra teve de ir de helicóptero, mesmo sendo uma viagem mais demorada, porque não havia passagem por terra — e ainda se teve de limpar a pista “que estava cheia de escombros”.
As ambulâncias que chegavam com um doente eram retidas para uma outra viagem – que o hospital não tinha como as chamar -, militares da GNR tiveram de ir buscar sangue a Coimbra, doentes com alta e que ocupavam vagas preciosas iam com assistentes sociais até às suas casas por impossibilidade de ligar às famílias.
Profissionais de saúde de outras áreas foram desviados para as urgências, criou-se uma zona para altas e uma pré-triagem fora da urgência, com um profissional a decidir quem era realmente doente grave. Na morgue, voltou-se ao papel.
Ao mesmo tempo que as urgências estavam em ebulição, havia muitas outras questões para tratar, não menos emergentes.
Diogo Urjais, coordenador da unidade de gestão do departamento de cuidados de saúde primários da ULS, recorda a importância de dar resposta a doentes que fazem diálise e que têm máquinas de oxigénio, em que havia a necessidade de assegurar uma resposta rápida.
“Era preciso encontrar os utentes e alguns não estariam nas suas casas, que ficaram destruídas. Foi necessário informar os bombeiros para irem às casas dos doentes e, quando não eram encontrados, acionar as forças de segurança”, afirma.
Com uma ULS com “101 portas abertas”, entre hospitais, centros de saúde, extensões e outras unidades, e sem comunicações, foi também necessário chegar a todos os pontos, para perceber os estragos e falhas que pudesse haver, explica o enfermeiro.
Já no hospital, os dias seguintes continuaram a ser de grande afluência, com inúmeras situações de quedas de pessoas que procuravam reparar os seus telhados à chuva, “desesperadas”, afirma Ruben Fidalgo.
Apesar disso, a 29 de janeiro, o enfermeiro gestor do serviço de urgência sentiu que já era possível respirar “um bocadinho”, que o hospital, mesmo continuando com grande afluência, já estava “muito organizado” para dar resposta às circunstâncias. Passado quase um mês, os efeitos, mesmo assim, ainda se sentem.
Na última segunda-feira, houve 300 entradas nas urgências do Hospital de Leiria, quando a média são 250. “O aumento é trauma”, explica Ruben Fidalgo.
Também António Santos sente ainda algum reflexo da depressão. Noutro dia, surgiu um homem de 78 anos que subiu a uma árvore para limpar o quintal afetado pela tempestade para a sua mulher acamada ter “uma vista desimpedida”.
“Agora, mulher e marido estão incapacitados”, lamenta. Olhando para trás, o médico veterano não evita falar do orgulho na resposta do hospital perante o que aconteceu: “Nunca perdemos a cabeça”.