Eduard Titov viajou para o Cazaquistão para ir a um casamento e planeava ficar apenas dez dias. No entanto, acabou por prolongar a estadia por mais quatro meses. Durante esse período, apercebeu-se de como podia ser difícil criar novas amizades e socializar num país desconhecido. Tentou recorrer ao Tinder e a outras aplicações de encontros, mas a experiência, conta ao Observador, “foi terrível e uma perda de tempo”. Quando regressou à Lituânia, onde viveu a maior parte da vida, teve uma ideia: criar uma aplicação que tornasse os encontros entre pessoas mais imediatos e naturais.  O projeto acabou por ganhar forma quando se juntou a Jurate Plungyte, antiga diretora de marketing da Uber do país, que partilhava a visão de construir uma alternativa aos modelos tradicionais de socialização digital. Em conjunto, fundaram a Joiner, e decidiram escolher Portugal como o primeiro mercado internacional.

A aplicação é apresentada como “o oposto de uma aplicação de encontros” e foi criada para combater dois fenómenos: a solidão urbana e a exaustão com as dating apps, um sentimento cada vez mais comum entre os utilizadores, segundo um estudo da Forbes Health. Em vez de privilegiar interações online com uma intenção romântica, a proposta centra-se na criação de ligações sociais através de experiências partilhadas no mundo real e procura contrariar a lógica do swipe infinito que, para Eduard, “cria a sensação de que pode sempre existir alguém melhor”. A Joiner não se baseia em sistemas de matching nem na avaliação de perfis, mas sim na organização e descoberta de encontros coletivos, “sem a pressão das relações um para um”.

▲ Eduard Titov e Jurate Plungyte, fundadores da Joiner

© Joiner

Para além de descobrirem e participarem em propostas que correspondam aos seus interesses, os utilizadores também podem assumir o papel de anfitriões, organizar encontros, criar iniciativas próprias e formar pequenas comunidades. Em alguns casos, existe ainda a possibilidade de gerar rendimento a partir dessas iniciativas. Desde sessões de karaoke a visitas a museus, jantares em casa ou à prática de diferentes modalidades desportivas, cada utilizador pode criar ou aderir ao tipo de convívio que mais lhe interessa.

Na prática, o funcionamento é simples: os utilizadores podem escolher o que querem fazer através de um feed com os eventos disponíveis. Quem cria a atividade pode consultar quem pretende participar e decidir se aceita ou não a entrada no grupo, podendo ainda aceder ao perfil dos candidatos, ver fotografias e interesses pessoais. “A app funciona, no fundo, como uma rede social, com chats e um sistema de seguidores”, explicou Eduard. A plataforma permite ainda selecionar idiomas para encontrar propostas adequadas às preferências linguísticas de cada utilizador.

▲ A app funciona como um catálogo interativo que permite aos utilizadores explorar um feed local de eventos e experiências presenciais em grupo

© Joiner

A plataforma digital foi lançada na Lituânia há cerca de 20 meses e já conta com aproximadamente 50 mil utilizadores. Depois de vários testes noutros mercados, os fundadores escolheram Portugal como primeira aposta internacional. A decisão surgiu após uma visita a Lisboa durante a Web Summit, em novembro do ano passado. “Apaixonámo-nos pela cidade e, após várias reuniões, acabámos por alterar o local de lançamento [inicialmente, o país previsto era Espanha]. Lisboa é uma cidade muito dinâmica, onde acontecem muitas coisas. Em poucos dias, tivemos a sensação de que era o lugar certo e seguro para lançar o nosso produto”, confessa a cofundadora. “As pessoas falam inglês aqui e isso é super importante para nós”, acrescenta Eduard.

A aplicação de atividades de grupo é dirigida sobretudo a dois grandes públicos: expatriados que procuram integrar-se numa nova cidade e residentes locais que estão interessados em novas experiências e em alargar o seu círculo social. “Queremos transformar o ecossistema social das cidades. Existem turistas, locais e pessoas que acabaram de se mudar, mas muitas vezes não sabem como se aproximar. O objetivo é tornar a cidade num espaço mais acolhedor para todos”.

“Depois do lançamento da aplicação, já participei em mais de 600 atividades”

A Joiner organiza as atividades por área geográfica, mostrando apenas um raio aproximado de cinco quilómetros. Os interessados pedem para participar e ficam numa lista de espera. Como o anfitrião ou o criador do evento pode consultar os perfis dos candidatos — incluindo contas de Instagram associadas — existe um maior controlo sobre a dinâmica do grupo e reforça a segurança, de acordo com os fundadores. Após a aprovação, a localização exata é revelada e o utilizador passa a ter acesso ao chat do grupo, onde são combinados os detalhes antes do encontro presencial.  “Ainda não tivemos registo de problemas de segurança. As pessoas sentem-se mais protegidas quando estão em grupo. Muita gente tem medo de utilizar o Tinder, por exemplo, porque os encontros, se existirem, são de um para um”, contam.

Ao operar num ecossistema pessoa-a-pessoa (P2P), a Joiner procura garantir que os eventos sejam organizados por utilizadores e não por entidades comerciais, bloqueando publicidade direta e conteúdos promocionais dentro da plataforma desenhada para privilegiar “interações sociais autênticas”. Existem propostas para diferentes interesses, desde convívios para jantar em casa, sessões de pintura, ioga ou até momentos de aprendizagem, como a partilha de línguas. “Depois do lançamento da aplicação, já participei em mais de 600 atividades”, afirmou Eduard.

▲ Eduard já participou em mais de 600 encontros através da plataforma, incluindo um concerto realizado num rooftop

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Para simplificar a organização das atividades, a plataforma recorre a Inteligência Artificial. Ainda assim, Eduard sublinhou que a tecnologia tem apenas um papel de apoio. “Não somos uma plataforma de IA. Queremos que as pessoas saiam do telemóvel e se encontrem no mundo real. A ferramental é usada para facilitar a descoberta de propostas, sugerir ligações sociais e acelerar tarefas como a criação de descrições de eventos, que podem ser geradas em segundos”, explicou.

Por enquanto, a Joiner é gratuita para os utilizadores, embora já esteja a ser desenhada uma estratégia de monetização futura. O modelo deverá combinar parcerias com negócios locais — como cafés, bares ou espaços de coworking — com a economia de criadores e um sistema de subscrição premium em desenvolvimento. Os fundadores sublinham, no entanto, que as atividades terão de continuar a ser dinamizadas por pessoas individuais e não por entidades comerciais.

“Não era o nosso objetivo, mas estamos a criar casais. Há quem já tenha casamento marcado”

Desde o lançamento da Joiner na Lituânia, vários relatos de utilizadores surpreenderam Eduard e Jurate. “Eu gosto de uma história em que homem introvertido me abordou. Disse que quando se mudou para Vilnius não conseguiu encontrar nenhum amigo em nove meses. Agradeceu-me porque, após dois dias na aplicação, encontrou várias pessoas com quem sair e muitas atividades”, contou o cofundador. “Falámos também com um utilizador que vai para as montanhas da Bolívia com um grupo de amigos que conheceu através da Joiner”.

Os dois fundadores explicaram que, embora a aplicação não tenha sido concebida como uma plataforma de encontros — e se posicione como o seu oposto — vários utilizadores têm arranjado um par romântico, até mesmo dentro dos seus grupos de amigos. “Não era o nosso objetivo, mas estamos a criar casais. Há quem já tenha casamento marcado”, disse Jurate. “É um tipo de relacionamento que surge de forma mais natural. Muitas pessoas não tinham expectativas românticas, mas acabam por conhecer pessoas offline e perceber que existe uma ligação diferente. Já conhecemos vários membros que vivem juntos no mesmo apartamento”, acrescentou.

Os estudantes de Erasmus em Vilnius são um dos grupos que mais partilham histórias. “Há muitas histórias bonitas que nos chegam, especialmente por parte destes alunos da faculdade. Eles encontram alojamento, fazem amigos, viajam, vão a cafés, ao teatro ou participam em diferentes atividades sociais. Muitas coisas acabam por acontecer através da plataforma”, contam.

▲ A cofundadora Jurate Plungyte é a ex-ex-diretora de marketing (CMO) da Uber na Lituânia

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Nos próximos meses, o foco da Joiner estará sobretudo na captação de novos utilizadores, acompanhada por um investimento mais significativo em marketing. O grande objetivo passa por ultrapassar os 250 mil utilizadores, com especial incidência nas cidades de Lisboa e Porto, antecipa a cofundadora. Numa semana e meia, a aplicação teve mais de mil downloads na capital e cerca de 12 mil encontros e experiências já foram organizados através da plataforma.

O lançamento oficial da Joiner acontece esta sexta-feira. Por agora, a empresa “está a investir mais de 300 mil euros na contratação de equipas locais nas áreas de marketing e tecnologia”, posicionando Portugal como base operacional da sua estratégia de crescimento para outros mercados. O plano dos fundadores passa por expandir para Espanha ainda este ano e talvez um dia chegar aos Estados Unidos.