Os CEO são uma “raça” de empregados com uma vida muito complicada, pois tanto podem receber milhões como podem ser despedidos no instante seguinte. São considerados os maiores quando os resultados comerciais são bons e enchem os bolsos dos accionistas, mas passam rapidamente de “bestiais a bestas” quando a distribuição de dividendos a partilhar com os investidores baixa. Carlos Tavares, o CEO português que geriu a PSA desde 2014, presidiu à fundação da Stellantis (resultante da fusão entre a PSA e a FCA) em 2021, realizando um equilíbrio quase impossível entre os interesses da família Peugeot (dona da então PSA) com os da família Agnelli (que fundaram a Fiat em 1899 e lideraram a FCA até 2021), sem contudo ferir as susceptibilidades dos americanos da Chrysler (o “C” da FCA). Tavares foi acusado de receber anualmente uma fortuna em salários e os correspondentes prémios, até pelo Presidente francês Emmanuel Macron, mas Antonio Filosa, o novo CEO que assumiu o lugar que foi de Tavares em Junho de 2025, não lhe ficou atrás pois, apesar dos elevados prejuízos da Stellantis no ano passado, conseguiu receber o que um empregado do grupo ganha em “apenas” 82 anos.

Carlos Tavares demite-se da presidência da Stellantis “com efeitos imediatos”

Apesar de a Stellantis ser holandesa, os governantes franceses nunca se inibiram de criticar os ganhos de Carlos Tavares, talvez por erradamente acharem que ainda estavam nos tempos da PSA, controlada pelos franceses da família Peugeot. Tavares tinha o seu salário, que “apimentava” legalmente e de forma prevista no contrato com os prémios por desempenho, uma vez que, sob a égide do gestor português, o grupo ítalo-francês-americano registou lucros de 13,4 mil milhões de euros em 2021, 16,8 mil milhões em 2022, 18,6 mil milhões em 2023 e 5,5 mil milhões em 2024, ano em que abandonou o grupo. Este desempenho permitiu a Tavares levar para casa 36,5 milhões de euros em 2023, em que 71,5% (cerca de 26,1 milhões) provieram dos incentivos por objetivos, não só de vendas e de lucros, mas também por ter reduzido fortemente a média das emissões de CO2 do grupo na Europa.

Filosa, da Fiat, substitui Tavares na Stellantis

Mesmo em 2024, o seu ano de saída, o gestor luso recebeu 23 milhões de euros, o que não deixa de ser impressionante num período em que os lucros do grupo caíram cerca de 70%, mas ainda foram resultados positivos num ano longe de ser fácil. Antonio Filosa, que esteve aos comandos da Stellantis apenas no 2.º semestre, levou para casa 5,4 milhões de euros, o que incluiu 1,4 milhões de salário base, a que somou 374.000€ de benefícios atribuídos pela empresa e 1,5 milhões como COO na divisão norte-americana do grupo. Isto embora a Stellantis tenha declarado 22,5 mil milhões de euros de prejuízos, o que o impediu de ter direito a prémios por desempenho.

As críticas a Filosa surgiram associadas ao facto de o valor recebido pelo CEO ter sido, ainda assim, bem superior ao rendimento médio de um empregado da Stellantis nos EUA. O sindicato United Auto Workers fez questão que se soubesse que, mesmo num ano de prejuízos, ou seja, sem prémios, o CEO conseguia receber o que um empregado do grupo leva para casa durante 82 anos. Isto se fosse fisicamente possível trabalhar até por volta dos 100 anos para o grupo.